O rei que esperou três décadas para ser príncipe herdeiro

Filho de Tony Gardiner e casado com Rania al-Yassin, Abdullah II da Jordânia combina o passado e o presente de um país que os britânicos ajudaram a criar e onde metade da população é palestiniana. (Ler mais | Read more…)

Just before his death, Hussein made a change to his will revising the law of succession, which earlier had designated his brother Hassan successor, in favour of his eldest son Abdullah. He abruptly returned to the U.S. clinic on 25 January 1999 for further treatment undergoing a failed bone marrow transplant after which he returned to Jordan. On 7 February 1999, King Hussein died of complications related to non-Hodgkin's lymphoma. @

Pouco antes de morrer, em 1999, devido a complicações resultantes de um linfoma, o rei Hussein mudou a lei de sucessão, retirando ao irmão Hassan bin Talal o direito de ser herdeiro. Transferiu o trono para o filho mais velho, Abdullah (ambos na foto). 
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Tudo terá começado durante as filmagens de Lawrence da Arábia. A inglesa Antoinette Gardiner era assistente da equipa do realizador David Lean quando Hussein bin Talal chegou a um dos locais de rodagem. Queria averiguar se os soldados que havia dispensado para servirem de figurantes estavam a ser “tratados com respeito”.

Esta é a versão do jornalista e historiador Adel Darwish. Outra, do general James Lunt, é a de que o pai e a mãe do actual rei da Jordânia se conheceram numa festa em Amã, em 1961.

Vamos acreditar em Lunt, que foi o biógrafo oficial do defunto monarca jordano (Hussein of Jordan), quando ele narra que Tony Gardiner, filha de um tenente-coronel da Força Aérea britânica, ainda não tinha completado 19 anos quando, seguindo o protocolo que impedia o rei de dar o primeiro passo, o convidou para a pista de dança.

Ele aceitou e, a partir daí, raramente aceitava outra companheira, até porque a jovem partilhava o seu gosto pela equitação, esqui aquático e karting. Tornaram-se inseparáveis.

Embora as relações anglo-jordanas tivessem melhorado imenso em 1961, a perspectiva de um rei hashemita casar com uma britânica não era bem vista pela mãe de Hussein, a rainha Zein.

Em Londres, o Foreign Office também receava complicações, mas Hussein (divorciado da sua prima Dina) e Toni estavam determinados e uniram-se numa cerimónia discreta.

Antoinette recebeu o nome árabe de Muna (Desejo) al-Hussein, naturalizou-se jordana e converteu-se ao islão. Não quis ser rainha e preferiu ser princesa. Em Fevereiro de 1962, deu à luz Abdullah (nome do avô, assassinado em 1951).

Foi uma surpresa para muitos quando Hussein se divorciou de Muna, mas a separação, depois de mais três filhos (Faisal e as gémeas Zein e Aisha), foi tão discreta quanto o casamento. Ela manteve os privilégios e ainda hoje vive em Amã, tratada como Sua Alteza Real.

Abdullah, o primogénito, tinha um ano quando Hussein o nomeou sucessor, mas a animosidade da rainha Zein em relação à inglesa e o temor de uma longa regência se os muitos inimigos do rei o assassinassem, fizeram com que Hassan, o irmão mais novo do monarca, se tornasse príncipe herdeiro.

Foi preciso esperar até aos 37 anos para que Abddullah recuperasse o seu estatuto. Hassan caiu em desgraça (devido a intrigas palacianas) depois de mais de três décadas à sombra do trono, e foi afastado em 26 de Janeiro de 1999.

O Rei Abdullah II (à esquerda) com a sua mãe, Princesa Muna Al-Hussein (Tony Gardiner, nome de solteira). @DR (Direitos Reservados | All Rights Reserved)

O Rei Abdullah II (esq.) com a mãe, princesa Muna Al-Hussein (Tony Gardiner, nome de solteira)
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Baixinho como o pai, pele clara e olhos azuis como a mãe, mais fluente em inglês do que em árabe, Abdullah II foi coroado a 7 de Fevereiro mas, dez anos depois, permanece uma figura misteriosa para muitos jordanos.

Num passeio por Amã, a capital, onde as fotografias de pai e filho estão quase sempre lado a lado, um residente dizia-nos no Verão passado: “Ainda estamos a aprender a amá-lo, mas ele nunca ocupará o lugar que era de Hussein.”

A biógrafa Heather Lehr Wagner (King Abdullah II) observou que o novo rei foi rápido a chamar a atenção para si e para a sua mulher, Rania al-Yasin, palestiniana (como metade da população), filha de um banqueiro.

Casaram-se em 1993 e têm quatro filhos. “Desta forma, ele assegurou que nem Hassan nem a viúva do pai, a rainha Noor, continuariam a servir como porta-vozes ‘oficiais’ [da monarquia].”

Foi ainda mais longe ao retirar, em 2004, o título de príncipe herdeiro ao meio-irmão Hamzah, filho varão de Noor, justificando que o queria “libertar de responsabilidades”. Uma decisão incompreensível para muitos jordanos: que Hamzah seria o príncipe herdeiro foi o último desejo de Hussein e o primeiro decreto de Abdullah.

Abdullah II, ora viajando sozinho e incógnito, para ouvir as queixas dos súbditos, ora aparecendo em família, nas capas das mais famosas revistas do mundo, nasceu na capital jordana a 30 de Janeiro de 1962.

Formou-se em St Edmund’s School, na Sandhurst Academy e na Universidade de Oxford, na Grã-Bretanha; na Escola de Cavalaria de Fort Knox e na Universidade de Georgetown, nos Estados Unidos.

Antes de ascender ao trono, o experiente pára-quedista e mergulhador, amante de motos e corridas de automóveis, coleccionador de armas antigas, “fanático” pela série O Caminho das Estrelas (Star Trek) onde teve uma fugaz aparição, podia dar-se ao luxo de jantar tranquilamente no Hard Rock Cafe de Amã.

Agora, tem de ser mais cuidadoso com a segurança pessoal, embora como comandante das Forças Especiais já tivesse feito inimigos. Foi ele o chefe de uma unidade de luta antiterrorista que desmantelou um gang recrutado por Saddam Hussein para assassinar opositores iraquianos na Jordânia.

Encarregaram-no também de “acalmar” os tumultos populares, no Sul, quando subiram os preços do pão, em 1996. Foi promovido a general por um pai orgulhoso que, no leito da morte, haveria de lhe oferecer a coroa.

O Rei Hussein e o seu filho prmogénito, Abdullah, quando este era apenas príncipe e nem sequer herdeiro: a coroa foi inicialmente prometida ao irmão do monarca, Hassan. @DR

O rei Hussein e o filho primogénito, Abdullah, quando este era apenas príncipe e nem sequer herdeiro: a coroa foi inicialmente prometida ao irmão do monarca, Hassan, por pressão da rainha mãe, Zein, que não queria, aparentemente, ver a Jordânia governada pelo filho de uma inglesa
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Este artigo, agora revisto, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 16 de Março de 2009 | This article, now revised, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on March 16, 2009

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