Xiitas: A “segunda classe” da Casa de Saud

Entrevistas com o dissidente Ali al-Ahmed e Toby Matthiesen, autor da obra de referência The Other Saudis: Shiism, Dissent and Sectarianism.  (Ler mais| Read more…)

Protesters in Beirut display images of Sheikh Nimr al-Nimr, whose execution, by Saudi Arabia, set off violent protests across the Middle East. © Hasan Shaaban |Reuters

Manifestantes xiitas em Beirute, capital do Líbano, protestam contra a execução do xeque e ayatollah saudita Nimr al-Nimr
© Hasan Shaaban |Reuters

Ali al-Ahmed não ficou surpreendido com a execução do xeque Nimr al-Nimr, líder espiritual da maior minoria xiita árabe do Médio Oriente. “Os sauditas estão em apuros”, diz-me o director do Institute for Gulf Affairs, em Washington, numa entrevista por telefone.

“O regime precisa de atemorizar e silenciar o povo. A guerra no Iémen é um fiasco. Os planos para a Síria são um fracasso. A intervenção militar no Bahrain revelou-se desastrosa. O Iraque progride contra o Daesh [o autoproclamado “estado islâmico”]. E a economia está em crise devido à descida dos preços do petróleo.”

Ao dar luz verde à pena capital de Nimr e de outras dezenas de opositores, adianta Ahmed, “o governo quis enviar uma mensagem clara, a xiitas e sunitas: ‘Nós é que mandamos, e este será o vosso destino se ousarem sublevar-se’.”

Tal como o xeque Nimr, o jornalista Ali al-Ahmed vivia em Qatif [ou Catifa], “conquistada em 1520 pelos portugueses que aqui deixaram um forte”, na Província Oriental da Arábia Saudita.

Aos 14 anos, “apenas por ser xiita”, tornou-se o prisioneiro político mais jovem do país. Hoje, aos 50, continua a sua luta pela “igualdade de direitos, separação de Estado e religião, uma república”.

Numa conversa telefónica, deixa um aviso: “Não esperem reformas enquanto a família que deu o nome ao reino se mantiver no poder.”

Protestos no Bahrain - reino de maioria xiita governado por uma família real sunita - contra a execução do xeque sauditaNimr al-Nimr © Hasan Jamali | Vahid Salemi | Associated Press

Protestos no Bahrain – reino de maioria xiita governado por uma família real sunita – contra a execução do xeque sauditaNimr al-Nimr
© Hasan Jamali | Vahid Salemi | Associated Press

A dissidência de Ahmed é herança paterna e materna. “A nossa luta não é comunal, mas contra a Casa de Saud. Muitos dos meus antepassados pertenciam a tribos sunitas que se converteram ao xiismo. Um dos meus tios foi preso por pertencer a um partido com militantes sunitas e xiitas. Tenho amigos sunitas e até wahhabitas [a doutrina islâmica ultraconservadora imposta por Muhammad ibn Abd al-Wahhab (1703-1792) na sequência de uma aliança com o rei fundador, Ibn Saud]. ”

Na cadeia ainda está o irmão mais novo, de 42 anos, a cumprir uma sentença de 17. Será o castigo por Ahmed ter procurado refúgio nos EUA de onde denuncia os crimes da monarquia. “Um dia convidaram-me a regressar.”

“Ofereceram-me até dinheiro. E perguntei: ‘Por que nos perseguem? Nós [xiitas] somos uma minoria. Poderíamos, como todas as minorias, ser até mais leais do que a maioria sunita’. Responderam-me que a culpa era do Irão. Eu retorqui: ‘Mas somos discriminados muito antes de o Irão ser um espinho. O vosso problema é ideológico. O Irão é apenas m pretexto. O que está em causa é a vossa sobrevivência. A vontade de se manterem no poder a qualquer preço’.”

Cerca de 10 a 15 por cento dos quase 29 milhões de habitantes da Arábia Saudita, os xiitas constituem a maioria na Província Oriental. “Temos tudo para ser um Estado: água, agricultura, a maior parte dos campos de petróleo e uma população culta”, sublinha Ahmed.

“A secessão chegou a ser um plano, discutido há uns quinze anos. O xeque Nimr era um dos que advogava esta opção – muito perigosa. A verdade é que não podemos continuar marginalizados. Não há um único presidente de câmara xiita, um diplomata, um agente da Polícia. As nossas crianças aprendem nas escolas que pertencem a uma seita herege.”

“Acusam-nos de cuspir na comida dos sunitas e de mijar no que eles bebem. Mas fomos nós que desenvolvemos a indústria petrolífera, com a chegada da Aramco [consórcio criado pelos americanos mas hoje nas mãos dos sauditas]. O que seria a Arábia Saudita sem os xiitas?”

Muçulmanos xiitas paquistaneses na Caxemira prestam homenagem ao xeque xiita Nimr al-Nimr © Direitos Reservados | All Rights Reserved

Muçulmanos xiitas paquistaneses na Caxemira prestam homenagem ao xeque saudita Nimr al-Nimr
© Direitos Reservados | All Rights Reserved

Ao contrário de Ali al-Ahmed, o académico suíço Toby Matthiesen ficou espantado com a execução de Nimr al-Nimr. “O xeque estava preso há dois anos, e há dois anos que a Província Oriental estava relativamente pacificada”, observa o autor de duas obras de referência – The Other Saudis: Shiism, Dissent and Sectarianism and Sectarian Gulf: Bahrain, Saudi Arabia, and the Arab Spring That Wasn’t, em entrevista por telefone.

