Um salafista desiludido abriu a primeira mesquita ‘gay-friendly’ da Europa

Perseguido como muçulmano, árabe e homossexual, o franco-argelino Ludovic-Mohamed Zahed encontrou paz num templo budista que se tornou primeira Mesquita Inclusiva da Unicidade na Europa. Em Paris, e agora também em Marselha, não há espaços de segregação. Todos rezam juntos, e mulheres também lideram orações. A luta continua: “A sociedade islâmica está perdida – esse é o grande problema”, diz. (Ler mais | Read more…)

Ludovic-Mohamed Zahed não tem tido uma vida fácil: árabe, muçulmano e gay, luta contra muitos preconceitos mas não perde a fé. Aqui, em frente à sua Mesquita Inclusiva da Unicidade, em Paris. © Charles Platiau | Reuters

Ludovic-Mohamed Zahed não tem tido uma vida fácil: árabe, muçulmano e gay, luta contra muitos preconceitos mas não perde a fé. Aqui, em frente à sua Mesquita Inclusiva da Unicidade, em Paris
© Charles Platiau | Reuters

Nascido em Argel em 1978, o segundo rapaz de uma família com três filhos, Ludovic-Mohamed Zahed é, segundo a biografia oficial, “o único teólogo no mundo que interligou as Ciências Humanas e Religiosas com Estudos do Género”.

Desde criança que sonhava ser imam, ou líder religioso, dedicado à exegese corânica (tâsfir al-Qu’ran) e aos pilares da ortopraxia (usûl al-Fiqh)”. Completou um Mestrado em Psicologia Cognitiva e dois doutoramentos – um em Antropologia Religiosa (o tema da tese, Islão e Homossexualidade, será em breve publicado em livro); e outro em Psicologia Social das Religiões.

Das várias associações de que foi fundador e presidente, destaque para os Muçulmanos Homossexuais de França (HM2F); a primeira organização de jovens seropositivos – como ele; e os Muçulmanos Progressistas de França.

Em 2012, Zahed ganhou fama internacional quando abriu, na capital francesa, a primeira Mesquita Inclusiva da Unicidade – um espaço de oração gay-friendly sem precedentes na Europa, de um total de 21, espalhados pelos EUA, Canadá e África do Sul.

Disse o entrevistado: “É um “lugar de abrigo e oração, um lugar de igualdade, sem qualquer discriminação de género e com base numa representação progressista do Islão”.

 Federico Joko Procopio, o monge sen que emprestou um quarto no seu templo budista para que Zahed pudesse juntar os fiéis na mesquita gay-friendly. © Direitos Reservados | All Rights Reserved

Federico Joko Procopio, o monge zen, também ele homossexual, que emprestou um quarto no seu templo budista para que Zahed pudesse juntar os fiéis na mesquita gay-friendly de Ludovic-Mohamed, em Paris
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A área inicial, no leste de Paris, era de 10 metros quadrados, um quarto de um templo zen oferecido pelo monge Federico Joko Procopio, que Zahed conheceu no Tibete quando tentou converter-se ao Budismo, desiludido com o Islão.

O local original permaneceu secreto, “por motivos de segurança. Os fiéis tinham de estar registados como membros da HM2F.

Entretanto a Mesquita da Unicidade já tem o seu próprio edifício, no centro da capital francesa, com capacidade para albergar mais de 300 pessoas. Praticam-se aqui, e em Marselha, as mesmas tradições islâmicas: as preces de sexta-feira (Jumu’ah), contratos de casamento (Nikah) e rituais fúnebres (Janazah) para aqueles a quem é negado um enterro segundo a Sharia (Lei Islâmica), por serem LGBT.

Zahed já não é o líder religioso em Paris e em Marselha. Formou os seus sucessores, mas permanece uma figura respeitada. Ganhou a alcunha de “Imã sem fronteiras”, por viajar por todo o mundo. Em 2014, foi convidado a celebrar, em Estocolmo, na Suécia, o casamento de duas iranianas: Myriam Iranfar e Sahr Mosleh, que esperam o primeiro filho. No seu país estas duas lésbicas seriam, talvez, condenadas à morte.

O senhor mudou-se da Argélia para França quando era criança. Pode falar-nos da sua família e de como foi a transição do Norte de África para a Europa?

A minha família na Argélia era conservadora, mas os meus pais são muçulmanos liberais. Ensinaram-me que o Islão é mais espiritualidade do que dogma. Tinha um ano quando nos mudámos para Paris, pela primeira vez. Depois andávamos cá e lá. Após a guerra civil deixei definitivamente a Argélia. Foi em 1997. Tinha 17 anos.

