Francisco no “coração da Ásia”

Na primeira viagem de um chefe da Igreja de Roma à Mongólia, nação herdeira do maior império terrestre do mundo, o papa não foi apenas cuidar de uma das suas mais pequenas comunidades. Das declarações que proferiu parece ressaltar também a vontade de proteger os milhões de católicos na China.

O Papa Francisco na cerimónias de boas-vindas, em 2 de Setembro, no Palácio do Estado, na Praça de Sukhbaatar, em Ulan Bator.
©Remo Casilli | Associated Press (AP)

No dia 1 de Setembro, quando saiu de Roma, “Cidade Eterna”, para a primeira visita de um papa a Ulan Bator, capital do “Eterno Céu Azul”, muitos se interrogaram por que é que Francisco, de 86 anos, precisando de uma cadeira de rodas e de assistentes permanentes, decidiu voar um total de 19 horas, ida e volta, para uma estada de três dias na Mongólia, a uns 8000 quilómetros de distância.

Uns realçaram a dimensão estratégica da 43ª viagem apostólica a um país encravado entre duas grandes potências, a China e a Rússia. Outros desvalorizaram o carácter geopolítico e destacaram a resolução do pontífice em dar mais visibilidade às “periferias” – e sobretudo à minúscula comunidade católica da Mongólia. Talvez fosse uma dupla preocupação.

Numa nação de 3,4 milhões de habitantes, onde o último censo, de 2020, revela que 40,6% da população não tem religião, e que, entre os 59,4% de crentes, 87% são budistas, 5% muçulmanos, 4% xamanistas e 2% cristãos, a comunidade católica mongol representa apenas 0,04%.

O Papa Francisco e o presidente mongol, Ukhnaagiin Khürelsükh, na assinatura do livro de honra quando se encontraram em 2 de Setembro, no Palácio do Estado em Ulan Bator .
© Remo Casilli | Associated Press (AP)

Podemos fixar-nos no quão minúscula é ou no quanto cresceu desde que o Vaticano e a República da Mongólia, nascida das ruínas da União Soviética, de que foi um Estado satélite, estabeleceram laços diplomáticos em 4 de Abril de 1992.

Neste ano, quando chegaram os primeiros missionários da Congregação do Imaculado Coração de Maria (ou de Scheut, nome da periferia de Bruxelas onde foi fundada pelo belga Teophilus Verbist), não havia um único católico mongol no berço de Genghis Khan, o criador do maior império terrestre contíguo do mundo.

Em 1995, só havia – ou já havia – 14 baptizados. Agora são 1394, segundo o Anuário Pontifício do Vaticano, “distribuídos por 8 paróquias, servidas por 25 sacerdotes – dois deles mongóis –, 6 seminaristas maiores [um número que alguns consideram “impressionante”, tendo em conta a dimensão da comunidade], 33 religiosas, 5 missionários leigos e 35 catequistas – num total de 30 nacionalidades”.

A Guarda de Honra da Mongólia prepara-se para receber o Papa Francisco no aeroporto internacional de Gengis Khan em Ulan Bator, no dia 1 de Setembro.
© Ng Han Guan | Associated Press (AP

Em 2 de Setembro, quando se deslocou à Catedral de São Pedro e São Paulo, construída na forma de ger, a tenda circular característica dos nómadas das estepes mongóis, onde se encontrou com bispos, padres, freiras e outros agentes pastorais, o Papa Francisco pediu aos fiéis que não se preocupem com o tamanho da sua igreja. 

“Deus ama o que é pequeno e gosta de realizar grandes coisas mediante a pequenez, como testemunha Maria. Irmãos e irmãs não tenham medo dos números exíguos, dos sucessos que tardam, da relevância que não se avista.”

Maria ocupou um lugar central neste seu discurso, dado que na catedral se encontra um dos principais símbolos da comunidade católica do país: uma escultura em madeira da Imaculada Conceição que uma mulher pobre terá resgatado de um aterro sanitário, quando remexia o lixo, perto de Darkhan, há cerca de 10 anos. O rosto daquela “linda senhora”, embrulhada num pano, tocou a budista Tsetsegee que a levou para casa e depois a ofereceu às missionárias da Madre Teresa de Calcutá.

