Qaboos: A ponte que ligou Teerão a Washington

Há 45 anos, em Julho de 1970, o único filho do Sultão Said bin Taimour assumiu poderes absolutos para os quais não tem herdeiro. Será lembrado não pelo golpe palaciano com que derrubou o pai, mas como o líder árabe que ajudou os persas a selar um acordo histórico com a América. (Ler mais | Read more...)

Qaboos, nos anos 1970, depois de ter derrubado o pai para se tornar monarca absoluto de Omã © All Rights Reserved

Qaboos derrubou o pai em Julho de 1970 para se tornar monarca absoluto de Omã
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Josh Fattal, Shane Bauer e Sarah Shourd planeavam férias no Curdistão, Norte do Iraque, mas perderam-se na caminhada e entraram no Irão. O “trespasse ilegal da fronteira”, em 2009, custou aos três turistas americanos uma condenação de oito anos de prisão por “espionagem”.

A pena não seria cumprida até ao fim porque o Sultão de Omã pagou as fianças milionárias exigidas por um “tribunal revolucionário”. Com este gesto, abriram-se não só as grades da cadeia de Evin mas também as portas para a reconciliação entre os Estados Unidos e a República Islâmica.

A libertação de Sarah, em 2010, e de Josh e Shane, em 2011, encorajou o sultão Qaboos bin Said al-Said, intermediário noutras crises, a oferecer-se como mediador em negociações secretas entre dois países separados em 1953, quando a CIA derrubou o primeiro-ministro democrata Mohammad Mossadegh, e divorciados em 1979, depois de um teólogo de nome Khomeini ter forçado o imperador Mohammad Reza Pahlavi a abandonar o Trono do Pavão.

Os primeiros encontros informais, em Mascate, capital de Omã, começaram em 2012. Foram acelerando, a partir de Agosto de 2013, após a tomada de posse de Hassan Rouhani, um Presidente pragmático com a bênção do líder supremo, Ali Khamenei. O “acordo histórico” em que o Irão se compromete a não produzir bombas nucleares em troca do levantamento de sanções internacionais foi assinado a 14 de Julho de 2015.

Foi como prenda de aniversário para o filho único de Said bin Taimour que, no dia 23, completou 45 anos de poder, conquistado num golpe com ajuda do MI-6.

Qaboos destituiu o pai, um ultraconservador obediente ao Império Britânico e que, após de décadas de endividamento para vencer tribos rebeldes, estava mais interessado em unificar do que em modernizar um país dividido, uma parte sultanato e outra imamato.

O Presidente iraniano Hassan Rowhani (à esquerda) e o Sultão de Omã passam revista a tropas de honra durante a visita do líder omanita ao Palácio de Saadabad em Teerão, a 25 de Agosto de 2013. © Behrouz Mehri | AFP | Getty Images

O Presidente iraniano, Hassan Rouhani, e o Sultão Qaboos passam revista a tropas de honra durante a visita do líder omanita ao Palácio de Saadabad em Teerão, a 25 de Agosto de 2013
© Behrouz Mehri | AFP | Getty 

“Omã precisa de ter a certeza de que o Irão [a 39 km de distância, do outro lado do Estreito de Ormuz, controlado por ambos e por onde passa 20% do petróleo mundial] jamais tentará invadir o seu território”, explicou-me, numa entrevista por telefone, o historiador francês Marc Valeri.

“Não menos importante, pelo contrário, são os contratos que já permitiram a Mascate começar a receber, por ano e durante um quarto de século, 350 mil milhões de metros cúbicos de gás, a preços acessíveis.”

Director do Centro para os Estudos do Golfo na universidade britânica de Exeter e autor de Oman: Politics and Society in the Qaboos State, Valeri realça outro benefício: “O sultanato foi sempre dependente, em termos de segurança, do Reino Unido e dos EUA. Como ‘facilitador’, o sultão obteve garantia de protecção perene.”

E nunca Qaboos, com uma doença terminal e sem herdeiro designado, precisou tanto dos velhos aliados para preservar o statu quo após a sua morte.

No plano externo, o maior adversário continua a ser a Arábia Saudita, um dos instigadores da Rebelião de Dhofar de 1965-1976, “o mais longo conflito armado na história da Península Arábica, a última guerra colonial britânica na região e um dos pontos altos da Guerra Fria no Médio Oriente”, segundo o académico de Oxford Abdel Razzaq Takriti, na obra Monsoon Revolution.

Graças à abertura de arquivos confidenciais vão agora caindo por terra vários “mitos” sobre “a nação onde a camuflagem de verdades inconvenientes e a ocultação de realidades hediondas se tornaram forma de arte”, como avaliou o diplomata John Beasant, em Oman: The true-life drama & intrigue of an Arab State.