Ao rejeitarem os apelos internacionais a um perdão, as autoridades sauditas “vincaram que não toleram rebeliões internas, de qualquer campo. E não esqueçamos que Irmandade Muçulmana, al-Qaeda e ‘estado islâmico’ são oposição sunita.”

Nimr, como referiu Ali al-Ahmed, exortara a que Qatif, onde nasceu em 1959 (na aldeia pobre de Awamiya), e Al-Ahsa, os dois distritos da Província Oriental, se separassem da Arábia Saudita e se unissem ao Bahrain, de maioria xiita.

De certo modo, adiantou Matthiesen, ele estava mais próximo dos activistas da “Primavera Árabe” do que dos mullahs em Teerão, embora se tivesse exilado no Irão (antes de Damasco).

Estava ligado a um movimento transnacional xiita, fundado nos anos 1970, e que deve o nome ao grande ayatollah iraquiano Muhammad Mahdi al-Shirazi (1928-2001). Natural de Najaf, Shirazi era rival de Khomeini, o artífice da revolução islâmica iraniana. Não lhe reconhecia o título de marja al-taqlid, ou fonte de emulação.

Era também crítico do conceito de velayat-e faqih, que concentra o poder num Supremo Líder, tendo concebido uma outra doutrina, Hukumat al-Fuqaha, uma teocracia colectiva e não assente num só indivíduo. Também contestou a subida ao poder do actual de Ali Khamenei, o sucessor de Khomeini.

Após a morte do fundador, na cidade-santuário iraniana de Qom, o movimento Shirazi dividiu-se em dois ramos, os que seguem o seu irmão Sadiq al-Shirazi e os que se aliaram ao sobrinho Muhammad Taqi al-Mudarrisi. Nimr juntou-se à facção de Mudarrisi, menos conciliatória do que da de Sadiq.

“Ao contrário de outros dirigentes xiitas sauditas, que aceitaram uma amnistia nos anos 1900 e estavam receptivos a negociações para terem mais direitos, ele não estava interessado em reformar o sistema político mas em derrubá-lo”, salientou Matthiesen.

An Iranian woman holds an anti-Saudi placard at a protest outside the Saudi embassy in Tehran. Behind her is a photo of Shia cleric Nimr al-Nimr, whom Saudi Arabia executed ©Atta Kenare | AFP | Getty Images

Cartaz anti-saudita numa manifestação junto à embaixada do reino árabe em Teerão. O edifício seria atacado e incendiado por vigilantes fanáticos, criticados posteriormente pelo Presidente Rouhani como “ameaça à segurança nacional” da República Islâmica
©Atta Kenare | AFP | Getty Images

Nos seus sermões, Nimr não pedia calma, mas incentivava os jovens a ir para as ruas em protestos, quer na Província Oriental como no Bahrain. Foi preso e ferido numa perna, em 2012, durante uma rusga a Awamiya, onde já havia participado numa sublevação em 1979. Nunca capitulou.

Terá havido ainda outra razão, mais pessoal, para matar (terá sido crucificado e enterrado numa campa sem nome) o xeque que era também um ayatollah.

A realeza saudita “sentiu-se insultada quando ele celebrou a morte do príncipe Nayef”, ministro do Interior e herdeiro do trono, em 2012, salientou Matthiesen, um dos maiores especialistas na Arábia Saudita e no Golfo Pérsico. “Que os vermes o devorem”, disse Nimr, num vídeo posto a circular nas redes sociais.

O investigador na Universidade de Oxford concorda com o dissidente Ali al-Ahmed. O objectivo de Riade, “que sempre fomentou o sectarismo”, é concentrar as atenções no Irão e desviá-las dos problemas económicos internos e dos desaires militares externos.

Estará o reino isolado? Matthiesen acha que não. “Enfrenta dificuldades, sim, mas sabe que pode contar com os aliados norte-americanos – apesar de terem criticado a execução de Nimr – enquanto estes mantiverem bases importantes no Golfo – na Arábia Saudita, no Kuwait, no Qatar e no Bahrain.”

“Não se pode excluir o risco de uma guerra”, conclui. “Será uma guerra sem vencedores. E entre as principais vítimas continuarão a estar os iemenitas e os sírios.”

Os artigos de Toby Matthiesen na revista “Foreign Policy” podem ser lidos aqui. Obras de referência sobre o Golfo são também as de F. Gregory Gause, e “Desert Kingdom, How Oil and Water Forged Modern Day Saudi Arabia, de Toby Craig Jones.

Ali al-Ahmed © Direitos Reservados

Ali al-Ahmed
© Direitos Reservados

Toby Matthiesen e o seu livro mais recente

Toby Matthiesen e o seu livro mais recente

Este artigo, agora actualizado, foi publicado originalmente no jornal EXPRESSO em 7 de Janeiro de 2016 | This article, now updated, was originally published in the Portuguese newspaper EXPRESSO, on January 7, 2016

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