Refugiados: Os campos da Palestina

A maior parte dos palestinianos que vivem nos campos de Baqa’a, na Jordânia, e Jaramana, na Síria, partilha a experiência de serem duplamente refugiados, das guerras israelo-árabes de 1948 e 1967. Todos anseiam por regressar à pátria perdida. (Ler mais | Read more…)

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Ilham, 10 anos, tenta explicar a ideia abstracta que tem daquilo a que chama a sua pátria:  “O meu pai disse-me que a Palestina é um sítio muito bonito, com flores, muito melhor do que o campo.” Ela vive em Jaramana, num campo que alberga mais de oito mil refugiados palestinianos, a cerca de 10 quilómetros de Damasco. Tem os mesmos olhos expressivos das crianças palestinianas que vivem nos campos de Qalandiya, em Jerusalém, ou de Jabalya, na Faixa de Gaza. Mas o seu ar doce e submisso contrasta com a constante atitude de desafio dos shabab (jovens), que nos territórios ocupados lançam pedras contra os soldados israelitas.

No campo de Baqa’a, a 20 quilómetros de Amã, a maior concentração de refugiados palestinianos de todo o Médio Oriente, com cerca de cem mil residentes [em 1991] –fugitivos das guerras israelo-árabes de 1948 e 1967 e da guerra do Golfo de 1991 -, os rapazes da escola das Nações Unidas olham tímidos e cabisbaixos para o grupo de jornalistas que acabou de entrar na sala de aula.

Há dois anos [em 1989], quando visitei Jabalya, o campo que foi o berço da [primeira, 1987-1994] Intifada, em Gaza, os meninos palestinianos faziam com os dedos o sinal de vitória, e exibiam orgulhosos as fundas com que apedrejavam as tropas de ocupação. Aguerridos, testavam os visitantes cumprimentando-os com a mais famosa saudação hebraica: Shalom [Paz]. As boas-vindas dependiam da resposta, que deveria ser dada preferencialmente em árabe ou inglês.

Apesar da ocupação os vitimar e desumanizar, os palestinianos da Cisjordânia ou de Gaza mostram-se mais livres do que os seus irmãos confinados aos campos de refugiados espalhados pelo mundo árabe, e que, até à sublevação popular iniciada em Dezembro de 1987, constituíam uma das principais bases de poder da OLP.

É certo que, sob domínio israelita, os palestinianos são cidadãos divididos. A sua mente luta por preservar a identidade palestiniana (quando insistem, por exemplo, em usar camisolas e porta-chaves com os emblemas e cores da Palestina), embora o seu corpo tenha sido “assimilado” por Israel (quando imitam determinados valores do Estado de Israel, constroem colonatos judaicos nos territórios ocupados ou consomem produtos israelitas). Mas nos campos de refugiados, na Síria ou na Jordânia, eles são prisioneiros de corpo e alma, acomodados a uma situação de miséria e opressão.

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A maioria dos palestinianos na Jordânia, na Síria ou no Líbano é oriunda de povoações como Haifa, Jaffa ou Galileia, que foram integradas nas fronteiras israelitas de 1948. Eles sempre sonharam regressar às suas casas e terras, e, por isso, nunca aceitaram a existência de Israel.

Dos cerca de 1,7 milhões de palestinianos que vivem na Cisjordânia e em Gaza, cerca de um terço também são refugiados de 1948 e vivem em campos, mas a maioria está ligada a famílias com raízes nestes dois territórios. Por isso, o seu problema imediato não é tanto a existência de Israel, mas a ocupação israelita.

Estes palestinianos mostraram-se sempre mais receptivos à solução de dois Estados, porque a convivência com o ocupante lhes mostrou que Israel é demasiado poderoso para ser erradicado.

Forçados a aceitar os conselhos dos palestinianos dos territórios, Yasser Arafat e a OLP reconheceram, em 1988, o direito de Israel existir. Mas fizeram-no sem dizer explicitamente aos refugiados na Jordânia, Síria e Líbano o que isso significava: que eles já não poderiam regressar às suas casas e às suas terras. O sonho ficou, mas a esperança e vã.

“Nós aqui sobrevivemos no desespero. Pelo menos, os que vivem nos territórios ocupados têm oportunidade de lutar”, observou, com voz amargurada, Hana, uma enfermeira de 21 anos, nascida no campo de Jaramana, onde partilha com os seus dez irmãos uma minúscula habitação.

