A partir de 1 de Janeiro de 2024, deixa de existir a “República de Artsakh”. Cercados e bombardeados pelo Azerbaijão, desamparados por quem lhes prometeu protecção, os 120 mil habitantes arménios decidiram abandonar as suas casas, mosteiros e montanhas. Termina mais um capítulo de uma história marcada por guerras, transferências de populações e massacres. E começa uma era de novas alianças geopolíticas no explosivo Cáucaso. (Ler mais | Read more…)

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Para os Arménios, escreveu Thomas de Waal, autor do premiado livro Black Garden*, o Nagorno-Karabakh era “o último reduto da sua civilização cristã, um refúgio histórico de príncipes e bispos antes do advento do mundo turcomano oriental”. Para os Azerbaijanos é “um berço, uma creche, ou um conservatório, a pátria dos seus músicos e poetas”.
A presença milenar cristã chegou ao fim na auto-proclamada “República de Artsakh”, quando os cerca de 120 mil habitantes arménios abandonaram em massa este território encravado no Azerbaijão, depois de 24 horas de um intenso bombardeamento, em 19 de Setembro, e de um bloqueio que, desde Dezembro de 2022 – com a introdução de um checkpoint no Corredor de Lachin, única via de acesso à Arménia –, lhes cortou o fornecimento de alimentos, medicamentos e combustíveis.
A fulminante ofensiva dos azerbaijanos permitiu-lhes apoderar-se de uma província que não controlavam há 35 anos. Seguiu-se um acordo de cessar-fogo, assinado coercivamente, a promessa de desmantelamento da força de defesa local, a rendição e detenção dos dirigentes karabakhis e o anúncio de que, a partir de 1 de Janeiro de 2024, “Artsakh” deixa de existir.

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Voltará a ser “Karabakh” (amálgama de turco e persa que se traduz por jardim negro) – uma área mais vasta que se estende às planícies do Azerbaijão. “Nagorno” ou “Nagorny”, o nome soviético que agradava aos arménios, tinha o significado de “montanhoso”.
O êxodo da população acompanhou a capitulação dos líderes. Para Baku, tratou-se de uma “partida voluntária”, porque aos cidadãos foi prometido “o respeito pelos seus direitos religiosos, culturais e educativos”. Para Stepanakert, foi uma “limpeza étnica” imposta por um regime autoritário a uma comunidade traumatizada e receosa do seu futuro numa região explosiva: o Cáucaso.
Uma das primeiras decisões do Azerbaijão foi dar a uma rua da capital karabakhi o nome de Enver Pasha, o líder dos movimento dos Jovens Turcos que é considerado um dos principais artífices do genocídio arménio de 1915.

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O destino do Nagorno-Karabakh começou a traçar-se em Novembro de 2020, quando o exército de Baku recuperou o controlo de um terço do enclave e de sete regiões adjacentes que perdera na década de 1990. Nos termos de um cessar-fogo imposto pela Rússia, as tropas karabakhis aceitaram retirar-se e Moscovo enviou uma força de manutenção da paz para separar os beligerantes.
A situação mudou completamente a favor de Baku, assim que a Rússia invadiu a Ucrânia em Fevereiro de 2022 e percebeu que era do seu interesse deixar cair a Arménia a favor do Azerbaijão.
Para esclarecer o que está em jogo, é necessário perceber as raízes do conflito que precipitou a queda da União Soviética. O Nagorno-Karabakh, cujas origens os arménios fazem remontar à sua antiga província de Artsakh, formada em 189 a.C, pertenceu aos impérios otomano, persa e russo. Este último anexou-o em 1823.

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“Foi quando Otomanos e Russos estavam na sua fase terminal que Azerbaijanos e Arménios descobriram a ideia de autodeterminação nacional”, explica Thomas de Waal. Os Arménios inspiraram-se nos movimentos independentistas nos Balcãs e na Europa de Leste; os Azerbaijanos “descobriram os ‘irmãos Turcos’ e militaram para se separar da Rússia”.
O que acelerou o processo de separação “foram os acontecimentos catastróficos de 1915 e a transformação da Rússia numa terra de refugiados”.
Em 28 de Maio de 1918, tombado o regime imperial russo, as três principais nações do Cáucaso – Arménia, Azerbaijão e Geórgia – tornaram-se independentes, mas, ao contrário dos Georgianos, nem Arménios nem Azerbaijanos controlavam plenamente os seus estados. Os nacionalistas na Arménia e no Azerbaijão não se entendiam quanto às fronteiras comuns e disputavam três províncias etnicamente mistas: Nakhichevan, Zangezur e Karabakh.

