Abdullah II: “Paz com Israel é opção estratégica de todos os árabes”

O Rei Abdullah II da Jordânia chega a Lisboa [em 2009] para uma visita de Estado, retribuindo a que o Presidente Cavaco Silva efectuou a Amã e a Petra em 2008. Chega com uma delegação de políticos e empresários, na expectativa de reforçar laços bilaterais, sobretudo no sector privado. Acompanha-o também a rainha, Rania, que recebe, no Parlamento, o Prémio Norte-Sul. (Ler Mais | Read more…) 

“O conflito está a tornar-se cada vez mais perigoso e mais frequente na região, alerta o Rei da Jordânia. “Há estranhos que o exploram. Novas e mais armas letais são introduzidas nesta mistura. O statu quo também é um convite ao extremismo, e não preciso de explicar aonde isso conduziu” © Direitos Reservados | All Rights Reserved

“O conflito está a tornar-se cada vez mais perigoso e mais frequente na região, alerta o Rei da Jordânia. “Há estranhos que o exploram. Novas e mais armas letais são introduzidas nesta mistura. O statu quo também é um convite ao extremismo, e não preciso de explicar aonde isso conduziu”
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Esta entrevista, em exclusivo para media portugueses, foi feita por e-mail porque a agenda do rei estava “muito preenchida” para nos receber no seu palácio, explicaram os assessores de imprensa, que nos pediram também para encurtar a “muito longa” lista de perguntas.

Ficaram assim sem resposta questões como estas: Por que não há nos Estados árabes sociedades civis fortes e oposições seculares e liberais? A aproximação entre o Ocidente e a Síria (patrono do Hezbollah e do Hamas) vai influenciar a situação no Líbano e na Palestina e alterar a aliança Damasco-Teerão? Os países sunitas ainda temem um Irão nuclear e um “crescente xiita que desestabilize o Golfo Pérsico”?

Abdullah II optou por se centrar nos esforços da Liga Árabe para pôr fim ao conflito com Israel e destacar a sua prioridade desde que subiu ao trono em 1999: garantir a sobrevivência de um reino sem petróleo e com pouca água. Nem uma só vez fez referência ao seu pai, o defunto Rei Hussein.

Como é que o rei que se definiu a si próprio como “um dos líderes mais optimistas do Médio Oriente” olha para a presente situação na região?

Não vejo uma alternativa a ser optimista, determinado e activo ao tentar resolver os problemas da região. Sei que há pessoas que dizem que é inútil fazer seja o que for porque as coisas nunca mudarão… não há esperança. Mas se ficarmos sentados de braços cruzados, as coisas ficarão muito piores.

Francamente, não temos o direito ao pessimismo e à inacção; devemos aos nossos jovens fazer tudo o que pudermos para promover a paz e o desenvolvimento na nossa região. É um direito de nascença que eles têm – e também um desejo – o de crescerem e viverem em segurança, terem oportunidades, serem capazes de planear as suas vidas sem se questionarem sobre quando vai eclodir o próximo conflito ou como os vai afectar. 

Sim, a situação é difícil. Mas, simplesmente, não temos escolha a não ser procurar uma solução duradoura que liberte a nossa região de um prolongado conflito, que faça emergir o seu potencial e que permita aos nossos povos, sobretudo aos nossos jovens, procurarem um futuro de progressos e conquista, em vez de uma vida de medo e frustração.

Os países árabes apresentaram a Iniciativa de Paz Árabe que pode trazer uma paz global e duradoura, na base de uma solução de dois estados. É consistente com a solução que toda a comunidade internacional apoia. 

Nós fizemos a nossa escolha: uma paz global e duradoura. Israel tem de fazer também uma escolha: quer permanecer uma fortaleza, isolado na região e responsável pela perpetuação do conflito e da injustiça, ou quer estar integrado na região, viver em paz com os seus vizinhos e contribuir para um novo Médio Oriente orientado para o progresso, desenvolvimento e segurança de todos? 

Sentimo-nos encorajados com os sinais positivos que vêm dos Estados Unidos e da Europa. A nova Administração norte-americana prometeu envolver-se activamente nos esforços para conseguir uma solução, e também a Europa tem estado a cooperar com todas as partes para fazer avançar as negociações.

