Birmânia: Os Rohingya e os monges do terror

O Budismo é uma “religião de paz, amor e meditação”, certo? “Não, essa percepção foi sempre errada”, sublinha o investigador Mael Raynaud, numa entrevista sobre os “sinais de genocídio” dos muçulmanos Rohingya, no país da Nobel da Paz Aung Suu Kyi. (Ler mais | Read more…)

Myanmar (Burma): Recognized as one of the most oppressed groups in the world, the Rohingya are a Muslim minority from western Burma. In 1981 the entire population of Rohingya in the North Rakhine State of Burma (nearly 1 million people) were stripped of their nationality by the Burmese government and have since been stateless. Beatings, extortion and the seizure of their homes in Burma forced these women and 100 families from their village to flee Burma in early 2009. © pulitzercenter.org/

Reconhecidos como um dos povos mais oprimidos no mundo, os Rohingya são uma minoria muçulmana na Birmânia. Em 1981, toda a população Rohingya no estado de Rakhine (quase um milhão de pessoas) perdeu a nacionalidade. O governo fez deles apátridas. Na foto, algumas das mulheres de cem famílias que, devido a incessantes perseguições, foram obrigadas a fugir das suas aldeias, em 2009
© pulitzercenter.org

Entre os activistas do movimento pró-democracia Geração 88 na Birmânia/ Myanmar, um dos que mais pugnou pela libertação da líder da oposição, Aung San Suu Kyi, prisioneira dos generais durante quase duas décadas até 2010, foi Miya Aye. Também ele, um dos organizadores das manifestações pacíficas que conduziram à Revolução Açafrão, em 2007, enfrentou oito anos de cárcere.

Hoje, já não são os militares que o tentam silenciar, por defender a liberdade e os direitos humanos, mas monges budistas radicais. Vêem-no como inimigo por ser muçulmano, apesar de a sua luta ter sido sempre política, nunca religiosa. Se esperava solidariedade da Prémio Nobel da Paz 1991, o que recebeu foi silêncio.

Miya Aye é um dos muçulmanos seculares que ajudaram a Birmânia a fazer a “transição da tirania para a democracia”. No entanto, e paradoxalmente, nunca como agora a comunidade conhecida como Rohingya (os que provêm da região de Rohang ou de Rakhine) foi tão cruelmente perseguida.

O conflito exacerbou-se em 2012, quando cerca de 200 rohingya foram mortos e outros 140.000 obrigados a procurar refúgio em campos de acolhimento provisórios. Desde então, o êxodo atingiu proporções dramáticas: mais de 3000 terão fugido, encontrando no mar, a bordo de precárias embarcações, não a sobrevivência mas a morte.

Alarmados com “o avanço do Islão” no Sudeste Asiático, que antes era maioritariamente budista, monges nacionalistas consideram que os Rohingya são uma “ameaça existencial” à sua identidade. Para eles, a Birmânia e o Sri Lanka tornaram-se “os últimos redutos do Budismo” numa região dominada por países muçulmanos: Indonésia, Paquistão e Afeganistão.

Mya Aye, a leader of the 88 Generation Students was first arrested in 1989 and spent 7 years imprisoned for his role in the mass democracy uprising of 1988. In August 2007 he was arrested with his colleagues for leading peaceful protests that lead to the Saffron Revolution. He was sentenced to 65 years in Taunggyi prison where he suffered extreme ill health and was persistently denied medical care by the authorities. He was released under a presidential amnesty on 13th January 2012 © James Mackay / enigmaimages.net

Miya Aye, um dos dirigentes do movimento estudantil pró-democracia Geração 88, foi preso pela primeira vez em 1989 e passou sete anos na cadeia. Em Agosto de  2007 voltou a ser encarcerado com outros companheiros de luta por organizar manifestações pacíficas que conduziram à chamada Revolução Açafrão. Foi condenado a  65 anos de reclusão na penitenciária de Taunggyi onde adoeceu gravemente e viu negados, pelas autoridades, o direito a tratamentos médicos. Foi libertado no âmbito de uma amnistia presidencial em 13 de Janeiro de 2012
© James Mackay | enigmaimages.net

