Refugiados que moldaram o mundo

O nigeriano Philip Emeagwali escapou da Guerra no Biafra e, nos EUA, tornou-se “o pai da Internet”. A cambojana Loung Ung sobreviveu aos “campos de sangue” do regime de Pol Pot e a sua vida deu um filme que está a ser produzido e será dirigido por Angelina Jolie. Eles e tantos outros são e foram fontes de inspiração. Como milhões de sírios, eritreus, afegãos, somalis, afegãos e demais povos agora em fuga, também eles procuravam, de início, apenas “a salvação”.  (Ler mais | Read more…)

© UNHCR

© UNHCR

O que diriam Robert Capa e Béla Bartók se hoje vissem compatriotas a agredir e humilhar milhares de refugiados que entraram na Hungria em busca de vida digna longe da morte? Como olhariam para os muros de arame farpado que aprisionam homens, mulheres e crianças, vigiados por agentes com cães-polícia e soldados autorizados a “disparar balas de borracha” contra os que se rebelarem?

Imaginamos Capa, que fundou a agência Magnum com Henri Cartier-Bresson em 1947, e fotografou cinco guerras (a de Espanha, a II Sino-Japonesa, a II Mundial, a I Israelo-Árabe e a I da Indochina) a captar imagens de dor dos civis em fuga da Síria e de outras zonas de conflito, despertando consciências.

Quanto a Bartók (1881-1945), cuja terra natal, na Transilvânia, está agora integrada na Roménia, talvez tivesse composto uma elegia de tributo aos que procuram santuários na União Europeia.

ROBERT CAPA
© Magnum Photos

© Magnum Photos

Aos 17-18 anos, o rapaz nascido em Budapeste, em 1923, e registado Endre Friedmann, incapaz de suportar o regime antissemita do almirante Miklós Horthy, procurou asilo primeiro em Viena, depois em Praga até assentar em Berlim. Sonhava ser escritor.

Apaixonou-se pelo fotojornalismo. Como profissional, o seu primeiro retrato foi o de Leon Trotski, numa conferência na Dinamarca, em 1932.

Um ano depois, quando Hitler subiu ao poder na Alemanha, voltou a fugir, desta vez para França. Familiares e amigos que ficaram na Hungria foram mortos pelos nazis em campos de concentração.

O apelido Friedmann não lhe abria as portas como freelance. Lembrou-se então do seu diminutivo na escola, “Cápa” (Tubarão) e, incentivado pela então namorada, Greta Phorylee, também ela fotojornalista, judia e refugiada, decidiram ambos mudar de nome.

Ela passou a chamar-se Greta Taro e, juntos, fizeram vários projectos. Ele inspirou-se no cineasta Frank Capra (1897-1991), um exilado italiano em Nova Iorque, identificando-se doravante como “o grande fotógrafo americano Robert Capa.”

A fama chegara aos 25 anos. Ninguém ficou indiferente às suas imagens das tropas de Franco a entrar em Madrid, em 1936, nem às do “despejo de espanhóis em campos de refugiados”, em 1939.

Admirado como um democrata antifascista, Robert Capa morreu em 1954. Pisou uma mina terrestre quando reportava a guerra francesa na Indochina. O seu lema era: “Se as vossas fotografias não são boas é porque vocês não se aproximam o suficiente.”

BÉLA BARTÓK
© Direitos Reservados | All Rights Reserved

© Direitos Reservados | All Rights Reserved

Não sendo judeu, Béla Bartók estava “disposto a converter-se à religião dos perseguidos” pelos nazis. “A ideia que domina todo o meu ser é a irmandade de todos os homens e mulheres, acima de qualquer conflito”, dizia. “É, por isso, que estou receptivo a ser influenciado por quaisquer pessoas, jovens e saudáveis, que venham do exterior, sejam elas eslovacas, romenas, árabes ou outras.”

O biógrafo Malcom Gillies assegura que Bartók, aos quatro anos, “já tocava 40 peças para piano”. Aos 11 anos, deu o primeiro recital. Em 1903, escreveu a primeira sinfonia para orquestra, em homenagem a Lajos Kossuth, herói da Revolução Húngara de 1848.