O Papa Francisco e o presidente da Mongólia, Ukhnaagiin Khürelsükh, de frente para a estátua de Gengis Khan na Praça de Sükhbaatar, em Ulan Bator, no dia 2 de Setembro.
© Lola Gomez | CNS | National Catholic Reporter

O Papa fez questão de se encontrar com a velhinha Tsetsegee e aproveitou o momento para encorajar a sua audiência: “Neste caminho de discípulos-missionários, tendes um apoio seguro: a nossa Mãe celeste, que quis dar-vos um sinal palpável da sua presença discreta e solícita ao deixar que encontrassem a sua imagem numa lixeira.”

“Naquele lugar de detritos, apareceu esta bela estátua da Imaculada: Ela, sem mácula, imune do pecado, quis chegar tão perto, a ponto de ser confundida com os desperdícios da sociedade, para que, da imundície, emergisse a pureza da Santa Mãe de Deus.”

Foi também na catedral onde se venera Maria que Francisco fez, segundo vários analistas, uma das declarações mais importantes da sua viagem, muito provavelmente dirigida a Xi Jinping, que autorizou o seu avião a sobrevoar os céus chineses, mas impediu os bispos da China Continental de participarem nas celebrações religiosas na Mongólia.

“Jesus não deu um mandato político aos seus apóstolos, só lhes disse que aliviassem o sofrimento de uma humanidade ferida através da fé, por isso, governos e instituições seculares não devem ter medo do trabalho de evangelização da Igreja, porque ela não tem uma agenda política.” 

2 de Setembro: Encontro num ger, em Ulan Bator, entre o Papa Francisco e Tsetsegee (ela só usa este nome), uma senhora mongol que encontrou numa lixeira uma imagem da Virgem Maria hoje venerada da Catedral de São Pedro e São Paulo na capital mongol.
© Vatican Media | Agenzia Info Salesiana

A primeira missão sui iuris em Ulan Bator foi dirigida pelo bispo filipino Wenceslao Padilla, da mesma congregação de Verbist (que entrou na Mongólia em 1863, para depois ser perseguida e desaparecer), nomeado prefeito apostólico por João Paulo II em 2002.

A Padilla, que morreu de ataque cardíaco, em 2018, depois de uma obra notável, sucedeu, em 2020, o italiano Giorgio Marengo, que é, aos 49 anos e, desde 2022, o mais jovem membro do Colégio Cardinalício.

Tendo acompanhado todas as etapas da viagem histórica do papa que o nomeou, o cardeal Marengo resumiu assim, ao site Vatican News, o quão importante foi a presença de Francisco em Ulan Bator: “Os seus discursos deixaram os Mongóis orgulhosos de serem quem são, porque ele deu muito espaço à beleza, à riqueza do povo, às suas tradições, à sua história.”

“Um líder religioso de renome mundial veio até aqui, apesar da saúde debilitada, trazer uma mensagem de fraternidade, cooperação e harmonia, e isso certamente abriu uma brecha no coração das pessoas, que agora têm um conhecimento mais profundo e menos superficial do que ele representa.”

Fiéis da Mongólia e de outros países rezam durante uma missa celebrada pelo Papa Francisco na Arena da Estepe, em Ulan Bator, em 3 de Setembro.
© Lola Gomez | CNS | Detroit Catholic

Logo no primeiro dia, acenando aos pequeno grupos de católicos concentrados junto da gigantesca estátua de Genghis Khan, Francisco enalteceu “a sabedoria” do povo mongol e elogiou a Mongólia, não apenas por consagrar a tolerância religiosa na sua Constituição, mas por ser uma nação sem pena de morte, livre de armas nucleares, neutral e com uma política externa pacífica – ansiosa por desempenhar um papel de maior relevo na cena internacional.

Avisou, porém, contra “os perigos da corrupção” (houve um grande escândalo de desvio de fundos há uns anos) e apelou a que se respeite o ambiente (Ulan Bator é uma das capitais mais poluídas do mundo, devido à queima de carvão), para evitar que o país, em risco de desertificação e onde companhias estrangeiras extraem, desenfreadamente, os seus recursos naturais, seja vítima das alterações climáticas.

As ruas da capital mongol não se encheram para saudar Jorge Mario Bergoglio, como aconteceu em Lisboa, onde ele atraiu um milhão e meio de peregrinos durante a recente Jornada Mundial da Juventude. Mas, as autoridades acolheram-no com toda a pompa e, por onde ele passava, o ambiente era festivo, até porque centenas de católicos vieram de outros países asiáticos, como a Coreia do Sul, as Filipinas, o Cazaquistão, o Quirguistão o Vietname e até a China – de onde alguns saíram clandestinamente, desafiando o regime, para estarem “mais perto do papa que só vêem ao longe”.