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Em Nakhichevan, a província mais ocidental, o Azerbaijão, com apoio turco, consolidou o controlo em 1918, expulsando milhares de arménios. Em Zangezur/Syunik, a leste, o aguerrido comandante arménio Andranik Ozanaian, varreu a região, queimando as aldeias azerbaijanas e escorraçando os seus habitantes.
No Karabakh, a “situação era mais complexa”: a assembleia local arménia tentou declarar a independência, mas quase não tinha contactos com a República da Arménia, do outro lado das montanhas.
Em Novembro de 1918, quando terminou a I Guerra Mundial, a Turquia rendeu-se aos Aliados e retirou-se do Azerbaijão independente, que passou o primeiro ano sob uma espécie de mandato britânico. Porque via os azerbaijanos como “um baluarte contra os bolcheviques e uma fonte de petróleo”, os britânicos não se preocuparam muito em resolver as disputas fronteiriças.

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Em Dezembro, adianta De Waal, uma missão britânica instalou-se em Shusha/Shisha durante oito meses. O general William Thomson, que liderou a expedição, impôs a Karabakh um odiado governador azerbaijano, Khosrov-Bey Sultanov, e persuadiu Andranik, o líder da guerrilha, a ir para a Arménia até se realizar uma conferência de paz em Paris.
A conferência não abordou as questões fronteiriças e os britânicos retiraram-se do Azerbaijão em 1919, deixando para trás “expectativas por cumprir e disputas por resolver”. No Karabakh, a comunidade arménia dividiu-se entre o dilema da cooperação (os que viam um futuro de parceria económica com o Azerbaijão) ou da confrontação (os que queriam a unificação com a Arménia).
Os dois grupos acabaram expulsos ou mortos, sobretudo em Shusha/Shisha, na altura uma das mais importantes metrópoles do Cáucaso, famosa pelos seus teatros, igrejas e mesquitas quando uma rebelião arménia foi brutalmente esmagada em Março de 1920.

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Em Maio, os bolcheviques, novos senhores da Rússia, assumiram o controlo de Baku e derrubaram o governo azerbaijano. O 11º Exército Vermelho avançou para Karabakh e, seis meses depois, assumiu o controlo da Arménia. O plano inicial era incluir as três províncias disputadas – Karabakh, Nakhichevan e Zangezur – na recém-criada República Socialista Soviética da Arménia.
Acontece que em 1921, o equilíbrio de forças alterou-se (russos e turcos reconciliaram-se) e uma sublevação contra os bolcheviques na Arménia azedou as relações entre Ierevan e Moscovo. Todos os acordos assinados tornaram-se nulos. A partir daqui, foram as armas a decidir o destino dos territórios disputados. O líder arménio Garegin Ter-Harutyunyan, conhecido como Njdeh, ocupou Zangezur e expulsou o que restava da população azerbaijana.
Nakhichevan manteve-se sob controlo pleno do Azerbaijão, o seu estatuto confirmado pelo Tratado de Moscovo de Março de 1921. No mesmo ano, em 5 de Julho, o Comité dos Bolcheviques do Cáucaso, sob a alçada do Comissário das Comunidades, Josef Estaline, determinou que, “tendo em conta a necessidade de paz nacional entre muçulmanos e arménios”, o Karabakh permaneceria na República Socialista Soviética do Azerbaijão.

