O Leão de Damasco e a Estrela de David

Em Damasco, Israel está ausente dos mapas da Palestina. É difícil prever que tipo de relações estes dois antagonistas no Médio Oriente poderão estabelecer se e depois de resolvido o conflito. Os Estados Unidos também eram inimigos e agora aparecem como salvadores. (Ler mais | Read more…)

Israeli-Druze bride Arin Safadi, 24, departs through the United Nations buffer zone at the Quneitra crossing in the Golan Heights, which Israel captured from Syria in 1967, to marry a Syrian-Druze groom, Thursday, Sept. 25, 2008. Once crossing into Syria, the bride is not allowed to go back to Israel. Syria and Israel have held four rounds of indirect talks through Turkish mediation so far and Assad recently said he is looking to have direct, face-to-face talks next year. The main sticking point has been the extent of an eventual Israeli withdrawal from the Golan Heights. The issue led to the collapse of U.S.-brokered direct negotiations in 2000. Syria demands the complete return of the Heights. Israel has sought to keep a strip of land around the Sea of Galilee. ©Dan Balilty | AP

Arin Safadi, drusa de cidadania israelita, atravessa a “zona tampão”das Nações Unidas, em Quneitra, na “fronteira” com o restante planalto dos Golã, para  poder casar com um druso de nacionalidade síria, em Setembro de 2008. A noiva vivia na aldeia de Ein Qeinya, que Israel conquistou na guerra de 1967, quando Hafez al-Assad era ministro da Defesa. Depois do casamento, não teve autorização de voltar – é assim com todos os que tomam a decisão de se mudar para “o outro lado”.
© Dan Balilty | AP

Depois de mais de 40 anos de hostilidades, de desconfiança, de suspeita, se for alcançada uma solução do conflito israelo-árabe, que tipo de relações está a Síria disposta a estabelecer com o Estado de Israel?

Nasser Kaddour, ministro de Estado para os Negócios Estrangeiros, não hesitou um segundo. Era como já soubesse a resposta de cor. Ela foi extraordinariamente breve.

“A Síria aceita todas as cláusulas e as implicações da Resolução 242 da ONU. Não convém ultrapassar os limites antes de tudo ficar definido”, disse Kaddour, o segundo homem mais importante da diplomacia de Damasco, em resposta a uma pergunta que lhe fiz, durante um encontro com jornalistas europeus no seu ministério, no âmbito de uma missão das Nações Unidas.

Num país onde os mapas da Palestina continuam inalteráveis, como se Israel não existisse desde 1948; onde o vizinho Estado de Israel é apresentado como o mais tenebroso dos inimigos; onde as crianças vão à escola de uniforme militar, aprender a odiar a “entidade sionista”, é difícil prever como é que um dia estes dois antagonistas poderão manter relações normais.

Alguns analistas conseguem antever uma espécie de cooperação no futuro a nível regional, outros prevêem uma espécie de “paz fria” que tem caracterizado os laços entre o Egipto e Israel, e há ainda os que prevêem a substituição do actual estado de guerra por um mero estado de não beligerância.

Kaddour insiste em que Israel deve aceitar o princípio “território em troca de paz” antes de ser reconhecido, e a sua exigência faz sentido. Afinal, até hoje, Israel ainda não aceitou a Resolução 242. Este número é, definitivamente, uma fórmula mágica, aqui, em Damasco.

Tudo o que a Síria pode dar ou recusar neste processo de paz está contido na 242, a resolução que considera inadmissível a ocupação de territórios pela força, e que afirma terem todos os Estados da região direito a serem reconhecidos em fronteiras seguras.

A UN soldier stands next to a shelter inside a UN base near the Quneitra crossing between the Israeli-controlled Golan Heights and Syria.  © AP FILE PHOTO

Um soldado das Nações Unidas à porta da sua base junto à cidade de Quneitra, nos Montes Golã, na fronteira entre o território que Israel ocupa desde 1967 e anexou em 1981 e a Síria. Um dos principais obstáculos à devolução do planalto está na insistência dos israelitas em controlar o Mar da Galileia, onde vai buscar a maioria dos seus recursos de água.
© AP (Associated Press)

Se Israel quiser ter paz, e se os árabes quiserem que a Síria participe nas conversas multilaterais, é bom que os israelitas assumam primeiro um compromisso em relação à resolução 242, ou seja, que aceitem retirar-se dos territórios ocupados e reconheçam os direitos legítimos do povo palestiniano.

Basta uma promessa de Israel –com as garantias dos EUA e da URSS –e a Síria avançará com o processo de paz, sugeriu Kaddour, a segunda figura do Ministério dos Negócios Estrangeiros de Damasco, depois de Farouk al-Shara [o vice-presidente]. Se Israel não assumir um compromisso claro, então a Síria não participará nas conversações multilaterais, mesmo que as outras partes árabes decidam fazê-lo.

Para Kaddour, não faz sentido um país discutir questões económicas ou ecológicas se o seu território continua ocupado. “O que é que interessa aos árabes discutir problemas regionais, se não há uma geografia definida, se não há fronteiras delineadas?”, interrogara anteriormente o ministro sírio da Informação, Mohammad Salman.

Todos os responsáveis sírios usam a mesma linguagem, os mesmos “slogans”, os mesmos “clichés”. Não se vislumbra o que está para além desta fraseologia tão hermética.

Se Israel se mantiver intransigente durante quanto tempo vão os sírios manter as conversações bilaterais? Bem, tudo depende dos americanos, disse Kaddour, confiante como todos os outros colegas do Governo de que os Estados Unidos vão exercer gigantescas pressões sobre Israel para levar a bom termo a tarefa que começaram.