À chegada ao aeroporto internacional de Gengis Khan, em 1 de Setembro, o Papa Francisco foi recebido com uma tigela de aaruul, coalhada seca que é um alimento tradicional dos povos nómadas da Mongólia.
©Vatican Media | National Catholic Register

Se não houve multidões a seguir Francisco, houve quem seguisse atentamente as suas palavras e sinais. Logo no primeiro, no habitual telegrama de saudação, quando o avião que o transportava sobrevoava a China, ele fez saber a Xi Jinping que orava “pelo bem-estar da nação”.

Em 3 de setembro, no final da Missa que celebrou no Palácio do Gelo de Ulan Bator, de mãos dadas com o cardeal emérito de Hong Kong, John Tong Hon, e o actual bispo, Stephen Chow Sal-yan, Francisco enviou “uma saudação calorosa ao nobre povo chinês”, acrescentando: “Desejo o melhor a todo o povo, que progrida e avance sempre. Peço aos católicos chineses que sejam bons cristãos e bons cidadãos”.

Foi tépida a reação da China, que tem “entre 6 milhões e 12 milhões de católicos”, mas que não tem relações diplomáticas com a Santa Sé e recentemente violou um acordo celebrado em 2018, ao nomear unilateralmente, sem bênção prévia do papa, Joseph Shen Bin para bispo de Xangai – a mais importante diocese do país.

2 de Setembro: Encontro do Papa Francisco com bispos, padres, diáconos, religiosos, seminaristas e agentes pastorais na catedral de São Pedro e São Paulo em Ulan Bator. A arquitetura deste templo evoca um ger, a tenda tradicional mongol.
© Lola Gomez | CNS | Northwest Catholic

Não querendo agudizar a situação e “regularizar a anomalia canónica”, o Vaticano validou a decisão de Pequim, apesar de Shen, que não esconde a proximidade a um regime empenhado na “sinização” de todas as religiões, ter prometido adoptar “uma forma patriótica” de Catolicismo.

Francisco também reservou tempo para um importante encontro ecuménico, que juntou a maioria de budistas e xamanistas, e as minorias de muçulmanos e judeus, cristãos protestantes e ortodoxos, e até bahá’ís, no Teatro Hun [nome da primeira tribo de Gengis Khan], a 13km de Ulan Bator. A grandeza de uma religião, sublinhou o visitante, mede-se por uma “preocupação sincera” com os outros.

“O altruísmo constrói a harmonia e, onde há harmonia [um conceito importante no discurso de Xi Jinping para dentro e fora da China], há compreensão, prosperidade e beleza”. Antes alertara: “Que não haja nenhuma confusão entre credo e violência, entre sacralidade e imposição, entre percurso religioso e sectarismo. (…) As tradições religiosas, apesar de serem distintas e diversas, têm um enorme potencial de beneficiar a sociedade como um todo.”

Na sua visita à Mongólia, Francisco reservou tempo para um encontro ecuménico, que juntou a maioria de budistas e xamanistas, e as minorias de muçulmanos e judeus, cristãos protestantes e ortodoxos, e até bahá’ís, no Teatro Hun (nome da primeira tribo de Gengis Khan), a 13km de Ulan Bator.
© Vatican Media | Agenzia Info Salesiana

No seu último dia na “Terra do na Silêncio” e “Coração da Ásia” o papa inaugurou uma das mais importantes instituições de solidariedade da Igreja mongol: a Casa da Misericórdia, para acolhimento temporário de crianças e adultos, pobres sem comida e sem tecto, portadores de deficiência, migrantes, toxicodependentes, vítimas de violência doméstica, ou até mesmo os que perderam documentos de identificação e precisam de ajuda para aceder a serviços públicos.

Não é um abrigo, mas uma “casa de família” para acomodar uma “humanidade ferida”, congratulou-se o director, o padre vietnamita Andre Tran Le Phuong. O edifício de 3 pisos tem uma clínica, quartos, cozinha, balneários e uma lavandaria.

“No binómio ‘casa’ e ‘misericórdia’, temos a definição da Igreja”, declarou o papa, aproveitando a oportunidade para desfazer alguns mitos, como o de que a Igreja Católica faz caridade por proselitismo.

“Como se cuidar do outro fosse uma forma de converter, visando atrair para o nosso lado. Não é isso!”, enfatizou. Os cristãos identificam quem necessita e fazem todo o possível por aliviar as suas provações, porque nele/a vêm Jesus, o Filho de Deus, e Nele a dignidade de cada pessoa.”

