“Não temos medo das balas deles, muito menos das suas palavras”

Numa passagem por Amã, depois da Conferência de Paz de Madrid, Hanan Ashrawi e Haider Abdel-Shafi falam dos desafios que os palestinianos enfrentam para que a sua luta pela independência seja reconhecida num mundo que tem sido complacente com as políticas de ocupação de Israel. (Ler Mais | Read more…)  

Haidar Abdel Chafi e Hanan Ashrawi, representantes dos palestinianos na Conferência de Madrid, em 1991

Os palestinianos gostariam que as conversações bilaterais com Israel se realizassem num país europeu, e que a CEE [a União Europeia/UE só foi criada em 1993] tivesse um papel mais determinante no processo de paz para o Médio Oriente.

Esta foi a mensagem transmitida por Haider Abdel-Shafi [1919-2007] e Hanan Ashrawi, respectivamente o chefe e a porta-voz da delegação palestiniana à Conferência de Madrid, num encontro realizado num Hotel de Amã, com jornalistas europeus, numa iniciativa da ONU.

Para a Hanan Ashrawi, é inadmissível que Israel, cujo comércio com a CEE representa 78% do total das suas exportações, insista em afastar a Comunidade Europeia do processo de paz.

“A CEE está em melhores condições para perceber as complexidades da região, arbitrar disputas e oferecer alternativas”, disse.

Os palestinianos conseguiram que, além dos patrocinadores da conferência (EUA e URSS), a Europa possa também ser chamada por uma das delegações para moderar. “Mas, como o convite tem de ser aceite por todos, Israel usará seguramente o seu veto”.

A professora de literatura inglesa na Universidade de Birzeit, que se tornou famosa em Madrid pelas suas contundentes conferências de imprensa, admitiu que a delegação palestiniana não está interessada em manter negociações em Washington, um dos locais que têm sido sugeridos.

Os EUA suspenderam o diálogo com a OLP e não há instituições representativas dos palestinianos na capital federal americana.

As conversações poderão iniciar-se no próximo dia 20 [de Novembro de 1991], três dias depois de o secretário de Estado americano, James Baker, regressar da sua viagem ao Extremo Oriente.

“Preferíamos um país europeu, um território neutral. Mas, é claro, Israel não quer. Eles (israelitas) protestaram veementemente contra Madrid. No entanto, Madrid está cheio de boas recordações. Tem uma tradição cristã, judaica e muçulmana”, disse Hanan Ashrawi.

Seja qual for a cidade, a delegação palestiniana solicitou aos compatriotas garantias de que os seus membros, à chegada a Jerusalém, não serão revistados, detidos ou interrogados pelas autoridades israelitas.

“Queremos ser tratados como iguais. Não pedimos favores. Para nós, é muito difícil obter vistos, documentos, licenças. Os nossos movimentos são controlados e recebemos ameaças de morte”.

Hanan Ashrawi e Faisal Husseini, da delegação palestiniana (conjunta com a jordana, por imposição de Israel), num encontro com o presidente dos EUA, George H. W. Bush, em Dezembro de 1992, na Casa Branca, em Washington
©The Times of Israel

E os representantes palestinianos levaram as ameaças muito a sério. O hotel onde ficaram instalados, no centro de Amã, estava rodeado de rígidas medidas de segurança. Na sala onde nos recebeu, três corpulentos guarda-costas vigiavam portas, corredores e elevadores, atentos a todos os movimentos dos visitantes.

Os colonatos judaicos nos territórios ocupados são um “assunto premente”. A sua suspensão não é uma condição prévia, mas Israel tem de mostrar que está interessado em avançar.

“Como é que se pode entrar num processo de negociação, quando se está a violar a essência da negociação”, interrogou a porta-voz palestiniana.

Mais calmo do que a impulsiva e dinâmica Hanan Ashrawi, com uma gentileza tocante, Haider Abdel-Shafi, o chefe da delegação interveio para salientar que a construção de colonatos “é uma violação da 4ª Convenção de Genebra”, que Israel continua a recusar aplicar aos territórios ocupados. “Eles estão sozinhos contra o mundo”, observou, com um sorriso triste.

Chafi [era] médico na Faixa de Gaza, admirado pelos seus compatriotas. Foi preso pelos egípcios, antigos administradores do território, por ter sido dos poucos que pertencendo ao Parlamento Comunista Árabe, aceitou a criação de dois Estados na Palestina, reconhecendo Israel. Isso não impediu, porém que ele voltasse a ser diversas vezes detido pelos israelitas.

Em Amã, ele propôs a criação de comissões de inspecção, semelhantes às enviadas pela ONU para o Iraque, para verificar no terreno que não estão a ser criados novos colonatos, confiscadas terras, construídas infra-estruturas, montadas casas novas ou ocupadas casas em zonas árabes.

“Os colonos podem ficar, mas o Estado palestiniano quer ter o seu próprio estatuto de residência, de nacionalidade”, sublinhou Ashrawi.