Em Março de 2013 (quatro anos após esta entrevista), o Rei Abdullah II da Jordânia que mantêm “relações fortes” com Benjamin Netanyahu (à sua direita, com o presidente da Autoridade Palestiniana, Mahmoud Abbas – à esquerda está o deposto líder egípcio Hosni Mubarak), mas deixou-lhe um aviso: Sem uma solução de dois Estados, Israel enfrentará uma de duas escolhas: “Apartheid ou democracia”     @DR (Direitos Reservados | All Rights Reserved)

Em Março de 2013 (quatro anos após esta entrevista), o Rei Abdullah II da Jordânia que mantêm “relações fortes” com Benjamin Netanyahu (à sua direita, com o presidente da Autoridade Palestiniana, Mahmoud Abbas – à esquerda está o deposto líder egípcio Hosni Mubarak), mas deixou-lhe um aviso: Sem uma solução de dois Estados, Israel enfrentará uma de duas escolhas: “Apartheid ou democracia”
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O senhor foi um grande aliado da Administração de George W. Bush, mas muitos comentadores políticos avaliam agora que o Médio Oriente se encontra numa situação pior devido às “políticas falhadas”. Qual a sua opinião?

Temos colaborado com sucessivas administrações americanas para tentar oferecer a paz à região e, em particular, para resolver o conflito israelo-palestiniano, que acreditamos ser a principal fonte de instabilidade no Médio Oriente. Vamos continuar a fazê-lo.

Temos de olhar em frente e cooperar com a comunidade internacional, os EUA, a Europa e outros, para conseguirmos progressos. O que importa agora é que o conflito ainda persiste, a ocupação ainda persiste e a injustiça ainda persiste. Temos de acabar com tudo isto. E vamos continuar a fazer tudo o que pudermos para darmos aos povos da região a vida digna e pacífica que merecem.

É possível resolver o conflito sem o Hamas?

Não se trata apenas de o conflito poder ou não ser resolvido sem uma ou outra parte. A resolução de conflitos em toda a parte requer o consenso político e a unidade das partes envolvidas; isso aplica-se aos palestinianos e aos israelitas.

No que diz respeito aos palestinianos, a Jordânia apoia de todo o coração os esforços na região, especialmente os valiosos esforços egípcios, para ajudar os vários grupos palestinianos a ultrapassarem as suas divergências e a chegarem a um acordo.

Acreditamos que a unidade palestiniana é essencial, e é ditada pelos interesses palestinianos. Vamos continuar a apoiar todos os esforços que procuram pôr fim às divergências entre os diferentes campos, e a conceder toda a assistência possível aos palestinianos na construção e consolidação das suas instituições.

Uma solução de dois Estados ainda é possível se os palestinianos estão divididos, se Benjamin Netanyahu (encarregado de formar o próximo governo israelita) recusa este compromisso e se a expansão dos colonatos na Cisjordânia e Jerusalém Oriental continua?

O problema é muito maior do que os colonatos; é a ocupação no seu todo – o estrangulamento diário da vida social, cultural e económica palestiniana. Mais: [A Faixa de] Gaza vive uma crise humanitária; o sofrimento humano é imenso, a ira e a frustração crescem. O statu quo já não é do interesse de ninguém. Quero reiterar aqui que não há alternativa a uma solução de dois estados – um Estado palestiniano a viver em paz e em segurança ao lado de Israel.

Os palestinianos, os árabes, abraçaram esta solução. Israel tem de fazer o mesmo se procura viver em paz na região. Não podemos desistir e vamos continuar em busca da solução de dois estados, com o apoio da comunidade internacional, e através de negociações que devem ser aceleradas e acarinhadas. A alternativa é mais do mesmo, mais conflito e mais sofrimento. E essa é uma alternativa que nós, simplesmente, não aceitamos.