Jesus vs Gengis Khan

© Vatican Media | Agenzia Info Salesiana

O canadiano Peter Turrone, padre da arquidiocese de Toronto, guarda boas memórias dos três anos em que, como missionário da Consolata, viveu na Mongólia, um “lugar místico” de estepes e montanhas, dos menos povoados do mundo, onde 3,5 milhões de pessoas, ¼ das quais nómadas, coexistem com 52 milhões de animais.

Em 2007, durante um retiro espiritual, Peter Turrone teve um sonho em que “a Virgem Maria apareceu dizendo, se receberes uma grande graça, não te surpreendas se ela vier coberta de areia”. Por isso, diz-me, em entrevista telefónica, ele achou que se cumpriu uma profecia quando, em 15 de Agosto de 2010, Festa da Assunção, chegou ao vasto deserto de Gobi, para servir a pequena igreja Mãe da Misericórdia em Arvaikheer, no Centro da Mongólia, distante de Ulan Bator, a capital, cerca de 7 horas – em estradas “onde só se vêm cavalos e ovelhas”.

“É um país tão diferente do Ocidente, mesmo para alguém como eu, que ia do Canadá, onde as temperaturas também são gélidas no Inverno [mas não comparáveis aos mais de 40ºC negativos na Mongólia]”, exclama Turrone, que, em 2013, regressou a casa porque adoeceu gravemente. “Foi uma grande provação física, mas não posso deixar de considerar que a minha experiência foi uma bênção.”

© Colm Flynn | EWTN News | National Catholic Register

O jovem que interrompera a formação em Teologia em Roma, tentou seguir os ensinamentos do seu mentor: “Deus enviou-te aqui para evangelizares, mas também para seres evangelizado”. Estar no deserto, adianta, “é viver uma vida semi-monástica, junto de pessoas pobres em bens materiais, mas com uma grande riqueza espiritual. Nós vivíamos como elas, no meio delas. O isolamento era um tremendo desafio. No entanto, as crianças estavam sempre a sorrir.”

Turrone e o seu grupo de sacerdotes e religiosas, liderado pelo bispo Giorgio Marengo – hoje o mais jovem cardeal da Igreja Católica -, rezavam numa tenda (ger), embora vivessem num “casa pequena, com o básico, quartos, uma cozinha e balneários, mais tarde ampliada para realizar reuniões e dar catequese”.

“As pessoas aproximavam-se de nós com curiosidade, mas também com desconfiança”, conta Turrone. “Ouviam falar da presença dos gadaad khün (forasteiros) e batiam à nossa porta, que estava aberta a todos. Os miúdos apareciam para brincar; os adultos para conversar. Muitos do que nos procuravam eram budistas, mas assistiam à Missa e à Adoração do Santíssimo, pedindo bênçãos. Foi a curiosidade de alguns que os levou a ser católicos.”

© Vatican Media | Reuters

Para poder comunicar com quem o procurava, Turrone e todos os missionários tiveram de aprender a falar mongol. “Durante três anos, estudei três horas por dia, cinco vezes por semana”, revela, mas ninguém, assegura, se exprime tão bem como o seu amigo Giorgio Marengo.

“Quando alguém o ouvia falar ao telefone e depois o conhecia pessoalmente, não acreditava que ele fosse italiano.” A elevação de Marengo pelo Papa Francisco, primeiro a arcebispo, prefeito apostólico de Ulan Bator, e depois como membro do Colégio Cardinalício, foi “uma alegria”. Porque ele “é mesmo muito inteligente, tem uma teologia sólida e conhece bem a cultura mongol”.

Turrone também ficou feliz com a primeira visita papal à Mongólia. Não o surpreendeu, “porque São João Paulo II já tinha esses planos e teve de os abandonar por motivos de saúde”. Gostou, em particular da Missa celebrada por Francisco, durante a qual “estendeu a mão da Igreja ao mundo inteiro”, demonstrando que “Jesus não tira nada, excepto os [nossos] pecados”.

Reconhece, porém, que o Catolicismo ainda é visto como “religião estrangeira” num país onde os missionários têm de renovar os seus vistos a cada três meses e a Igreja tem estatuto de organização não governamental.

© Reuter | South China Morning Post

Turrone admite, também, como escreveu a revista Christianity Today, que muitos mongóis têm dificuldade em aceitar o baptismo dos seus filhos, porque “não é fácil separar o cultural do religioso nas tradições mongóis, que a fé muitas vezes é superficial, para os que vêm Jesus apenas como mais um deus que oferece protecção e, se Ele não atender as preces podem sempre recorrer a um lama (monge) budista ou a um xamã”.