Um relatório divulgado, em Maio, pelo United States Holocaust Memorial Museum e pelo Simon-Skjodt Center for the Prevention of Genocide alerta para “os sinais de aviso de genocídio” dos Rohingya, que os budistas mais extremistas tratam por “bangladeshis” (amontoados numa paupérrima península na fronteira com o Bangladesh): negação da cidadania (têm de provar que os seus antepassados se instalaram no país antes de 1823, início da ocupação britânica), discriminação apoiada pelo Estado, proibição de terem mais de dois filhos e de casamentos mistos, restrição de mobilidade…

Também um diplomata ouvido pelo diário britânico The Independent descreveu os preconceitos em relação aos Rohingya como “um cancro na sociedade que está, perigosamente, a criar metásteses.” Este ódio confessional, que há três anos seria impensável, é agora um lugar comum, acrescentou o jornal.

“A percepção de que o Budismo é uma religião de paz foi sempre errada”, diz-me, em entrevista por email, o investigador francês Mael Raynaud, especialista em história, política, economia, sociedade civil e questões humanitárias no Sudeste Asiático, em particular na Birmânia.

“Como qualquer religião, o Budismo está sujeito ao que lhe é outorgado pelos fiéis. Uns oferecem-lhe tolerância; outros intolerância. No Ocidente, a visão que prevalece é a do Budismo Mahayana [“Grande Veículo”], a religião do Tibete liderada pelo Dalai Lama. No entanto, em Myanmar e no Sri Lanka pratica-se o Budismo Theravada [“Ensino dos Sábios”].

Estas duas linhas doutrinais resultam de um primeiro grande cisma que ocorreu na Índia, ponto de origem, cerca de 100 anos após a morte de Buda (entre 500 e 400 a.C.).

A escola Theravada, ultraconservadora e nacionalista, continua a ser predominante na Birmânia, Sri Lanka, Camboja, Laos e Tailândia. A escola Mahayana, que se propagou, na região, a partir da Índia para a China, Japão, Coreia, Tibete e Vietname, dá maior ênfase à reverência e louvor a diversos budas e ao estudo dos sutras ou escrituras.

BANGLADESH. Maricha. 1/06/1992: Burmese (Rohingya) refugees. Nutrition center run by MSF. ©http://www.johnvink.com/

Maricha, no Bangladesh: uma criança filha de refugiados  muçulmanos birmaneses Rohingya, num centro de nutrição dirigido pela organização humaitária Médicos Sem Fronteiras (MSF)
© http://www.johnvink.com

Quanto às comunidades do Islão, que habitam a Birmânia desde o século XI d.C., Mael Raynaud, antigo analista sénior do prestigiado think tank Myanmar Egress, esclarece que “os Rohingya são especificamente oriundos do estado de Arakan”, a maioria descendentes de imigrantes da Índia colonial (a quem os britânicos favoreceram em termos de emprego nas áreas de comércio e escritórios), em particular do que é hoje o Bangladesh.

“Outros grupos muçulmanos têm sido poupados aos abusos”, acrescenta Raynald, talvez aludindo aos que vieram da província chinesa de Yunnan – em meados de Junho, Aun Suu Kyi foi recebida em Pequim com honras de chefe de Estado –, mas também aos que têm ligações aos primeiros colonos árabes.

Quanto à situação dos cristãos, as comunidades Chin, Kachin Karenni e Karen, que vivem ao longo das fronteiras da Birmânia, Raynaud informa que “não têm sido alvo dos ataques racistas que visam os Rohingya”. No entanto, “todas elas combateram contra o Governo central desde a independência [em 1948], com excepção, talvez, dos Kachin que só ‘uma vez’ travaram uma guerra desde 1961.” A maioria destes cristãos são de confissão baptista, convertidos durante a era colonial britânica.

