Arafat: “Até as Falklands têm direito à autodeterminação!”

Actor consumado, de autodomínio perfeito e audiências de novo selecionadas, Yasser Arafat recebeu em Tunes um grupo de jornalistas europeus. Acusou Yitzhak Shamir de repetir velhas ideias mas, durante duas horas, demonstrou que o seu próprio discurso não se renovou. (Ler mais | Read more…)

© CNN

O grito de Yasser Arafat ecoou pela exígua sala apinhada de gente quando lhe perguntámos que tipo de Estado independente pede ele para os palestinianos: “Você é contra as resoluções das Nações Unidas?”

Num mundo em constante mudança, com novos conceitos de fronteira e soberania, qual a definição de um Estado palestiniano independente? Como vai o líder da OLP ligar a Cisjordânia e a Faixa de Gaza num futuro Estado?

A estas perguntas, feitas durante um encontro em Tunes com jornalistas europeus patrocinado pelas Nações Unidas, Arafat não hesitou mas também não foi concludente: “De acordo com os mapas da ONU! Não peço a Lua, só que as resoluções das Nações Unidas sejam aplicadas. E segundo as resoluções elaboradas pela ONU há uma ligação entre a Cisjordânia e Gaza”.

E esta ligação passa pelo interior do território de Israel, voltámos a perguntar. “ De acordo com o que foi aceite pelas Nações Unidas”, respondeu secamente.

E apontando com o dedo indicador, com uma expressão enigmática nos olhos, interrogou: “ Você é contra as resoluções das Nações Unidas?”.

Com um extraordinário autodomínio, Arafat dá à conversa o ritmo que lhe pretende imprimir. Ele é um actor, conhece o palco onde está a representar. Só precisa de cativar a audiência.

O seu inglês atraiçoa-o frequentemente e tem de recorrer várias vezes à ajuda dos seus colaboradores para encontrar a melhor palavra com o significado equivalente em árabe.

“O certificado de nascimento de Israel é a Resolução 181 e vocês na Europa, na América, em todo o Mundo, de Estaline a Truman, reconheceram Israel de acordo com a Resolução 181”, lembrou Arafat, frisando com a voz alterada: “Mas o certificado de nascimento de Israel é para dois Estados, não um Estado; o Estado árabe da Palestina e um Estado judaico, posteriormente designado por Israel.

E quais são os resultados?”, pergunta  Arafat, exasperado. “Perdemos a nossa pátria, não temos sequer bilhetes de identidade”.

© Middle East Eye

Então, Arafat cruza os braços sobre a mesa e com o olhar frio, ameaçador, sussurra: “Você não sabe o que significa ser refugiado, sem bilhete de identidade. Nós não temos sequer cemitérios? O palestiniano, do berço até à morte, é um problema.”

“Eu pessoalmente não sei onde serei sepultado. Quando houve o ataque aéreo [israelita, contra o quartel-general da OLP, em Tunes] em que 104 pessoas foram mortas, 47 das quais palestinianos, alguns cadáveres esperaram uma semana para ser enterrados. As suas famílias pediram-me para os sepultar lá [na Palestina] mas não tive êxito. Então pedi ao meu irmão Presidente [da Tunísia, Zine El Abidine] Ben Ali para poder enterrá-los aqui na Tunísia, sabia?”

Num tom paternalista, intimista, prosseguiu: “ Vou contar-lhe uma história. Talvez não saiba, mas um dos representantes oficiais da ONU no Kuwait era um palestiniano. Quando morreu, a sua mulher contactou-me e perguntou-me: ̔Onde vamos sepultá-lo?’. Acredite-me: foram precisos cinco dias até encontrar um lugar. Foi ao longo da Linha Verde que separada Beirute Oriental e Ocidental que ele ficou.”

Mestre na arte de manobrar – uma capacidade que lhe tem permitido ao longo dos anos manter unidas as diferentes e até beligerantes facções da OLP –, Arafat contorna a situação sempre a seu favor e não respondeu claramente à nossa pergunta.

Depois de realçar uma vez mais o drama dos palestinianos, transforma-se repentinamente de vítima em acusador: “Vocês no Ocidente aceitaram a solução de dois Estados e agora… [dizem] não à OLP, não ao Estado palestiniano, não à autodeterminação para o povo palestiniano. Pode imaginar a nossa tragédia?”

Num misto de raiva e ironia, Arafat constata: “Toda a gente tem direito à autodeterminação, incluindo os 1.400 habitantes das Ilhas Falklands, mas nós, mais de seis milhões, não temos direito à autodeterminação. Os Estados bálticos [Estónia, Letónia e Lituânia] alcançaram a sua independência. Os três têm menos de seis milhões de habitantes”.

© STF | AFP | Getty Images

A resposta às minhas perguntas foi, talvez, a mais longa, neste encontro com os jornalistas a que Arafat acedeu com uma certa benevolência, admitiram os seus colaboradores, porque se tratava de uma missão patrocinada pelas Nações Unidas.

Agora que voltou a estar na ribalta, forçado à travessia do deserto durante a guerra no Golfo de 1991  – que ele chama de “terceira guerra mundial” –, Arafat pode dar-se ao luxo de escolher novamente as suas audiências.

[A intervenção militar internacional, liderada pelos EUA, seguiu-se à invasão do Kuwait pelo Iraque – o apoio de Arafat a Saddam Hussein custou-lhe o apoio das petromonarquias árabes e mais um fluxo de refugiados].

Um ritmo incessante de vida, viajando por todo o mundo, de noite e de dia, reflecte-se na sua fisionomia: o rosto está mais envelhecido, o corpo mais magro e, durante a nossa conversa, Arafat teve mesmo de tomar um comprimido para aliviar dores, provavelmente provocadas por tensão nervosa.

Afinal, recebeu os jornalistas no mesmo dia em que as delegações palestiniana e israelita discursaram em Madrid. Foi uma jornada plena de emoções.

Inquirido por um editor do diário The Guardian, de Londres, sobre a sua reacção ao discurso de Yitzhak Shamir [então primeiro-ministro], Arafat acusou-o de estar preso às mesmas velhas ideias e slogans. Mas durante as quase duas horas que durou o encontro com os jornalistas, o próprio Arafat foi incapaz de renovar o seu discurso.

Também ele reafirmou velhas palavras de ordem, embora se tenha revelado consciente dos perigos que poderão advir para o Médio Oriente se a paz não se concretizar.

“Uma completa confusão. Novos sarilhos, com todos os grupos fanáticos espalhados pelo mundo”, advertiu: “E o Ocidente pagará o preço!”

© newscastimages.com

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 3 Novembro de 1991 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on November 3, 1991

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