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Jaramana é, como todos os campos de refugiados, um labirinto de casas degradadas. O odor familiar das especiarias, das frutas e dos vegetais mistura-se no ar com a sensação de opressão. “Os sírios estão em toda a parte, vigiam-nos, controlam-nos, reprimem-nos”, confessou, num encontro secreto, um palestiniano anónimo.

Não é difícil encontrá-los. Sentado no chão, com as pernas cruzadas, o sírio Ibrahim vende T-shirts, peúgas, saias e calções, com as cores gastas pelo sol. Diz que é um simples comerciante à procura de cliente certos para a sua mercadoria. “Sabe, eles aqui são pobres e eu vendo barato”, explica-se, com pouca convicção.

O argumento de Hassan Rahmoun, um sírio corpulento que nunca abandona os seus óculos escuros, é ainda mais inverosímil: “Gosto tanto dos palestinianos que decidi viver junto deles”.

Mahmoud Chad, 14 filhos e duas vezes refugiado, acena afirmativamente com a cabeça quando lhe perguntam se a OLP é “o único e legítimo representante do povo palestiniano”. Então por que não vemos  fotos de Yasser Arafat espalhadas pelo campo, como em Amã, na Cisjordânia ou em Gaza? Olha em redor, como se receasse ser ouvido, e responde envergonhado: “Sabe, há pequenas divergências entre grupos, mas as coisas estão a voltar ao normal. É um problema de líderes, não estamos envolvidos nisso”.

Em Jaramana, Arafat e OLP são palavras quase proibidas. Não há fotos do “Presidente do Estado da Palestina”, nem graffiti de saudação ao movimento que ele chefia. Samantha Fox, a cantora britânica de talento duvidoso e actriz de filmes porno, é a preferida num campo dominado por facções palestinianas pró-sírias, excluídas da OLP e hostis a Arafat.

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Na Síria existem dez campos com um total de 289.923 refugiados registados na UNRWA, a agência de auxílio criada pelas Nações Unidas para socorrer os desalojados e deslocados palestinianos das guerras do Médio Oriente.

Os campos estão sob o controlo da Administração Geral dos Refugiados Palestinianos Árabes, uma organização criada pelo Governo sírio em 1949. Os seus membros são nomeados por decreto presidencial, e os salários que recebem provêm de verbas previstas no orçamento de Estado sírio. Dos dez membros da Administração, apenas três são palestinianos.

“O Governo sírio trata os palestinianos como se fossem cidadãos sírios. Não há discriminação”, declarou Mohammed Abu Zarad, o director. É uma estranha maneira de apresentar a situação, sobretudo se recordarmos uma frase do [anterior] Presidente sírio, Hafez al-Assad, pronunciada em Abril de 1976, e que provocou calafrios a muitos palestinianos.

“Não existe um povo palestiniano”, frisou o senhor de Damasco, sempre defensor da “unidade da nação árabe” sob o domínio da “Grande-Síria”. Também Golda Meir, a falecida primeira-ministra de Israel, dizia que “não existe essa coisa a que chamam palestinianos”.

Os palestinianos de Jaramana vieram na sua maioria dos Montes Golã, território sírio que os israelitas conquistaram em 1967 e anexaram em 1981. Nos Golã, alguns já eram refugiados da guerra de 1948. As suas antigas aldeias fazem agora parte do Estado de Israel.

“Nasci nos Montes Golã, mas sou palestiniano”,  disse, num misto de orgulho e revolta, Mahmoun Aburaas, 32 anos, funcionário público em Damasco, residente em Jaramana. “A minha família era uma das mais antigas e mais importantes em Gaza. Fomos dispersos pelos franceses, pelos ingleses e pelos israelitas”,

Como que contagiados pelas queixas de uns e outros, os palestinianos não se calam. “Os meus pais são refugiados de 1948. Viviam em Safed [actualmente território israelita]. Perdemos o contacto com a nossa família. A nossa vida aqui é muito triste. As crianças ficam na escola alguns meses, e depois abandonam as aulas. Vendem cigarros para sobreviver”, relata a jovem Hana.

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Os habitantes dos campos respondem, ansiosos, a todas as perguntas. Mas, quando chega o momento de interpelar os jornalistas, as suas questões, colocadas friamente, tornam-se embaraçosas. Ávidos por respostas esclarecedoras, também eles emudecem perante o silêncio dos seus interlocutores.

