“Os refugiados não precisam de donativos mas de cidadania”

Os avós do jornalista e escritor Chaker Khazaal fugiram da Palestina em 1948. Abrigaram-se no Líbano onde ele nasceu, em plena guerra civil. Hoje, vive no Canadá. Familiares na Síria são agora também exilados. A história de um dos mais influentes activistas árabes é aqui contada na primeira pessoa, após uma troca de e-mails. (Ler mais | Read more…)

De refugiado a escritor e activista de sucesso, a história de Chaker © Direitos Reservados | All Rights Reserved

De refugiado a escritor de sucesso, a história de Chaker Khazaal
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Sou Chaker Khazaal, palestiniano nascido em 1987 no campo de Bourj El Barajneh, no Líbano, tal como os meus pais. Foi aqui que os meus avós se instalaram depois de deixarem a Palestina, em Maio de 1948, após a criação de Israel.

Deles herdei o estatuto de refugiado de terceira geração. Vim ao mundo durante a guerra civil [de 1975-1990, que provocou um êxodo de quase um milhão de pessoas e matou outras 120 mil; mais de 75.000 continuam como deslocadas internas].

A vida de refugiado é um desafio. [No Líbano, nasceram 90% dos 450.000 registados pela UNRWA, agência de auxílio das Nações Unidas]. Vivemos com muito pouco. Pouca água. Pouca electricidade.

Quase nenhum acesso a empregos [só 2% tem visto oficial de trabalho; 60% permanecem abaixo do limiar de pobreza]. A nossa vida contém dor, incerteza, medo e outros sentimentos horríficos. Em Bourj El Barajneh, havia tudo isso. Sonhamos partir.

Também tínhamos momentos divertidos. Adorava os laços estreitos entre as pessoas. Havia 20.000 residentes em Bourj El Barajneh. Hoje, são mais de 25.000, num campo com um quilómetro quadrado, devido à crise dos refugiados sírios [que agora ultrapassam um milhão só no Líbano].

Celebrávamos nascimentos, casamentos, festas de fim de curso e outros eventos. Durante o Eid, feriado muçulmano que se segue ao mês de jejum do Ramadão, vestíamos roupas novas. Na Páscoa, o meu avô pintava ovos e oferecia-nos. Refugiados são pessoas comuns que vivem em circunstâncias extraordinárias.

Da Síria [que dominou o Líbano até Abril de 2005, quando a “Revolução do Cedro” forçou a retirada de cerca de 40.000 soldados e agentes secretos] sabia apenas que era um dos poucos países do mundo que eu, como refugiado, podia visitar sem necessidade de visto.

Íamos lá frequentemente para visitar alguns familiares. Eu era um miúdo. Para mim, sem ideias políticas, Hafez al-Assad [que morreu em 2000] era tão só o Presidente sírio.

Bandeira palestiniana içada nas ruínas de um edifício no campo de refugiados de Yarmouk, a sul de Damasco, submetido a um cerco do Daesh e das tropas de Assad. © Reuters

Bandeira palestiniana içada nas ruínas de um edifício no campo de refugiados de Yarmouk, a sul de Damasco, submetido a um cerco do Daesh e das tropas de Assad
© Reuters

Cerca de 450 mil refugiados palestinianos vivem no Líbano, segundo registo da UNRWA, a agência das Nações Unidascriada para os apoiar após a guerra israelo-árabe de 1948. Vivem em 12 campos de refugiados. Representam 10% da população libanesa © Mutuwalli Abou Nasser | IPS

Cerca de 450 mil refugiados palestinianos vivem no Líbano, segundo registo da UNRWA, a agência das Nações Unidas criada para os apoiar após a guerra israelo-árabe de 1948. Vivem em 12 campos e têm poucos direitos básicos. Representam 10% da população libanesa
© Mutuwalli Abou Nasser | IPS

Parte-me o coração ver como se perde um país. Antes do conflito em 2011, os refugiados palestinianos na Síria tinham acesso a todos os serviços sociais. Nenhum outro Estado os tratava tão bem. Constatei isso quando visitava a família da minha mãe na cidade de Aleppo. O filho da minha tia trabalhava como dentista. Comprou a sua própria casa. Tinha um magnífico apartamento onde passávamos férias.

No Líbano, pelo contrário, um refugiado não pode ter qualquer propriedade. É-lhe negado o acesso a escolas públicas e hospitais. Só tem emprego em alguns sectores [mais de 30 profissões continuam restritas – chegaram a ser 73].