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Em 1923, os soviéticos criaram a “Região Autónoma do Nagorno-Karabakh”. A aldeia de Khankendi tornou-se capital regional e passou a chamar-se Stepanakert, em homenagem a Stepan Shaumian, comissário bolchevique em Baku. Novas fronteiras deram à região uma população esmagadoramente arménia – 94% -, mas sem qualquer ligação à Arménia.
Como explicar a decisão soviética? Em 1921, as “considerações estratégicas dos bolcheviques eram de curto prazo”, refere o investigador Thomas de Waal. “A prioridade era assegurar a conquista do Azerbaijão, cujos poços de petróleo eram muito mais importantes do que a Arménia. […]”
“Os novos governantes em Moscovo esperavam que a nova república soviética muçulmana se tornasse […] “um farol vermelho para a Pérsia, a Arábia e a Turquia, incentivando estas a juntarem-se a uma revolução mundial”.

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Os arménios queixavam-se de que Baku lhes restringia a autonomia, linguística e cultural, mas a URSS, que não tolerava nacionalismos étnicos, ignorou os protestos contra o statu quo – até 1988. Neste ano, tirando partido das políticas de glasnost (transparência) e perestroika (reestruturação) do novo líder comunista em Moscovo, Mikhail Gorbatchov, os karabakhis começaram a exigir plena reunificação com a Arménia.
Em Fevereiro de 1988, intensificaram-se ataques contra arménios no Azerbaijão, uma comunidade de 350 mil pessoas. Em Sumgait, viveram-se “três dias de terror” que, segundo De Waal, marcaram “a primeira cisão violenta na identidade soviética”. Gorbatchov hesitou até aceitar o envio de um contingente militar e declarar o recolher obrigatório. Alarmados, 14 mil arménios fugiram da cidade e milhares de outros abandonaram a república.
Em setembro de 1988, com a tensão ao rubro no Nagorno-Karabakh, todos os arménios foram expulsos de Shisha/Shusha e todos os azerbaijanos foram expulsos de Stepanakert/ Khankendi. No final do ano, ataques contra aldeias azerbaijanas na Arménia – casas queimadas e residentes espancados, assassinados ou obrigados a fugir a pé – causaram um êxodo de 200 mil muçulmanos, azerbaijanos e curdos, que se prolongou até 1989.

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Em Janeiro de 1990, Baku era um campo de morte, com azerbaijanos a perseguir e a assassinar arménios, obrigando o exército soviético a, pela primeira vez, tomar pela força uma das suas cidades. “Foi uma tragédia para o Azerbaijão e a URSS”, salientou De Waal. Depois de todos estes pogroms, com mais de 40 mil mortos, o Azerbaijão e a Arménia completaram a limpeza étnica das suas respectivas populações – mais de um milhão de pessoas.
Em Outubro de 1991, o Azerbaijão declarou-se independente da URSS e, em Dezembro, o Nagorno-Karabakh declarou-se independente do Azerbaijão, autoproclamando-se “República de Artsakh”.
Em 1994, os arménios forçaram a retirada das forças de Baku de “Artsakh” e expandiram os seus domínios. Em 12 de Maio, foi assinado o Protocolo de Bishkek, um cessar-fogo negociado pela Rússia deixou as tropas beligerantes separadas por uma “linha de contacto”, uma das fronteiras mais militarizadas do mundo. Nunca foi assinado um acordo de paz.

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Artsakh, que deu dois primeiros-ministros a Ierevan, tornou-se um Estado de facto, apoiado pela próspera diáspora arménia, mas apenas legitimado pelas repúblicas separatistas da Abkházia e da Ossétia do Sul (Geórgia) e da Transnístria (Moldova) – nenhuma delas reconhecida pela ONU.
Em Setembro-Novembro de 2020, depois de 44 dias de “uma guerra de escolha, não de necessidade”, a vitória foi do Azerbaijão, poderoso graças aos sofisticados arsenais comprados a Israel e à Turquia, mas também às suas riquezas de petróleo e gás natural.
A reconquista do Karabakh, em Setembro de 2023, foi um triunfo ainda maior. Mas até onde pretende ir Ilham Aliyev, o presidente cuja “ideologia unificadora”, como diz De Waal, tem sido “o ódio ao inimigo arménio”?
A próxima luta de Aliyev poderá ser “exigir o regresso dos azerbaijanos à província de Syunik/Zangezur e a outras regiões da Arménia, ou então agitar os direitos da minoria azeri do Irão”, aliado de Ierevan, admitiu Shujaat Ahmadzada, investigador no Topchubashov Center, em Baku, citado pela Rádio Europa Livre. No entanto, acrescentou, nenhuma dessas campanhas “conseguirá mobilizar o apoio político que havia em relação ao Karabakh”.
“Aliyev tem provocado a guerra para sua própria estabilidade doméstica, porque é um ditador que precisa de um inimigo externo”, comentou, por seu turno, a escritora e jornalista arménia Maria Titizian, em entrevista ao site The Intercept.