Analistas em Amã notam que, desde as revoltas populares da “Primavera Árabe”, Abdullah II “tem vindo a cultivar um certo culto de personalidade”, promovendo também o filho primogénito, Hussein – príncipe herdeiro desde que, em 2004, renegou a promessa feita ao seu pai e predecessor de que a coroa seria do meio-irmão Hamza, filho da rainha Noor. @DR (Direitos Reservados | Rights Reserved)

Analistas em Amã notam que, desde as revoltas populares da “Primavera Árabe”, Abdullah II “tem vindo a cultivar um certo culto de personalidade”, promovendo também o filho primogénito, Hussein – príncipe herdeiro desde que, em 2004, renegou a promessa feita ao seu pai e predecessor de que a coroa seria do meio-irmão Hamzah, filho da rainha Noor.
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Há alguma perspectiva de ser apresentado um novo plano de paz árabe ou reformular o que foi apresentado em 2002, mas que foi rejeitado por Israel, por contemplar o direito de retorno dos refugiados palestinianos?

A Iniciativa de Paz Árabe de 2002 exprime a opção estratégica dos Estados árabes de paz, e reflecte a nossa visão colectiva do futuro do Médio Oriente. No futuro, o que vemos é uma região onde todos os estados, incluindo Israel, vivem em paz e em segurança, gozando de relações normais. 

Os Estados árabes propuseram um plano vasto sobre como concretizar esta visão que contempla os interesses e as preocupações de todas as partes do conflito: a retirada de Israel de todos os territórios ocupados desde [a guerra de] 1967; a criação de um Estado palestiniano independente; garantias de segurança colectiva e normalização das relações entre Israel e todos os seus vizinhos; e uma solução negociada para o problema dos refugiados palestinianos de acordo com as resoluções da ONU. 

Esta proposta é uma base para conversações de paz e não tem precedentes na história do conflito. Foi apoiada, unanimemente, por todos os 22 Estados árabes e tem o apoio de países muçulmanos fora da região com os quais Israel não tem relações políticas ou económicas por causa do conflito.

Disse que a paz é um “imperativo estratégico” para a Jordânia. Porquê? Foi ao encontro das expectativas do reino?

Como referi anteriormente, a paz é uma opção estratégica para todos os Estados árabes, não apenas para a Jordânia. As razões são muitas. Em primeiro lugar, o conflito está a tornar-se cada vez mais perigoso e mais frequente na região. Isso deve-se, em parte, ao facto de a natureza do conflito permitir que estranhos o explorem.

Novas e mais armas letais são introduzidas nesta mistura. O ‘statu quo’ também é um convite ao extremismo, e não preciso de explicar aonde isso conduziu. A um nível mais prático, os países da região enfrentam vários desafios comuns que não podem ser eficazmente resolvidos enquanto o conflito persistir.

De um modo geral, o conflito impediu o desenvolvimento da região como um todo. Sabemos que não podemos concretizar todo o nosso potencial se não houver uma paz global e duradoura na região.

Partindo do princípio que os EUA se retiram de um Iraque estabilizado até 2010, como é que essa estabilização afectará a economia da Jordânia, se a abastada comunidade de exilados iraquianos (os que fugiram depois da guerra do Golfo de 1991, não os refugiados da guerra que derrubou Saddam Hussein) regressar à pátria?

A estabilidade do Iraque é essencial para a estabilidade de toda a região. Os iraquianos na Jordânia têm sido convidados bem-vindos até poderem ou optarem por regressar ao seu país. Muitos contribuíram para a nossa economia. Mas o elevado número de iraquianos que residem na Jordânia também afectou os nossos já escassos recursos, água, educação, sistema de saúde. É do nosso interesse que os iraquianos possam reconstruir o seu país.

O Iraque foi o principal parceiro comercial da Jordânia, e a nossa economia beneficiará do crescimento da economia iraquiana, no comércio, no investimento e em muitas outras áreas. Mas, para além das relações económicas, o Iraque sempre foi um importante país do Médio Oriente, e é do interesse de toda a gente que o Iraque resolva os seus problemas e que os iraquianos sejam capazes de reconstruir o seu país e restaurar o seu papel crucial na região.

Em 2011, pela primeira vez, um grupo de 36 líderes tribais da Jordânia contestaram publicamente o envolvimento de Rania, na política do reino, acusando-a de “erguer centros de poder para favorecer os seus próprios interesses”. Abdullah II, sob pressão para aplicar reformas económicas e sociais, manteve-se ao lado da mulher, de origem palestiniana. @DR (Direitos Reservados | All Rights Reserved)

Em 2011, pela primeira vez, um grupo de 36 líderes tribais da Jordânia contestaram publicamente o envolvimento de Rania, na política do reino, acusando-a de “erguer centros de poder para favorecer os seus próprios interesses”. Abdullah II, sob pressão para aplicar reformas económicas e sociais, manteve-se ao lado da mulher, de origem palestiniana.
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A sua determinação em que a Jordânia tenha um programa de energia nuclear está relacionada com as ambições iranianas neste campo?