Para travar as “ambições hegemónicas” do maior rival do Irão, Qaboos cedeu aos sauditas uma vasta faixa de território omanita, mas não impediu a disseminação da doutrina wahhabita que inspirou a Al-Qaeda e o Daesh.

Em 2011 e 2012, irromperam protestos no Sul e no Norte. “Entre eles havia muitos salafistas e militantes da Irmandade Muçulmana”, notou Valeri, responsabilizando o sultão, por ignorar pedidos de reformas políticas, económicas e sociais, sobretudo por parte dos jovens, 22% dos 3,5 milhões de habitantes.

O secretário de Estado americano, John F. Kerry, (à esq.), numa audiência com o Sultão Qaboos, em Mascate, a capital de Omã, em Maio de 2013. O objectivo da visita foi assinar um acordo de assistência militar mas, sobretudo, continuar o processo diplomático até então secreto com o Irão. © Jim Young

O secretário de Estado americano, John Kerry, numa audiência com o sultão Qaboos, em Mascate, em Maio de 2013. O objectivo oficial da visita foi a assinatura de um acordo de assistência militar. Oficiosamente, o diálogo centrou-se no processo diplomático até então secreto com o Irão
© Jim Young

“Desde 1970 que Qaboos tem sido eficaz em matar qualquer embrião de dissidência”, criticou o investigador francês. “A Primavera Árabe assustou-o ainda mais. A partir de 2011, a oposição foi reprimida como vândalos e terroristas.”

“Os que, de início, culpavam apenas cortesãos corruptos passaram a ver em Qaboos – chefe de Estado e do governo, ministro da Defesa, Negócios Estrangeiros e Finanças, governador do Banco Central e comandante supremo dos militares – a origem de todos os males.”

Dois deles são Khalfan Al Badwawi e Nabhan Al-Hanshi, universitários de classe média. Procuraram asilo na Inglaterra após vários meses nos cárceres reais, onde foram torturados. O crime? Usarem os seus blogues para defender mudança de regime para uma monarquia constitucional.

“Qaboos mistura tirania e nepotismo”, disse Badwawi, por email. “A economia tornou-se monopólio de nove famílias próximas do sultão. Eu, que era funcionário público e fui despedido, quebrei a barreira do medo.” Hanshi, que o acompanhou na viagem para o exílio, dirige o Human Rights Monitor Group in Oman. “O que me importa é o respeito pelos direitos humanos”, afiançou. “Luto pela dignidade e pela separação de poderes.”

Em Washington, Giorgio Cafiero, co-fundador do Gulf State Analytics, empresa de consultoria de risco geopolítico, admite erros mas mantém a admiração por Qaboos. Numa troca de emails, salientou: “Ele conseguiu manter uma certa estabilidade, ordenando a criação de 500 mil novos empregos. Em Omã, os protestos não foram sangrentos como noutros países do Golfo”.

Face à quebra nos preços do petróleo, o orçamento de 2015 “foi planeado para prevenir novos protestos numa altura em que se prepara a era pós-Qaboos”, acentuou Cafiero. Se as manifestações continuarem, “será interessante verificar se o próximo líder dará mais poderes ao Majlis al-Shura”, conselho consultivo e não parlamento.

Marc Valeri tem a certeza de que Qaboos “resistirá até ao último suspiro” nomear um primeiro-ministro ou um herdeiro. “O seu maior legado foi construir um Estado e uma nação onde todos se sentem omanitas – excepto, talvez, em Dhofar –, mas quer evitar o destino do pai.”

BIBLIOGRAFIA:

Arabia Without Sultans, de Fred Halliday; Monsoon Revolution: Republicans, Sultans, and Empires in Oman, 1965-1976, de Abdel Razzaq Takriti; Oman and the World: The Emergence of an Independent Foreign Policy, de Joseph A. Kechichian; Oman: Politics and Society in the Qaboos State, de Marc Valeri; Oman: The True-Life Drama and Intrigue of an Arab State e  Sultan In Arabia: A Private Lifede John Beasant.

No regresso a Mascate, em Março de 2015, depois do internamento na Alemanha, um irreconhecível sultão, muito debilitado fisicamente devido a uma doença incurável, nunca identificada oficialmente. @ ONA (Oman News Agency)

No regresso a Mascate, em Março de 2015, depois de meses de internamento na Alemanha: um sultão irreconhecível,  debilitado fisicamente devido a doença incurável, nunca identificada oficialmente
© ONA (Oman News Agency)

 Este artigo, aqui na versão integral, foi publicado originalmente no jornal EXPRESSO, em 25 de Julho de 2015 | This article, here the uncut version, was originally published in the Portuguese newspaper EXPRESSO, on July 25, 2015

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