Daesh: Que força é esta que renasce das cinzas?

A queda de Ramadi (Iraque) e de Palmira (Síria) confirma previsões de que o autoproclamado Estado Islâmico é indestrutível? Procurei respostas entrevistando quatro investigadores: Renad Mansour, do Carnegie Middle East Center; Peter Harling, do International Crisis Group; Joshua Landis, autor do influente blogue Syria Comment; e Alexander Evans, coordenador da ONU que supervisiona a al-Qaeda e os Taliban. (Ler mais | Read more…)

A queda da cidade Ramadi foi uma das maiores derootas infligidas pelo DAESH às forças iraquianas (aqui no bairro de Haouz. 115 km a ocidente de Bagdad, em 4 de Abril de 2015. © Associated Press (AP)

A queda da cidade Ramadi foi das maiores derrotas infligidas pelo Daesh às forças iraquianas (aqui, quando ainda defendiam o bairro de Haouz, 115 km a ocidente de Bagdad, em Abril de 2015
© Associated Press (AP)

A cidade de Palmira, na Síria, classificada pela UNESCO como Património da Humanidade, foi igualmente conquistada pelo DAESH - que já destruiu a famosa estátua do deus leão deste complexo arquitectónico. © geographylists.com

A cidade de Palmira, na Síria, classificada pela UNESCO como Património da Humanidade, foi  conquistada pelo Daesh em simultâneo com Ramadi, no Iraque
© geographylists.com

Renad Mansour nasceu no Irão, quando o pai, iraquiano, fugiu para o país vizinho durante uma guerra que causou mais de um milhão de mortes, entre 1980 e 1988. Hoje, com a família que antes habitava Bagdad e Mossul refugiada no Curdistão (Norte), é dos principais especialistas num inimigo aparentemente imortal: o autoproclamado Estado Islâmico (IS, ISIS ou Daesh).

“Entre os anos 1970 e 1990, muita gente atravessava a fronteira do Iraque para o Irão, sobretudo os opositores políticos do regime [de Saddam Hussein]”, diz-me,em entrevista por telefone, a partir de Londres, o investigador do Carnegie Middle East Center. “Sou filho de uma guerra, mas a guerra que hoje estudo é mais complexa”.

Uma das “principais diferenças” em relação ao período em que Saddam era omnipotente e o Iraque uma potência, explica Mansour, é que “o actual governo central em Bagdad é muito fraco, e isso impossibilita uma força militar unida.”

“Há divisões internas na capital. E até no próprio partido [Dawa] do primeiro-ministro, Haider al-Abadi, há pessoas a conspirar abertamente contra ele. Há quem esteja a tentar derrubá-lo num golpe silencioso – e um deles é o anterior chefe de Governo Nouri al-Maliki.”

A derrota em Ramadi, capital da província de Anbar, “onde Abadi tem inimigos”, pode ser explicada neste contexto, segundo Mansour. “Um outro problema grave é a existência de várias milícias, predominantemente xiitas, que não estão sob a tutela de Abadi mas são controladas pelo Irão.”

“A solução para o Iraque está nas mãos dos sunitas”, acredita Mansour. “O problema é que, além de divisões políticas e falta de coordenação, os sunitas também não se entendem em questões como economia e segurança. Não têm qualquer estratégia para enfrentar o Daesh nas frentes de batalha e defender as populações.”

Com a queda de Ramadi, muitos temeram que a capital fosse o próximo alvo. Mansour está tranquilo: “O Irão não permitirá jamais que o Daesh entre em Bagdad. Ramadi foi um gigantesco erro táctico por parte das forças de segurança iraquianas e das milícias aliadas. Para o Daesh, estas vitórias permitem-lhe alimentar a sua própria narrativa. Precisam de dizer aos seguidores que continuam relevantes e a expandir-se. Isso dá-lhes legitimidade.”