Zahed e o seu agora ex-marido em casa dos pais, em Marselha. Eles não queriam acreditar que o filho era homossexual e durante anos não lhe falaram, mas acabarm por o aceitar e ter orgulho no seu êxito pessoal e profissional. © Direitos Reservados | All Rights Reserved

Zahed e o ex-marido, um muçulmano sul-africano, em casa dos pais, em Marselha. Inicialmente, este casal de franco-argelinos recusava aceitar que o filho era homossexual. Hoje, têm orgulho no seu êxito pessoal, académico e profissional
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Em algumas entrevistas, recorda que, já em criança, era “tímido e efeminado”, o que levava a sua família a fazer comentários ofensivos e até a cometer acções cruéis [um irmão chegou a queimá-lo com cigarros, segundo conta no seu livro Le Coran et la Chair | “O Corão e a Carne”]. Pode partilhar um pouco desse passado, ainda que doloroso?

O meu pai disse-me que a masculinidade que Deus me deu não era boa. Mais complicada era a reacção do avô paterno, que chegou a agredir-me fisicamente. Foi então, aos 21 anos, que decidi assumir a minha homossexualidade. Não aguentava mais pressões. Tive de enfrentar homofobia e islamofobia… Em casa, era discriminado por ser gay; fora de casa, era discriminado por ser árabe e muçulmano. Tive que sair do armário para encontrar o meu lugar na sociedade.

E já encontrou esse lugar?

Sim, há cinco anos, quando fundei a HM2F. Não queria rejeitar a minha homossexualidade e não queria rejeitar o meu Islão. Quando descobri que podia manter ambos, encontrei paz.

Voltemos à Argélia, ao período em que se juntou à Irmandade Salafista. Por que se tornou membro?

A Irmandade Salafista era muito importante na Argélia nos anos 1990. Enquanto adolescente, o Islão fascinava-me, e passei a andar com os ‘irmãos’ nas mesquitas. Naquela altura só existia esse Islão. Aprendi a língua árabe para poder saber de cor o Corão.

Infelizmente, toda a bela filosofia de vida que o Islão contém, foi contaminada por uma ideologia que é o contrário da espiritualidade religiosa.

Ganhou a alcunha de “Imã sem fronteiras”, por viajar por todo o mundo. Em 2014, foi convidado a celebrar, em Estocolmo, na Suécia, o casamento de duas iranianas: Myriam Iranfar e Sahr Mosleh, que esperam o primeiro filho. No seu país estas duas lésbicas seriam, talvez, condenadas à morte. © Direitos Reservados | All Rights Reserved

Zahed ganhou a alcunha de “Imã sem fronteiras”, por viajar por todo o mundo. Em 2014, foi convidado a celebrar, em Estocolmo, na Suécia, o casamento de duas iranianas: Myriam Iranfar (à esquerda) e Sahr Mosleh (que  sofre de uma doença óssea congénita). Ambas esperavam na altura o primeiro filho
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Foi entre os salafistas que o senhor notou que o amor que sentia por um dos “irmãos” não era espiritual nem platónico mas carnal. Qual a reacção da fraternidade quando revelou os seus sentimentos?

Fui rejeitado! Não queriam falar comigo nem apertar-me a mão. Alguns nem me olhavam nos olhos. Viam-me como uma tentação. Mudei-me definitivamente para França. Vivo em Marselha desde há 20 anos, próximo da casa dos meus pais, na mesma rua.

Interessante que tenha ido viver para junto da sua mãe, que ficou em estado de choque quando lhe revelou que é gay

… Ela não queria acreditar que eu pudesse ser gay. Foram precisos 10 anos para que ela entendesse que a homossexualidade não é uma doença.

Quando me casei com um homem e não com uma mulher, ela aceitou-me finalmente. Para mim, foi muito importante, porque encontrei o meu lugar na sociedade, já não precisava defender-me em casa nem explicar quem eu sou. Sem isso não teria paz.

A bênção do meu pai e o modo como ele fez a minha mãe mudar de ideias foi igualmente vital. Não seria o que sou hoje. Estaria totalmente perdido. Há jovens que ainda são espancados e até assassinados por serem homossexuais. É como se a nossa vida não nos pertencesse. É viver num inferno.

Em Marselha, sentiu uma crise fé. “Cortou as barbas, deixou de rezar e dedicou-se a festas e drogas”. Manteve uma relação amorosa com um homem promíscuo que o infectou com o VIH e fez de si seropositivo. Pode explicar as dúvidas e a rebelião?

Quando era adolescente, só conhecia o Islão político, a ideologia do Salafismo. Foi preciso quase uma década para eu encontrar o caminho espiritual do Islão.