“A [actual] Administração americana [de George H. W. Bush] tem um interesse sério e verdadeiro em trazer a paz à região, foi por isso que respondemos favoravelmente à iniciativa dos Estados Unidos”, salientou o ministro sírio.

Na verdade, se a Resolução 242 parece ser a Bíblia, ou melhor, o Corão (a Síria é um país maioritariamente muçulmano, embora secular) das autoridades, Bush é visto quase como um Deus, a quem é preciso fazer sacrifícios, mas que no fim saberá recompensar os “bons”. Os “maus” continuam a ser os Israelitas que constroem colonatos nos territórios ocupados, que bombardeiam aldeias no Sul do Líbano, enquanto apregoam a paz.

É, por isso, que Kaddour acha injusto que se fale de extremistas entre os palestinianos e os libaneses, porque, na sua opinião, são os “actos agressivos” de Israel que fomentam o radicalismo.

An Israeli soldier of the Golani brigade covers himself in a prayer shawl as others gather for the morning prayer before a military exercise in the Israeli controlled Golan Heights, near the border with Syria, Tuesday, May 7, 2013. © Ariel Schalit)

Soldados israelitas da brigada de elite Golani em oração antes de exercícios militares nos Montes Golã ocupados, junto à fronteira com a Síria, em 7 de Maio de 2013.
© Ariel Schalit | AP | Financial Times

Enquanto Israel ocupar a chamada “faixa de segurança” no Sul do Líbano [uma retirada unilateral, não terá paz. Esta é a convicção da Síria e do Irão, os dois principais pólos de influência no país do cedro.

[Sob intensa pressão das acções de guerrilha do Hezbollah, milícia-partido alegadamente financiada por Damasco e armada por Teerão, Israel retirou-se unilateralmente em 2000 de um território que se transformara num “cemitério de soldados”, mas o conflito não foi interrompido. Em 2006, eclodiu outra guerra sangrenta.]

Se Kaddour admite ser incapaz de controlar as forças libanesas que lutam contra Israel, já o ministro da Informação, Mohammad Salman, crê ser possível dominar os “elementos extremistas” palestinianos que se opõem às conversações de paz, graças a um acordo de reconciliação recentemente concluído entre a Síria e a OLP.

Alguns destes grupos radicais hostis a Yasser Arafat, como a FPLP- Comando Geral, de Ahmed Jibril, ou a As-Sa’Iqa, têm quartel-general em Damasco e integram a Frente de Salvação Nacional, uma aliança que não faz parte da OLP.

Kaddour garante que a Síria nunca teve problemas com a OLP (embora tivesse fomentado rebeliões contra Arafat, ele próprio declarado “persona non grata” em Damasco em 1983, e apesar de ter confiscado os bens do Fundo Nacional Palestiniano) e que as divergências envolviam apenas as diversas facções do movimento.

Todos estes esforços de reconciliação e coordenação fazem parte da estratégia da Síria para que nenhuma delegação árabe seja tentada a assinar um tratado de paz separado com Israel, à semelhança do Egipto em 1979.

Bashar al-Assad, son of Syrian President Hafez al-Assad, stands under a portrait of his father 24 April 2000 in Damascus. (Photo credit should read  © LOUAI BESHARA/AFP/Getty Images)

Hafez e Bashar al-Assad, pai e filho, o anterior e o actual Presidente da Síria, numa foto de 2000, o ano em que morreu o “Leão de Damasco” e em que Israel retirou unilateralmente as suas tropas do Sul do Líbano, depois de várias acções de guerrilha do movimento xiita Hezbollah.
© Louai Beshara | AFP | Getty Images

O omnipresente (o seu retrato está em todo o lado) e todo poderoso (os seus espiões controlam todos os movimentos) Presidente Hafez al-Assad [1930-2000], cognominado “ O Leão de Damasco”, assegura que pode esperar mais 100 anos pelos Montes Golã.

Com dificuldades os sírios tentam passar a sua mensagem. Por muito que ela seja pertinente, raramente é bem recebida, em especial no Ocidente. Há uma grande necessidade neste país de técnicos de comunicação.

O estrangeiro que chega a Damasco tem para apreciar muita beleza até aos monumentos históricos dos tempos do Império Otomano, ou do Califado Omíada. Vive no passado, mas sente-se isolado do mundo real. A cidade tem boas estradas, prédios modernos (sem qualquer ligação com a tradicional arquitectura árabe), escola e clínicas privadas, carros de luxo.

Mas, as comunicações telefónicas com o exterior são penosamente demoradas. Só se pode ver televisão nacional. As notícias da imprensa local são censuradas. As máquinas de fax só existem nos ministérios, as declarações das autoridades são propaganda pura.

Talvez, as autoridades de Damasco tenham de aprender com os personagens de uma lenda que se conta na área ocupada dos Montes Golã. Narra a história que, nas horas de monotonia, os militares israelitas comunicam com os soldados sírios do outro lado do planalto servindo-se da Playboy. Abrem a revista nas páginas com fotos de mulheres nuas, e os sírios apreciam o panorama com os seus binóculos de longo alcance. Por sinais que ambos entendem, agradecem ao inimigo.

O que os separa, parece ser, sobretudo, um muro psicológico. E, por essa razão, é tão difícil de transpor. [Em 2016, cinco anos depois de uma guerra que dilacera a Síria, o chefe da espionagem militar israelita, general Herzi Halevy, deixou clara a posição do seu país: é preferível uma vitória do “estado islâmico”/Daesh do que manter os Assad no poder com apoio do Irão.]

© Direitos Reservados | All Rights Reserved

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Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 13 Novembro 1991 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO on November 13, 1991

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