“Por exemplo, por que é que a batalha por Kobane [na Síria] era importante?”, interroga Mansour para logo responder: “Quando o Daesh ocupou a cidade, entravam nas suas fileiras [através da fronteira com a Turquia] cerca de 300 voluntários por semana; quando a perderam [após quase 4 meses de cerco], o número diminuiu para 5. Com a legitimidade em declínio, o grupo tem de provar que ainda conquista territórios.”

Um combatente curdo ou peshmerga (literalmente, "o que enfrenta a morte"), na cidade síria de Kobane. O Daesh foi derrotado ao fim de quase quatro meses de cerco. Este desfecho diminuiu o número de voluntários estrangeiros que, semanalmente, atravessavam a fronteira com a Turquia para se aliarem aos jihadistas. © Bulent Kilic | AFP

Combatente curdo ou peshmerga  “o que enfrenta a morte”), na cidade síria de Kobane. O Daesh foi derrotado ao fim de quase 4 meses de cerco. Este desfecho diminuiu o número de voluntários estrangeiros que, semanalmente, atravessavam a fronteira com a Turquia para se aliarem aos jihadistas
© Bulent Kilic | AFP

Durante muito tempo “o maior inimigo” era a al-Qaeda, mas esse título pertence agora ao Daesh/ISIS, reconhece Alexander Evans, designado pela ONU “coordenador da equipa de monitorização da al-Qaeda e dos Taliban”.

O seu mais recente relatório, divulgado dia 26 [de Maio de 2015], estima que “há mais de 25.000 terroristas estrangeiros envolvidos em conflitos jihadistas em mais de 100 países”, em particular no Iraque, Síria e Líbia. É um aumento de “mais de 70%” em apenas nove meses”.

“O ISIS é um grupo dissidente da al-Qaeda (AQ) e deve ser visto nesse contexto”, acrescenta, numa curta entrevista por email, o académico que foi conselheiro do Departamento de Estado norte-americano, ao serviço do embaixador Richard Holbrooke (1941-2010), no Afeganistão e Paquistão.

“O ISIS é mais jovem do que a AQ, naturalmente mais digital [a Brookings Institution estima em mais de 45 milhões o número de contas de Twitter dos seus apoiantes] do que analógico, impaciente e tem (evidentemente) conseguido impor maior presença territorial do que a AQ ou qualquer outro derivado. O ISIS representa uma ameaça complexa e a longo prazo.”

“A sua ideologia, como todas as más ideologias, talvez não se extinga, mas isso acontecerá, com o tempo, à sua presença territorial e escala actual.”

Renad Mansour não crê que “o grupo terrorista mais rico do mundo” tenha um projecto de governo viável. O contrabando de petróleo, o tráfico de antiguidades, resgates e extorsões… nada tem servido as necessidades das populações sob seu domínio, porque o Daesh “está a superintender uma economia de guerra”. O investigador não prevê, todavia, revoltas populares. “Até agora ninguém ofereceu uma opção melhor – uma opção sequer”.

Peter Harling, director do Projecto Iraque, Líbano e Síria do International Crisis Group (ICG), admite que o Daesh “está gradualmente a tornar-se mais forte”. Numa breve troca de emails, anota: “A ironia é que quanto mais perigoso o ISIS se torna, mais os restantes beligerantes adoptam o mesmo tipo de comportamento que permitiu a emergência do ISIS.”

Um dos maiores obstáculos à solução do conflito no Iraque é uma alegada conspiração do ex-primeiro-ministro Nouri al-Maliki (à esquerda) para derrubar num "golpe silencioso". o actual chefe de Governo, Haider al-Abadi. © cross-head4.rssing.com/

Um dos maiores obstáculos à solução do conflito no Iraque é uma alegada conspiração do ex-primeiro-ministro Nouri al-Maliki (esq.) para derrubar, num “golpe silencioso”, o actual chefe de Governo, Haider al-Abadi (dir.). Ambos são xiitas e pertencem ao Partido Islâmico Dawa, mas o primeiro lidera a facção ultraconservadora e tem a lealdade de milícias extremistas
© cross-head4.rssing.com

Harling, que há mais de 15 anos tem a sua base no Médio Oriente, não acha que “o exército do terror veio para ficar connosco indefinidamente”, como concluíram Michael Weiss e Hassan Hassan, os autores de ISIS – Inside the Army of Terror.