“O que está acontecer em Myanmar é o mesmo que aconteceu na antiga Jugoslávia”, salientou Raynaud. “A ditadura forçou as várias comunidades a viverem juntas. Quando a força é removida, o passado de intolerância regressa. É, pois, verdade, que a democratização levou a violência para o estado de Arakan, porque sem pressão do governo o racismo cresce.”

Aung San Suu Kyi na sua casa em Rangoon, antiga capital da Birmânia. Em 24 de Outubro de 2013, numa entrevista que deu, ao programa “Today”, da BBC, a Nobel da Paz e presidente do partido Liga Nacional para a Democracia defendeu-se assim do seu silêncio face ao drama dos Rohingya: "O mundo precisa de entender que não há apenas medo no campo dos muçulmanos, mas também no dos budistas. (…) Creio que devem aceitar que há uma grande percepção de um poder islâmico mundial, não só na Birmânia como no resto do mundo." © versacephotography.com/

Aung San Suu Kyi na sua casa em Rangoon, antiga capital da Birmânia. Em 24 de Outubro de 2013, numa entrevista que deu, ao programa Today, da BBC, a Prémio Nobel da Paz e presidente do partido Liga Nacional para a Democracia defendeu-se assim do seu silêncio face ao drama dos Rohingya: “O mundo precisa de entender que não há apenas medo no campo dos muçulmanos, mas também no dos budistas. (…) Creio que devem aceitar que há uma grande percepção de um poder islâmico mundial, não só na Birmânia como no resto do mundo.”
© versacephotography.com

No drama dos Rohingya, uma grande parte da comunidade internacional tem criticado o silêncio de Aung San Suu Kyi, receptora de vários prémios mundiais, Sakharov (1990) e Nobel da Paz (1991), por exemplo. Recentemente, o Dalai Lama, também ele Nobel da Paz (1989) apelou à filha de Aung San, o “pai” da independência birmanesa, para que fizesse ouvir a sua voz em defesa dos milhares de muçulmanos, muitos deles crianças, obrigados a abandonar os seus lares.

Por que se mantém calada? “A explicação mais simples (…) é a de que ela sempre foi uma política pragmática, não uma activista pelos direitos humanos,” escreveu Jonah Fisher, da BBC.

O investigador Raynaud acrescentou: “Em Myanmar, o racismo é mesmo muito forte contra os Rohingya. Não sabemos se Aung San Suu Kyi partilha este racismo ou o desaprova porque, é verdade, nunca falou abertamente sobre esta questão. Em todo o caso, é evidente que socorrer os Rohingya significaria, para ela, perder um imenso capital político.”

“A sua atitude mostra que não está disposta a isso. A menos de um ano [prevê-se que entre o final de Outubro e o início de Dezembro de 2015] de se realizarem eleições, ela não tentará fazer nada que antagonize o seu próprio eleitorado.”

A Liga para a Defesa da Democracia, presidida por “Daw Suu” (título honorífico birmanês que significa “Senhora”), decidiu concorrer às próximas legislativas mesmo que a líder seja proibida de se candidatar a presidenciais. Irá concorrer em todas as circunscrições em que o partido ganhou, em 1990, um total de 392 dos 485 lugares do Parlamento (81%), graças a um total de 59% de votos. O regime anulou estes resultados.

[Em 8 de Novembro de 2015, a Liga venceu por maioria esmagadora, ao obter 86% dos lugares na Assembleia da União. Proibida pela Constituição de ser Presidente, Aung San Suu Kyi assumiu o cargo de Conselheira de Estado, equivalente a primeira-ministra.]

O que se está a passar na Birmânia também se verifica no antigo Ceilão português. Depois da vitória contra a guerrilha dos Tigres Tâmil, os muçulmanos – e também os cristãos evangélicos – tornaram-se o “novo inimigo” dos budistas. “De uma maneira geral”, explicou Mael Raynaud, “há muitas semelhanças entre o Budismo em Myanmar e no Sri Lanka, porque em ambos existe um nacionalismo anti-islâmico.”