A minha família na Síria está agora espalhada pelo mundo. A tia mudou-se para o Texas. O seu filho instalou-se na Suécia. A filha conseguiu entrar na Turquia. Perderam tudo. Eu também tinha amigos na Síria. Alguns permaneceram em Damasco, mas a maioria está dispersa por vários países.

Quanto a mim, empreendi uma viagem de refugiado para cidadão. Sempre almejei deixar o campo de refugiados, emigrar para onde tivesse direitos como outros seres humanos. Candidatei-me a uma bolsa de estudos na York University [em Toronto], e ganhei o Global Leader of Tomorrow Award [Prémio do Líder Global do Futuro]. Estudei, trabalhei e o Canadá tornou-se o meu lar.

Dou ênfase à educação, ao emprego e à emigração. De todo o mundo chovem donativos, sobretudo como meios de subsistência, mas os refugiados necessitam é de oportunidades de vida. Precisam de se sentir gente válida que contribui para a sociedade.

Não culpo o Líbano – país pequeno com os seus próprios problemas. Mas questiono: por que é que os Estados árabes dificultam tanto a atribuição de vistos – até de turismo? Alguns já oferecem dinheiro, então por que não dar uma segunda oportunidade de vida, como o Canadá fez comigo, por exemplo?

Cresci a ouvir dizer: “A tua vida é miserável aqui, no Líbano, MAS tens o direito de retorno.” A minha vida teria sido desperdiçada, como muitas vidas o estão a ser, se apenas dependesse de uma promessa. O direito de retorno é um sonho difícil de se concretizar. A solução passa por uma estratégia que salve gerações e evite que desbaratem as suas vidas na pobreza.

A comunidade internacional pode absorver um grande número de refugiados e incluí-los no seu espaço demográfico. Este é o melhor método de ajuda: os receptores terão uma segunda oportunidade e os anfitriões redirecionam os donativos para as suas economias, ao permitirem que os novos cidadãos contribuam com as suas aptidões e, claro, impostos. Não devemos fechar as fronteiras na cara dos refugiados.

Crianças sírias num campo de refugiados da ONU em Hosh Hareem, no Vale de Bekaa, no leste do Líbano. O país acolheu mais de 1,5 milhões de sírios que fogem da guerra civil iniciada em 2011 © Hassan Ammar | AP

Crianças sírias num campo de refugiados da ONU em Hosh Hareem, no Vale de Bekaa, no leste do Líbano. O país acolheu mais de 1,5 milhões de sírios que fogem da guerra civil iniciada em 2011
© Hassan Ammar | AP

No Líbano – com o maior número de refugiados per capita no mundo [um terço dos quase seis milhões de habitantes] – muitos dos que fogem da Síria têm vindo a alojar-se nos campos palestinianos [em 2016 este número ultrapassava os 1,5 milhões]. É natural que a crise síria exija mais fundos e que haja menos recursos para os palestinianos. Infelizmente, a ajuda internacional segue as tendências. O que acontece hoje é mais importante do que o que se verificou ontem.

O primeiro passo é quebrar o silêncio. O que vemos agora, com milhões de migrantes sírios, é uma necessidade urgente que o mundo desvalorizou. Temo-nos centrado na ajuda em forma de donativos mas eles necessitam de uma forma de auxílio sustentável: começar uma vida nova e ser independentes economicamente nos países de acolhimento.

A vaga de migrantes sírios é como que uma mensagem aos Estados para facilitarem a entrada de refugiados, incluindo os palestinianos, deslocados desde 1948.

Nas minhas visitas a campos de refugiados encontro inspiração para os meus artigos e livros. A trilogia Confessions of a Child War [Confissões de um filho da guerra” – o terceiro, Sahara, foi publicado em Julho] tem como base as minhas raízes, a história da minha nação (Arábia) e acontecimentos no Médio Oriente.

Os três livros são narrados por defuntos, porque eu quis imortalizar muitos que morreram. A ficção reflecte a realidade. Todos evocam situações com refugiados e revoluções ou, simplesmente, o amor, o desespero e a perda.

Chaker Khazaal © Direitos Reservados | All Rights Reserved

Chaker Khazaal: “O primeiro passo é quebrar o silêncio”
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Este artigo, aqui na íntegra e actualizado, foi publicado originalmente no jornal EXPRESSO em 19 de Setembro de 2015 | This article, here the uncut version and updated, was originally published in the Portuguese newspaper EXPRESSO, on September 19, 2015

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