Sim, concorda Turrone, “perante a imagem de Jesus crucificado, despido e com o corpo em chagas, e a colossal estátua de Gengis Khan no centro de Ulan Bator, como é que podemos perguntar, quem quereis vós seguir? Mas, a pouco e pouco, as pessoas entendem que Jesus ressuscitou e o seu reino não é deste mundo”.

O sacerdote canadiano conta então a história de uma mulher budista que, ao entrar numa capela, durante a Quaresma, confidenciou ao olhar para a cruz: Como eu O compreendo. “Ela viu no sofrimento de Cristo o seu próprio sofrimento.”

© Carlos Garcia Rawlins | Reuters

O antropólogo Jack Weatherford, autor de Gengis Khan e a Criação do Mundo Moderno, lembra que, no século XIII, os Mongóis viam a cruz como “símbolo das quatro direcções do mundo” e que Jesus “sempre os fascinou porque ajudou a curar os enfermos e a triunfar sobre a morte”.

“Ele era considerado um importante xamã”, segundo Weatherford. “O povo pastoral das estepes sentia-se próximo das tradições e costumes das antigas tribos hebraicas da Bíblia. Parte da atracção pela Cristandade também estava no nome de Jesus. Porque Yesu soa como a palavra mongol para ‘nove’, o seu número sagrado, e como Yesugei, o nome do pai de Genghis Khan.”

Embora os cristãos sejam hoje uma minoria, em grande medida devido a muitos anos de perseguições – o Catolicismo foi expulso na década de 1300 e reapareceu em 1922, para ser sufocado na era soviética, até se levantar em 1992, após o colapso da URSS -, a verdade é que o Império Mongol fundado por Gengis Khan sempre fez gala em proteger as suas várias religiões.

© Ng Han Guan | Associated Press (AP)

No entanto, ao contrário do que se pensa, esta condescendência “não era uma característica única” dos descendentes da tribo Hun, explica-me, em entrevista por e-mail, Huaiyu Chen, professor de Estudos Religiosos na Universidade do Arizona (EUA).

“Outros impérios, como o Persa e o Chinês, na Idade Média, eram igualmente tolerantes. Por 3 razões. Porque governavam vastos domínios e tinham de acomodar crenças diversas; porque a religião deles [os primeiros mongóis eram xamanistas, adoradores de espíritos] era uma fraca ideologia de Estado que não dominava a sociedade; porque não seguiam o monoteísmo e, por isso, não eram sensíveis a uma multiplicidade de deuses. Não os preocupava que outros grupos adorassem as suas divindades e santos”.

No caso dos Mongóis, observa Huaiyu Chen, a tolerância religiosa era também uma estratégia. “Ao conquistarem tantos países, tinham de respeitar a fé de todos, para os poderem pacificar. Gengis Khan precisava de avançar para a Ásia Central e a Ásia Ocidental sem se preocupar com rebeliões no coração do seu império.”

© South China Morning Post

Sobre a razão por que a Igreja Assíria do Oriente (cristãos nestorianos), tão influente nas cortes dos Cãs, foi suplantada pelo Budismo e pelo Islão quando os herdeiros de Gengis Khan dividiram os seus domínios, Chen justifica: “Os budistas tinham os seus redutos nas fronteiras do Império Mongol, como a China e o Tibete, tal como o Islão, que chegou à Ásia Central graças à expansão do Império Árabe”.

O Catolicismo, pelo contrário, “dependia de missionários que vinham da Europa, precisando de viajar longas distâncias, pelo vasto continente euro-asiático, para chegar à Mongólia”.

Pode a nação de Gengis Khan, onde hoje predomina o budismo tibetano, servir de ponte entre a Santa Sé e a China, o país com a mais importante (mas diferente, até rival) comunidade budista do mundo? “Não creio”, comenta Huaiyu Chen. “Dificilmente a Mongólia conseguirá influenciar a política da China, um Estado com os maiores grupos religiosos do mundo, em termos populacionais – budistas, católicos, protestantes, muçulmanos…”

© Lola Gomez | CNS

Estes dois artigos foram publicados originalmente na edição de Outubro de 2023 da revista ALÉM-MAR | These two articles were originally published in the October 2023 edition of the Portuguese news magazine ALÉM-MAR.

Leave a comment

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.