E como entender a atitude de países muçulmanos, o maior dos quais a Indonésia, que se recusam a receber os Rohingya, ao contrário das Filipinas, nação maioritariamente católica, que abriu as suas portas aos refugiados?

“As Filipinas não estão tão próximas do mar de Andamão, como a Indonésia, a Malásia e a Tailândia. Portanto, Manila não é directamente afectada pelo sofrimento destes ‘boat people’ e, assim, é mais fácil demonstrar simpatia para com os Rohingya”, explica Raynaud.

“Nenhum outro Estado regional está preparado para aceitar milhares, potencialmente dezenas de milhares, de imigrantes. Basta olhar para a Europa [os que morrem tentando atravessar o Mediterrâneo] e vemos que o comportamento da Ásia não é único…”

O “Bin Laden budista” no país dos números

Ashin Wirathu (ao centro), o monge que se auto-intitula "o Bin Laden birmanês" é o líder do Movimento 969, que declarou "guerra" à minoria muçulmana dos Ronhingya, alegando que "o Islão quer destruir o Budismo e dominar o mundo." © Reuters

Ashin Wirathu (ao centro), o monge que se designou “Bin Laden budista”, lidera o Movimento 969, que declarou “guerra” à minoria dos Ronhingya, alegando que “o Islão quer  dominar o mundo” e não apenas a Ásia onde muitos países muçulmanos, como a Indonésia e a Malásia, têm fechado as portas aos que fogem às perseguições na Birmânia
© Reuters

Num país onde a numerologia ainda influencia decisões políticas, há um número que prolifera actualmente na Birmânia: 969. Estes três dígitos, que “simbolizam as 9 virtudes de Buda, os 6 atributos especiais do Dharma/doutrina e as 9 qualidades do Sangha/clero”, dão nome a um movimento nacionalista dirigido por um monge que se autoproclamou o “Bin Laden budista”.

Ashin Wirathu, 46 anos, “quartel-general” em Mandalay, é o artífice da campanha contra o que considera “a ameaça muçulmana”. O historiador Peter A. Coclanis, num artigo publicado no World Affairs Journal, diz que para decifrar o “conflito” Budismo-Islão é preciso entender a importância dos números na Birmânia, onde “a leitura da sorte continua a ser praticada e muitos usam cartas astrológicas para dar nomes aos filhos”.

O 969, segundo Coclanis, é uma espécie “contragolpe político” ao número 786, que deriva de uma passagem do Corão, interpretada pelos budistas radicais como um código: “7+8+6 é igual a 21”. Ou seja, “os muçulmanos quem dominar o mundo no século XXI” e têm de ser impedidos.

O investigador Mael Raynaud concorda que 969 e 786 são “realmente importantes para as comunidades que seguem estas tradições”, mas ressalva que “não são necessárias para compreender a actual crise”.

Porquê? “A intolerância e o racismo estão profundamente entrincheirados em todo o mundo e Myanmar não é excepção”.

Migrantes Rohingya numa embarcação à deriva em águas tailndesas, a sul da ilha de Koh Lipe no Mar de Andamão, a 14 de Maio de 2015. © The Independent

Migrantes Rohingya numa embarcação à deriva em águas tailndesas, a sul da ilha de Koh Lipe, no Mar de Andamão, a 14 de Maio de 2015
© The Independent

Mael Raynaud, investigador francês, especialista na História da Birmânia. © Direitos Reservados |All Rights Reserved

Mael Raynaud, investigador francês, especialista na História da Birmânia
© Direitos Reservados |All Rights Reserved

Estes artigos, agora actualizados, foram publicados originalmente na revista “Além-Mar”, edição de Julho-Agosto de 2015 | These articles, now updated, were originally published in the Portuguese magazine “Além-Mar”, July-August 2015 edition

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