“Há 50 anos que recebemos missões e nada mudou”, queixa-se Masri, de 74 anos, refugiado de 1948 e 1967. Ele grita, gesticula, lamenta-se sem uma pausa no seu azedo discurso: “Estamos cansados. Será que ainda não perceberam o que se passa? O que é preciso mais? Até o Vietname que era um problema insolúvel foi resolvido. Se a América quisesse devolver-nos a nossa pátria, podia fazê-lo em cinco minutos.”

No cubículo onde come e dorme, em Jaramana, longe dos olhares dos sírios que tudo vigiam, o velho refugiado não resiste a contar a sua história: “Na Palestina, eu era agricultor. Os judeus confiscaram as minhas propriedades. Fingiram que nos compraram as terras, mas eu ainda tenho os registos a comprovar que sou o dono.”

Tal como Masri, Hajji Atta al-Whidi ainda guarda as chaves da sua casa numa aldeia da Palestina que hoje faz parte do Estado de Israel. O seu primeiro nome revela que já foi a Meca, em cumprimento do último mandamento do Islão [Haj significa peregrinação e Hajji peregrino]. O chefe do Comité de Serviços do campo de Baqa’a é um muçulmano convicto:  Nós regemo-nos por três princípios morais: terra, honra e [laços de] sangue.”

“A terra está sempre em primeiro lugar e seria uma grave injustiça e um crime se me privassem do direito de ser repatriado”, frisou Whidi, um refugiado da guerra de 1948, que reclama o direito de retorno previsto na Resolução 194 da ONU. “É um direito humano!”,

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Envergando uma longa túnica e uma capa sobre os ombros, com o kaffiyeh a cobrir a cabeça e dedilhando um fio de contas, ele tem um porte altivo, que evoca o mago Merlin da corte do Rei Artur. É o notável do campo, o sábio que arbitra as disputas e resolve os problemas comunitários. As suas palavras, ouvidas em silêncio, são entremeadas com provérbios árabes.  Os direitos nunca serão perdidos, se forem sempre exigidos.”

Mohammed Al-Nuseirat, um engenheiro que também pertence ao Comité de Serviços, faz uma declaração surpreendente e ao mesmo tempo reveladora do desespero que caracteriza a vida dos refugiados: “Queremos regressar às nossas terras e às nossas casas, mesmo sob um regime político israelita. Estou convencido de que, no futuro, não haverá fronteiras a separar a Palestina, Israel e a Jordânia. Haverá liberdade de movimentos para todas as pessoas.”

Baqa’a é o maior campo de refugiados do Médio Oriente, com cem mil pessoas vivendo numa área de 1,8 quilómetros quadrados. É um misto de aldeia rural e vial suburbana, com carrinhos de venda de fruta e vegetais, livrarias, farmácias, lojas de electrodomésticos, aviários, talhos e peixarias, e até um banco e um clube de vídeo. Há escolas construídas com a ajuda de governos estrangeiros e uma clínica onde seis médicos e 18 enfermeiras atendem 600 pacientes por dia, para tratar desde uma simples ferida até à doença mais frequente: depressões nervosas.

A construção desleixada das casas sugere que elas deveriam ser provisórias, mas na realidade tornaram-se definitivas. “O mais triste é que os refugiados se habituaram a esta situação de miséria e nada fazem para mudar a sua condição de gente pobre”, lamentou o holandês Franke de Jonge, director da UNRWA em Amã. “Os campos são o sítio mais barato para se viver. Oficialmente, os refugiados não deviam pagar renda, mas pagam. E, quando alguém se muda para fora do campo, logo outro ocupa o seu lugar, geralmente da mesma família.”

Ahmad Mahmoud Hossein Jaber é o perfeito exemplo de uma vida de resignação. Aos 72 anos, este agricultor oriundo de Rafah, no sul da Faixa de Gaza, refugiado da guerra de 1948, partilha dois quartos e uma cozinha, em Baqa’a, com as suas duas mulheres e uma filha viúva.

 As paredes são húmidas e gélidas no Inverno. No Verão, o calor é sufocante. O contraplacado do tecto está tão retorcido que parece que vai desabar a qualquer momento. As janelas são tão pequenas que parecem postigos. O chão de betão está cheio de gretas. Durante o dia, o quarto de Jaber parece espaçoso. Os colchões rotos e gastos foram arrumados a um canto, na vertical. No exíguo compartimento onde prepara as refeições, o intenso cheiro de querosene do candeeiro e de gás do fogão faz recear uma explosão iminente.

No meio de tanta miséria, o velho palestiniano ainda consegue sorrir.

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Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 22 Novembro de 1991 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO on November 22, 1991

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