“O ISIS sofre de sérias limitações e não pode expandir-se para áreas onde não tem base social – como Bagdad”, assegura o analista sénior do ICG. “As suas capacidades tendem a ser estranhamente exageradas pelos seus inimigos, precisamente porque usam o ISIS para legitimar as suas próprias acções, muito mais do que para o combater verdadeiramente.”

Sobre a Síria, Joshua Landis, autor do influente blogue Syria Comment (3000 leitores/dia) considera que a conquista pelo Daesh de Palmira (cidade Património da Humanidade da UNESCO), mas também de Idlib e de Jisr al-Shaghour, “demonstra o quão bem organizados e fortemente armados estão os rebeldes”.

“O regime está assustado e a recuar, procurando mais linhas defensivas”, salienta Landis, professor na Universidade de Oklahoma e casado com uma síria alauita – a minoria a que pertence Assad. “É demasiado cedo para saber se é o princípio do fim – embora alguns vaticinem isto.”

“Até aparecer um governo que administre a vasta região agora ocupada, o ISIS irá perseverar. O governo de Bashar al-Assad não conseguirá reconquistar o Leste da Síria – isto é uma certeza!”

Uma das mais recentes entradas no blogue de Landis não exclui a divisão do país: Nordeste para os curdos; Centro e Leste para o Daesh; Noroeste (incluindo Idlib) para o grupo Jaish al-Fatah; Ocidente para a dinastia Assad.

Números do terror

Jean Gouders | Cartoon Movement

Jean Gouders | Cartoon Movement

10.000-30.000

Não se conhece com exactidão o número de combatentes do Daesh no Iraque e na Síria. Estimativas variam entre um total de 10.000 (The Economist), 15.000 (The Guardian) e 30.000 (BBC)

81

Entre os que integram o Daesh mais de 12.000 eram estrangeiros (o Financial Times eleva este número para 22.000, 70% dos quais recrutados em 2014) que provêm de 81 países, dados do Soufan Group.

2000 milhões

Calcula-se que o total de fundos do “grupo terrorista mais rico do mundo”, ultrapasse os 2000 milhões de dólares [em 2015], provenientes de contrabando de petróleo (dois milhões por semana, segundo a BBC), assaltos a bancos, extorsão, resgates (um das fontes de receitas mais lucrativas) e tráfico de antiguidades.

40.000

A extensão de território iraquiano e sírio sob controlo do Daesh [antes de começar a perder importantes bastiões no Iraque e na Síria] oscilava, segundo diversas fontes, entre 40.000 e 90.000 quilómetros quadrados. Sob seu domínio, parcial ou total, estavam mais de oito milhões de pessoas e contaria com “o apoio” de “mais de 100.000”.

Renad Mansour, investigador do Carnegie Middle East Center. © Direitos Reservados | All Rights Reserved

Renad Mansour, investigador do Carnegie Middle East Center
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Peter Harling, director do Projecto Iraque, Líbano e Síria do International Crisis Group © Direitos Reservados | All Rights Reserved

Peter Harling, director do Projecto Iraque, Líbano e Síria do International Crisis Group
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Joshua Landis, autor do influente blogue Syria Comment © Direitos Reservados | All Rights Reserved

Joshua Landis, autor do blogue Syria Comment
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Alexander Evans, coordenador da ONU que supervisiona a al-Qaeda e os Taliban © Direitos Reservados | All Rights Reserved

Alexander Evans, coordenador da ONU que supervisiona a al-Qaeda e os Taliban
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Este artigo, agora actualizado, foi publicado originalmente no jornal EXPRESSO em 30 de Maio de 2015 | This article, now updated, was originally published in the Portuguese newspaper EXPRESSO on May 30, 2015

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