Em 1911, criou a sua única ópera, O Castelo do Duque Barba Azul. Embora as primeiras composições revelassem influências de Liszt, Brahms ou Strauss, o húngaro foi, gradualmente, recolhendo e introduzindo na sua música técnicas do folclore da Europa de Leste. Criou “um estilo original” que fez dele um dos maiores compositores do século XX.

Em 1940, quando a guerra assolava a Europa, Béla Bartók mudou-se para os EUA, onde se exilou. Nunca se sentiu em casa. Era valorizado como pianista, etnomusicólogo e professor, mas não tanto como compositor. Foi-lhe atribuída nacionalidade americana.

Morreria de leucemia, cinco anos depois, em Nova Iorque, deixando inacabado um Concerto para Viola. Ao funeral assistiram apenas dez pessoas. Em 1988, os seus restos mortais foram transladados para um cemitério em Budapeste, com honras de Estado.

LOUNG UNG
© interviewmagazine.com

© interviewmagazine.com

A cambojana Loung Ung tinha apenas 5 anos quando os Khmer Vermelho assumiram, em 1975, o controlo da sua cidade e capital do país: Phnom Penh. Até 1979, o regime de Pol Pot matou quase 2 milhões de pessoas – fuziladas, à fome, por doença e em trabalhos forçados –um dos genocídios mais sangrentos do século XX.

Loung, a sexta de sete filhos do casal Seng In Ung e Ay Choung Ung, perdeu os pais, duas irmãs e outros 20 familiares, executados pelos milicianos do Partido Comunista do Kampuchea.

Aos 10 anos, conseguiu fugir dos Killing Fields (“Campos de Sangue”) numa embarcação com destino à Tailândia. Aqui passou cinco meses num campo de refugiados até ser levada para Vermont, no Nordeste dos EUA, com a ajuda da Conferência de Bispos Católicos da América.

Reside agora, com o marido, em Cleveland, no Ohio. Já voltou 30 vezes à pátria entretanto pacificada e a julgar os criminosos de guerra. Decidiu contar as suas experiências de vida em dois livros. O primeiro, First They Killed My Father: A Daughter in Cambodia Remembers (“Primeiro mataram o meu pai: Recordações de uma filha no Camboja”), está a ser adaptado, para ser distribuído como vídeo pela rede de streaming Netflix e exibido em festivais de cinema, por Angelina Jolie-Pitt.

A actriz adoptou, em 2002, um órfão cambojano de 7 meses a quem deu o nome de Maddox. O rapaz, que tem agora 14 anos, será um dos protagonistas. O Camboja ofereceu cidadania a Jolie-Pitt, por decreto real, reconhecendo os esforços da fundação que ela criou, em seu nome e do seu filho, para combater a pobreza e fomentar o desenvolvimento.

PHILIP EMEAGWALI
© Direitos Reservados | All Rights Reserved

© Direitos Reservados | All Rights Reserved

Um dos nove filhos de uma família pobre da Nigéria, Philip Emeagwali, nascido em 1954, tinha a alcunha de Calculus na escola (e em casa), porque resolvia rapidamente qualquer teste de Matemática.

Em 1966, eclodiu a Guerra do Biafra – tentativa de separação das províncias do Sudeste, com recursos petrolíferos e habitadas pelos Ibos (a tribo de Emeagwali), que queriam proclamar um Estado fora do controlo dos Yorubas, no poder.

As autoridades nigerianas restringiram a distribuição de alimentos. Morreram à fome quase um milhão de civis em campos de refugiados.

Um dos que habitou esses campos, entre 1967 e 1970, foi Emeagwali. Sobreviveu e, quatro anos depois, partiu para a América com uma bolsa de estudos de apenas 140 dólares. Conseguiu licenciar-se em Matemática, Engenharia e Ciências de Computação.

Em 1989, ganhou o prestigiado Gordon Bell Prize (na foto), por ter resolvido um problema classificado pelos EUA como um dos mais difíceis na área da informática. “Ao usar 65.000 processadores, obteve 3100 milhões de cálculos por segundo”. A sua invenção ajudou a programar e a construir os computadores mais potentes do mundo.