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“É óbvio que há também considerações geopolíticas. Ancara quer criar o que designa por ‘Corredor de Zangezur’, no Sul da Arménia, para ligar o Azerbaijão ao exclave de Nakhichevan, fronteiriço com a Arménia e com a Turquia. Eles querem realizar os seus sonhos pan-turcomanos e o único obstáculo no caminho é a Arménia cristã. É um facto.”
“O que temos é a Turquia, a querer reforçar as suas ligações à Ásia Central; o Azerbaijão, a querer ligar-se à Turquia e mais além; e a Arménia, que está numa posição vulnerável, pressionada a fazer concessões”, observou Titizian, directora do projecto EVN Report.
“Esperávamos que a Rússia, nosso parceiro estratégico impedisse a limpeza étnica do Nagorno-Karabakh. Foi um despertar terrível, percebermos que estamos sozinhos no mundo. Temos de diversificar as nossas relações externas, Não podemos continuar dependentes de uma hegemonia.”
O que levou Moscovo a abandonar a Arménia, que sempre tratou, na percepção do Ocidente, como um “Estado satélite”, onde tem uma base militar, onde agentes do FSB (antigo KGB) guardam a fronteira com a Turquia e que forçou os arménios, quando eles se aproximavam da Europa em 2013, a integrarem a Organização do Tratado da Segurança Colectiva (OTSC), que inclui a Rússia, o Cazaquistão e a Bielorússia?

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Uma das razões é Nikol Pashinyan, o primeiro-ministro que, em 2018, chegou ao poder graças a uma “revolução de veludo” e ajudou a Arménia a tornar-se “o pais mais democrático da Eurásia”, afirmou Titizian.
“É óbvio que o Kremlin quer desestabilizar a Arménia, para colocar um fantoche no lugar de Pashinyan ou para que a Arménia faça parte da união que Vladimir Putin formou com a Bielorússia. Nós valorizamos os direitos humanos, a liberdade de expressão e de reunião. Somos uma sociedade civil vibrante, ao contrário do Azerbaijão, que a família Aliyev governa há mais de 25 anos – Ilham sucedeu ao pai, Haidar; a mulher, Mehriban, é a vice-presidente.”
Outra razão prende-se com a Ucrânia. “Dois dias depois da invasão [em Fevereiro de 2022], Ilham Aliyev estava em Moscovo a assinar um acordo histórico com a Rússia e, desde então, os laços bilaterais fortalecerem-se. Putin sabia que poderia enfrentar sanções internacionais e precisava dos pipelines do Azerbaijão para fazer chegar petróleo e gás à Europa”, disse Titizian.
“O que tem acontecido desde 2020 mostra claramente que a Arménia deixou de ser um aliado estratégico de Moscovo, porque Baku se tornou mais importante em termos geopolíticos. Uma vitória, uma derrota ou um empate de Putin na Ucrânia terá sempre impacto na nossa região. Se a Arménia cair como democracia, a Geórgia também cairá. Isso significará que todo o continente eurasiático ficará sob controlo de ditadores às portas da Europa.”
*Black Garden: Armenia and Azerbaijan Through Peace and War é um dos raros livros que explica um século de conflito no Nagorno-Karabakh. O seu autor, Thomas de Waal, estudioso da Rússia e do Cáucaso, é investigador no think-tank Carnegie Endowment for International Peace em Washington.
Este artigo foi publicado originalmente na edição de Dezembro de 2023 da revista Além-Mar | This article was originally published in the December 2023 edition of the Portuguese news magazine ALÉM-MAR.