Hanan Ashrawi e Faisal Husseini, membros da delegação palestiniana que Israel “autorizou” a ir a Madrid – Yitzhak Shamir recusou admitir a OLP, então considerada “inimigo número um”

Em resposta a uma pergunta que lhe fiz, sobre as críticas de alguns palestinianos de que a delegação palestiniana partiu de uma posição minimalista para as negociações de paz, aceitando as fronteiras de Israel anteriores a 1967, o período de transição proposto pelos EUA e não exigido o regresso dos refugiados da guerra de 1948, Abdel-Shafi esclareceu:

“Não neguei no meu discurso o direito de os refugiados palestinianos de 1948 regressarem. Invoquei mesmo a Resolução 194 da ONU; é verdade que aceitámos as fronteiras de 1967 (e não o plano de partilha da Palestina de 1947). Porque esta posição é a mais pertinente e realista neste momento e, além disso, foi aprovada pelo Conselho Nacional Palestiniano [em Argel, 1988]). Quanto ao período de transição, frisei que não aceitávamos que fosse permanente”.

Na capital jordana, os representantes palestinianos realçaram o facto de estarem em melhores condições do que as outras delegações árabes para negociar, sem traumas, com Israel.

“Conhecemos os israelitas melhor do que ninguém. Não temos medo deles. Sabemos como lidar com eles. Conhecemos os seus truques. Estamos habituados a negociar quando eles fecham as nossas escolas e universidades, quando o exército mata um dos nossos e queremos recuperar o corpo…”, disse Hanan Ashrawi.

Dando ênfase à sua declaração, rematou: “Se não temos medo de enfrentar as suas balas, também não temos medo de enfrentar as suas palavras”.

Elogiosa para com James Baker – ambos admitem uma admiração mútua – “É a pessoa mais teimosa que eu conheci em toda a minha vida”), a académica palestiniana está confiante de que os EUA não vão abandonar o processo de paz depois de terem trabalhado tanto para o lançar.

Os presidentes dos EUA, George H.W. Bush, e da União Soviética, Mikhail Gorbatchov, organizadores da Conferência de Madrid em 1991
© Pascal Le Segretain | Sygma via Getty Images

 

Na sua opinião, Israel deixou de ser um aliado estratégico dos EUA no novo mundo unipolar, errou ao provocar um confronto entre o Presidente Bush e o Congresso, e tem de compreender que, se quiser ter futuro no Médio Oriente, tem de deixar de ser dependente da ajuda ocidental e fazer a paz com os seus vizinhos árabes.

Perguntei a Hanan Ashrawi se a conferência de Madrid teria sido possível sem a guerra do Golfo de 1991 [que se seguiu à invasão do Kuwait, por ordem do deposto e executado ditador Saddam Hussein], e ela respondeu prontamente: “Talvez tivesse sido possível uma conferência internacional”.

“Antes da guerra, o curso dos acontecimentos já caminhava para a tragédia (fragmentação árabe, angústia crescente dos palestinianos). Depois da guerra os EUA descobriram que era necessária a estabilidade, mas que esta não era viável sem resolver a principal causa do conflito na região –o problema palestiniano”.

Hanan Ashrawi reconhece que é perigoso alimentar expectativas em relação à paz. Mas confessou que não pode deixar de se sentir entusiasmada.

Com ar fatigado, retendo a custo as lágrimas, disse: “Fomos reconhecidos, pela primeira vez, como povo […] Não há euforia, não queremos resultados instantâneos, mas queremos ver mudanças tangíveis. Não podemos negociar enquanto o povo é refém de Israel”

Segura de si, sempre com o cigarro entre os dedos, Hanan Ashrawi tornou-se uma figura extremamente popular. E tem consciência disso: “É comovente e sinto-me embaraçada, mas não me vejo como líder”.

Em Madrid, confessou ter chorado nos primeiro dias com tanta emoção. Contou que o marido, Emile Ashrawi, fotógrafo e director teatral, que a substituiu na lida da casa e na educação das duas filhas, Amal e Zeina, não teve mãos a medir com as visitas que recebia diariamente.

Achou uma ideia magnífica que jovens palestinianos, no dia da conferência tivessem decorado com ramos de oliveira os veículos dos soldados israelitas.

Mas o que mais a sensibilizou foi uma fatwa, uma espécie de édito religioso, emitida pelo xeque (líder religioso sunita) da cidade de Jenin, na Cisjordânia, autorizando que ela, “uma simples mulher”, representasse os palestinianos.

A Conferência de Madrid em 1991 iniciou um processo histórico, mas só em 1993, com a assinatura dos Acordos de Oslo, é que Israel e a OLP se reconheceriam mutuamente. (Na foto, Yitzhak Rabin, Yasser Arafat e Shimon Peres)
© The Times of Israel

 

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO, em 9 de Novembro de 1991 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO on November 9, 1991

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