Não admira que este “supercérebro” seja admirado como “pai da Internet” ou “Bill Gates da América”. O seu novo projecto chama-se Africa ONE. O objectivo é dotar todo o continente africano com uma rede de fibra óptica, ao longo de 30.000 quilómetros quadrados, para que as chamadas telefónicas entre países africanos não tenham de passar pela Europa.

OUTROS EXILADOS

© Direitos Reservados | All Rights Reserved

© Direitos Reservados | All Rights Reserved

ALBERT EINSTEIN

Alemão, judeu, autor da Teoria da Relatividade, que invalidou a lei da gravidade, de Isaac Newton, Albert Einstein viu os seus livros queimados por ordem de Hitler. Estava na América, onde morreu exilado, quando os nazis o condenaram por traição.

Foi artífice do Projecto Manhattan, que permitia o uso da fissão nuclear como arma, mas, na hora da morte, entregou ao filósofo Bertrand Russell um manifesto contra as bombas atómicas.

© Direitos Reservados | All Rights Reserved

© Direitos Reservados | All Rights Reserved

FRÉDÉRIC CHOPIN

Nascido na Polónia, a sua música estava impregnada de patriotismo. Frédéric Chopin conspirou contra o Império Russo que dominava o país natal. Morreu exilado em Paris, em 1849. Nunca se sentiu “totalmente francês”, ainda que tivesse cidadania.

© Direitos Reservados | All Rights Reserved

© Direitos Reservados | All Rights Reserved

VICTOR HUGO

Durante quase duas décadas, o autor de Os Miseráveis, nascido em 1801, foi um dos maiores escritores que a França jamais conheceu. Banido do império de Napoleão, Victor Hugo jamais deixou de simbolizar a luta pela justiça e liberdade.

© Direitos Reservados | All Rights Reserved

© Direitos Reservados | All Rights Reserved

VLADIMIR NABOKOV

Autor de Lolita e uma das personalidades literárias mais importantes do século XX, o exílio foi a vida de Vladimir Nabokov. Nascido na Rússia, fugiu do Exército Vermelho, deambulando por Constantinopla/Istambul, Inglaterra e Alemanha. Fugiu de Berlim, em 1937, para Praga, depois para França e, finalmente, para a América, onde ganhou cidadania. Morreu em 1977.

© Direitos Reservados | All Rights Reserved

© Direitos Reservados | All Rights Reserved

MILOS FORMAN

Realizador dos premiados Voando sobre um Ninho de Cucos e Amadeus, o cineasta Milos Forman teve de fugir em 1968 da antiga Checoslováquia, quando os soviéticos esmagaram a “Primavera de Praga”. O pai, judeu envolvido na resistência aos nazis, e a mãe, cristã protestante, foram mortos em campos de concentração durante a II Guerra Mundial.

© Direitos Reservados | All Rights Reserved

© Direitos Reservados | All Rights Reserved

GAO XINGJIAN

Galardoado com o Nobel da Literatura 2000 – o primeiro chinês a quem o prémio foi atribuído –, o escritor e pintor Gao Xingjian demitiu-se do Partido Comunista após a repressão, em 1989, do movimento pró-democracia em Tiananmen. Em 1998, após a publicação de One Man’s Bible, relato autobiográfico da Revolução Cultural, de Mao, ganhou cidadania francesa. Em 2001, foi traduzida para português a obra Uma cana de pesca para o meu avô (“Buying a fishing rod for my grandfather”) e, em 2002, o livro A Montanha da Alma (“Soul Mountain”).

© Direitos Reservados | All Rights Reserved

© Direitos Reservados | All Rights Reserved

YILMAZ GUNEY

Nascido em Adana, na Turquia, em 1936, o actor, cineasta e activista político Yilmaz Guney foi preso várias vezes (condenado a uma sentença perpétua), mas nunca deixou de fazer filmes sobre o sofrimento do seu povo curdo. Perdeu a cidadania turca, e morreu no exílio, em Paris, em 1984.

Fonte:  Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR)

Este artigo, aqui na íntegra, foi publicado originalmente na edição de Outubro de 2015 da revista “Além-Mar” | This article, here the uncut version, was originally published in the Portuguese magazine “Além-Mar”, October 2015 edition

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s