Não. O nosso programa nuclear pacífico permitir-nos-á gerar energia, lançar projectos de dessalinização da água e pôr fim à nossa dependência de petróleo importado.

Contribuirá para o nosso crescimento económico e reduzirá a factura energética do nosso país e dos nossos cidadãos. Chegou a hora de diversificarmos os nossos recursos de energia para garantir maior segurança energética, ser mais independentes na energia e preservar o ambiente explorando todas as opções de energias alternativas.

Por último, pode dizer-nos se, como rei, ainda tem tempo para ser “homem-rã, piloto e pára-quedista”, apreciar “corridas de automóveis, desportos náuticos, mergulho e coleccionar armas e armamento antigos”, como se lê na sua biografia oficial?

Bem, como podem imaginar, o tempo livre é precioso, por isso tenho de ser mais selectivo como o vou passar. Habitualmente, faço actividades que interessam à minha mulher e aos meus filhos, e de que eles gostam.

Todos nós gostamos de desportos náuticos, por isso passamos muito tempo em Aqaba, a andar de barco, a mergulhar e fazer esqui aquático. Também adoramos acampar no deserto de Wadi Rum, e estou feliz porque os meus filhos me acompanham num dos meus passatempos favoritos, ao permitirem que eu lhes ensine a lançamento do arco. Passo o tempo livre com a minha família. Creio que isso nunca é de mais.

“Os islamistas são parte do tecido social e corpo político”

Até agora Abdullah II tem conseguido manter o reino Hashemita mais ou menos sereno, mas em 2012 não escapou a uma vaga de protestos contra os aumentos dos combustíveis (gasolina, querosene, diesel e gás de cozinha). Entre as forças políticas jordanas que mais tentaram capitalizar com a violência nas ruas estava a Irmandade Muçulmana. @DR (Direitos Reservados | All Rights Reserved)

Até agora Abdullah II tem conseguido manter o reino Hashemita mais ou menos sereno, mas em 2012 não escapou a uma vaga de protestos contra os aumentos dos combustíveis (gasolina, querosene, diesel e gás de cozinha). Entre as forças políticas jordanas que mais tentaram capitalizar com a violência nas ruas estava a Irmandade Muçulmana.
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Como é que o seu país, dependente dos fornecimentos de petróleo e gás, a enfrentar elevados desemprego, pobreza e dívida pública, está a enfrentar a crise económica global? Que medidas tem adoptado?

Este último ano tem sido muito difícil para os jordanos, tendo em conta não apenas a crise nos mercados financeiros mas também os altos e baixos no mercado petrolífero. Apesar de tudo, a nossa economia teve um bom desempenho o ano passado, com um crescimento de cerca de 6 por cento, e as nossas exportações cresceram também consideravelmente – mais de 35%.

A dívida externa, como percentagem do Produto Interno Bruto [PIB] diminuiu também de 46,8% em 2007 para 26,3% no final de 2008. As nossas reservas de divisas permanecem sólidas. [Dados mais recentes podem ser conferidos aqui.]

Embora não tenhamos sido afectados tão severamente pela crise económica global como outros na região, estamos a tomar as precauções necessárias para assegurar que a nossa economia será capaz de suportar quaisquer consequências que daí advenham. Sentimos que a melhor maneira de enfrentar estes desafios é avançar com o nosso programa de desenvolvimento da maneira mais abrangente possível.

Isso inclui vários e grandes projectos de infra-estruturas [nos sectores] da energia, água e transportes, o que criará empregos a médio prazo e facilitará o crescimento no longo termo. A pobreza e o desemprego são problemas que estamos a fazer todos os possíveis por enfrentar. Iniciámos reformas que habilitaram a nossa economia para reagir bem em tempos difíceis. Estamos a tentar atrair investimento que possa criar empregos e contribuir para o crescimento económico.