Tentei converter-me ao Budismo e ao Cristianismo, mas encontrei homofobia em toda a parte – até mesmo entre os que não acreditam em Deus. Percebi então que o problema não é a religião, não é o Islão – mas o que fazemos com o Islão.

Não lamento nada. Mesmo quando fui infectado com o HIV eu estava envolvido numa relação de longo prazo e nada tive a esconder. Depois de 20 anos, posso garantir que sou uma pessoa saudável. E também feliz, embora não tenha sido fácil o meu percurso. Enquanto fazia um doutoramento recebi ameaças e tentaram matar-me, mas sou um adulto feliz, apesar de tudo. Vivo em paz.

"Não há nada no Corão nem nos Hadith [as palavras e acções de Maomé] que justifique a homofobia", diz o imã franco-argelino, aqui num desfile do orgulho gay em Amesterdão (Holanda) © Jerry Lampen | AFP | Getty

“Não há nada no Corão nem nos Hadith [as palavras e acções de Maomé] que justifique a homofobia”, diz o Zahed, aqui num desfile do orgulho gay em Amesterdão (Holanda), em Setembro de 2016
© Jerry Lampen | AFP | Getty

Por que recebeu ameaças de morte?

Porque algumas pessoas, tal como acontecia durante o Nazismo, tentam controlar as identidades dos outros. A realidade é que só pensam nelas. Centram-se nos seus medos e fobias. Têm de encontrar bodes expiatórios, geralmente minorias religiosas ou étnicas para fazerem delas exemplos. A sociedade islâmica está perdida – e este é o verdadeiro problema.

Dalil Boubakeur, Reitor da Grande Mesquita de Paris – onde o senhor costumava rezar – disse, a propósito do seu espaço de oração inclusivo: “Não culpamos os homossexuais mas não lhes podemos oferecer um lugar para as suas práticas [religiosas] para que isso faça parte da sociedade.” O Presidente do Observatório para os Actos de Islamofobia em França, Abadllah Zekry, foi ainda mais duro: “Há muçulmanos homossexuais mas abrir uma mesquita é uma aberração, não religião!”

Não há qualquer referência a homossexualidade no Corão, onde apenas se menciona a violação de mulheres, homens e crianças, em Sodoma e Gomorra, em nome de uma ideologia E isto é o que líderes muçulmanos fascistas fazem ainda hoje, em nome do Islão.

São eles os verdadeiros sodomitas – não os homossexuais. Não há nada no Corão nem nos Hadith [as palavras e acções de Maomé] que justifique a homofobia. Esta só apareceu após a morte do profeta. Na nossa mesquita inclusiva, seguimos as tradições de Maomé. Abrimos as portas a homens e mulheres, heterossexuais ou LGBT. Isto é o Islão!

A abertura da mesquita da unicidade em Paris foi um processo difícil?

Tivemos grande apoio da associação HM2F. Senti-me motivado ao ler nos jornais que alguns imãs se recusaram a sepultar um cidadão por ele ser um muçulmanos transexual.

Inicialmente, a nossa mesquita funcionava num quarto de um templo budista, mas temos agora o nosso próprio espaço, novo e mais amplo, no centro de Paris, para acolher mais de 300 fiéis. Já não sou eu que lidero as orações, mas jovens que eu formei.

Tencionamos abrir uma terceira mesquita noutra cidade de França – mas ainda não decidimos onde concretamente.

É verdade que também tem planos para abrir estas mesquitas no Reino Unido e na Dinamarca?

Não sabemos ainda, mas certo é os nossos planos são os de estar presentes em toda a Europa. Nas nossas mesquitas, as mulheres também lideram as orações. Rezamos todos juntos, sem segregação.

Em 2014, foi convidado a celebrar o casamento de duas iranianas lésbicas em Estocolmo (Suécia). Nessa altura o seu próprio casamento, com o sul-africano Qiyaammudeen Jantjies, que conheceu na Cidade do Cabo quando ali foi abrir um centro inclusivo, estava em profunda crise. O que aconteceu?

Estamos a divorciar-nos. Um casamento não dura para sempre – é como a vida. Quando partilhei a tristeza da separação com o meu pai, ele disse-me: ‘Filho, isto não acontece apenas na homossexualidade’. Acho que foi a primeira vez que ele usou a palavra ‘homossexualidade”.

Ludovic-Mohammed Zahed © Direitos Reservados | All Rights Reserved

Ludovic-Mohammed Zahed
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Esta entrevista, aqui na versão integral, foi publicada originalmente na revista VISÃO, em 10 de Junho de 2015 | This interview, here the uncut version, was originally published in the Portuguese news magazine VISÃO, on June 10, 2015

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