Temos muitas vantagens competitivas de que mais e mais investidores estrangeiros tomam conhecimento. A nossa estabilidade, a nossa localização, as nossas leis modernas são mais-valias. Mas, ainda mais importante, temos mão-de-obra altamente qualificada que contribuiu para o desenvolvimento de toda a região.

O Rei Abdullah II foi escolhido pelo seu pai (na imagem atrás dele) como sucessor, em substituição do tio, Hasan, que foi durante anos o príncipe herdeiro. @DR (Direitos Reservados | All Rights Reserved)

Abdullah II e a “sombra” do Rei Hussein.
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Uma vez que a classe média e os pobres são os sectores mais afectados pela crise, há o risco de grupos islamistas no reino fomentarem uma sublevação social e, com isso, impedirem a aplicação das reformas que prometeu?

As preocupações com os efeitos sociais da crise económica não se circunscrevem a um ou outro país, a um ou outro grupo político. Por todo o mundo, sociedades inteiras estão sob pressão devido à crise económica.

Fomos poupados até certo ponto mas, como eu disse, temos tomado precauções necessárias para assegurar que a nossa economia está protegida o mais possível desta crise global. É claro que as nossas políticas económicas se têm centrado nos desprivilegiados, com vista a melhorar as suas condições. Também seguimos políticas para proteger e expandir a nossa classe média.

O Governo adoptou várias medidas para assegurar que os padrões de vida não se deterioram. Quanto à questão dos islamistas, eles são parte integrante do nosso tecido social e do nosso corpo político. Como todos os jordanos, eles exercem os seus direitos políticos e participam na vida pública. Somos um país estável governado pela nossa Constituição e pelas nossas leis. E encorajamos todos os jordanos a contribuir para a vida política no país.

Queremos o melhor para o nosso povo, e estamos empenhados em reformas nacionais que melhorem as condições para todos, e assegurem que o povo participará mais na decisão do seu futuro. Em breve, o governo vai encetar um grande projecto de descentralização que dará ao povo mais expressão na tomada das suas decisões e definição do seu futuro.

Qual foi o seu maior desafio desde que sucedeu ao Rei Hussein?

Sempre disse que a minha prioridade número um é garantir e melhorar os padrões de vida das famílias jordanas. A Jordânia não tem a abundância de recursos naturais de muitos dos seus vizinhos. Não temos petróleo e somos um país com escassez de água. Temos uma população muito jovem, e bastante pobreza e desemprego.

Por isso, o Governo e eu temos centrado a nossa atenção em apoiar, em primeiro lugar, os mais vulneráveis na sociedade alargando a rede de segurança social e o acesso a cuidados de saúde, tentando garantir que todos têm um lar acessível e seguro. Em segundo lugar, as nossas políticas sócio-económicas são concebidas para criar oportunidades dirigidas aos jovens.

Isso significa que nos centrámos imenso em promover os sectores da educação e formação profissional, para que os jordanos sejam, globalmente, candidatos competitivos ao emprego. 

Simultaneamente, abrimos o nosso país, em termos de comércio e investimento, e procuramos constantemente expandir ambos com o objectivo de criar oportunidades de emprego. Por este meio, esperamos fortalecer a nossa classe média, que é, na realidade, o núcleo central da nossa economia. Finalmente, procuramos garantir que todo o país prospera através de programas que estabelecem, em cada área, zonas de desenvolvimento especial.

Tentámos isso na nossa cidade portuária, Aqaba, e há dois anos começámos a aplicar o modelo a nível nacional. O desafio é poder fornecer aos nossos cidadãos o melhor da vida e certificarmo-nos que o país progride. Esta tem sido a minha prioridade, e continuará a ser.

“Portugal tem já um papel valioso no Médio Oriente”

Em Março de 2009, Abdullah II retribuiu, com uma visita de Estado a Lisboa, uma outra que o Presidente português Cavaco Silva fizera a Amã e a Petra. Uma das decisões tomadas pelo rei foi a de comprar um regimento inteiro de cavalaria – 300 cavalos de raça lusitana – um investimento calculado em um milhão de euros, na condição de a GNR dar a formação necessária. @Dr (Direitos Reservados | All Rights Reserved)

Em Março de 2009, Abdullah II retribuiu, com uma visita de Estado a Lisboa, outra que o Presidente português Cavaco Silva fizera a Amã e a Petra. Uma das decisões tomadas pelo rei, segundo o jornal Diário de Notícias, foi comprar um regimento inteiro de cavalaria – 300 cavalos de raça lusitana –  investimento calculado em um milhão de euros, na condição de a GNR dar a formação necessária. 
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Já alguma vez esteve Portugal, a nível pessoal ou oficial, ou esta é a sua primeira visita?

Esta é a minha primeira visita oficial a Portugal e há muito que eu e [a rainha] Rania ansiávamos por ela. O Presidente Cavaco Silva honrou-nos com a sua visita à Jordânia o ano passado [2008], e espero poder encontrar-me de novo com ele e com vários outros dirigentes portugueses e membros do Parlamento.

Temos uma agenda muito preenchida durante esta visita, e o nosso principal foco não é apenas fazer progredir as relações bilaterais, mas também ajudar a estabelecer contactos entre os sectores privados jordano e português.

A delegação que me acompanha a Lisboa inclui vários responsáveis jordanos e representantes do sector privado. Eles vão encontrar-se com os seus homólogos portugueses durante um fórum de negócios organizado pelo Jordan Investment Board, e espero que isto seja uma plataforma para mais comércio e investimento entre os nossos países.

Está familiarizado com as raízes árabes de Portugal?

Sim estou, tal como muitos jordanos – e muitos árabes – estão familiarizados com a herança árabe de Portugal, porque é também a nossa herança, da qual temos muito orgulho pelo contributo que os árabes e os muçulmanos deram para o desenvolvimento sócio-económico, o progresso cultural, as ciências, as artes, etc. Espero que esta herança comum nos ajude a construir melhores pontes de cooperação e compreensão. Deve inspirar-nos a aceitar-nos uns aos outros, a abraçar o que é comum e a respeitar as diferenças, e a superar todos os preconceitos.

Como avalia as relações entre a Jordânia e Portugal e o que pode ser feito para melhorar a cooperação bilateral. Registaram-se progressos significativos que possam ser realçados desde a visita do Presidente Cavaco Silva a Amã, em 2008?

As nossas relações bilaterais são muito afectuosas e amigáveis, mas na Jordânia, acreditamos que há um espaço ainda vasto para cooperação a nível oficial e mais além, sendo necessário definir os parâmetros a nível de liderança. Este processo começou a com a visita do Presidente Cavaco Silva à Jordânia, o ano passado, durante a qual foram assinados cinco diferentes acordos, sobretudo no que diz respeito à cooperação económica e cultural.

Desde essa altura, vários acordos foram propostos e espero que venham a estar na agenda para discussão durante esta visita. Estou interessado em explorar todos os tipos de possibilidades para reforçar as nossas relações, e não apenas as económicas, mas também as políticas e as culturais. Sim temos relações excelentes, mas tenho a certeza de que as podemos consolidar ainda mais.

Sendo um país que mantém boas relações com países árabes e muçulmanos e com Israel, que papel poderá Portugal desempenhar no Médio Oriente, e em que contexto?

Através da sua participação na UNIFIL [Força Interina das Nações Unidas no Sul do Líbano], a sua contribuição com fundos, pessoal e treino para a reconstrução do Iraque, e o apoio que dá a uma solução negociada do conflito israelo-palestiniano, Portugal já está a desempenhar um valioso papel na nossa região, e espero que continue a fazê-lo, como vizinho próximo da nossa região com o qual partilhamos laços culturais e históricos e como voz proeminente na União Europeia.

Neste ponto, tenho de expressar a gratidão da Jordânia pela posição firme de Portugal no recente conflito em Gaza, assim como os esforços de Portugal no sentido de a Europa manter a ajuda humanitária ao povo de Gaza, e a promessa portuguesa de responder ao apelo de emergência da UNRWA [agência da ONU de auxílio aos refugiados].

O Rei Abdullah II, durante uma visita aos EUA, para discutir o "processo de paz"com Israel. Brendan Smialowski/Getty

O Rei Abdullah II, durante uma visita aos EUA, para discutir o “processo de paz”com Israel.
© Brendan Smialowski | Getty

Este artigo, agora revisto, foi publicado originalmente pelo jornal PÚBLICO, em 16 de Março de 2009 | This article, now revised, was originally published by the newspaper PÚBLICO on March 16, 2009

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