Hospital da Humanidade: Um “milagre” em Calcutá

Subhashini Mistry tinha 23 anos e quatro crianças menores quando o marido morreu por não poder pagar o tratamento de uma doença banal. Nesse dia, ela jurou construir um hospital para os mais pobres. Fez de tudo, desde engraxar sapatos a pedir esmola, mas cumpriu um sonho. Ajoy, o filho que ela encorajou a ser médico, quer agora abrir um orfanato para meninos de rua e um lar que seja refúgio de idosos abandonados. (Ler mais | Read more...)

Subhishina Mistry, fundadora do Hospital da Humanidade. © Direitos Reservados | All Rights Reserved

Subhashini Mistry, fundadora do Hospital da Humanidade
© Direitos Reservados | All Rights Reserved

Subhashini Mistry, a fundadora do Humanity Hospital (Hospital da Humanidade) chega devagarinho à sala onde irá comunicar connosco por Skype. O seu corpo pequenino está envolto num longo sari de algodão branco debruado com uma faixa lilás. Ela usa-o ao estilo tradicional de Bengala Ocidental (o estado indiano cuja capital é Kolkata, antiga Calcutá), e o tecido vai deslizando pelo sedoso cabelo grisalho.

Branco é também o bindi marcado na testa, entre as sobrancelhas, sinal que, na fé hindu, significa “fonte de energia e equilíbrio”. Os olhos melancólicos fixam-nos por detrás de uns grandes óculos redondos. A voz, enérgica e altiva, apaga-lhe o sorriso.

As mãos gesticulam imparáveis. A face com diminutas rugas não combina com uma idade calculada em “quase 78 anos” – muito menos com uma vida de sofrimento que ela irá contar, tendo a seu lado o filho, o médico Ajoy Kumar.

“Nasci de uma família que dependia do cultivo e venda de produtos agrícolas”, diz-nos Subhashini Mistry, exprimindo-se em hindi que um amigo irá traduzindo para inglês, implorando com humildade que ela não fale tão sofregamente.

“Éramos pobres mas nada nos faltou até morrer o nosso pai. Começámos a enfrentar muitas dificuldades devido a uma seca que afectou a região, Kulwa [a cerca de 35 quilómetros de Kolkata]. A minha mãe teve 14 filhos – eu era a mais nova de cinco irmãs. Oito não sobreviveram.”

“Casei-me aos 13 anos”, continua. “O meu marido, Shri Chandra Mistry, era vendedor de frutas e vegetais na aldeia de Hanspukur [a 25 quilómetros de Kolkata]. Ganhava cerca de 200 rupias por mês [menos de três euros].”

“Eu trabalhava em casa, a cozinhar e a limpar, tentando que o dinheiro chegasse para tudo e todos. Um dia, em 1971, ele chegou a casa queixando-se com muitas dores na barriga. Eu, analfabeta, não sabia o que fazer. Ele tinha 35 anos e eu 23, já com quatro filhos.”

O primeiro centro clínico de onde nasceria o moderno Hospital da Humanidade – no primeiro dia foram assistidos mais de 250 doentes pobres. © Direitos Reservados | All Rights Reserved

O primeiro centro clínico de onde nasceria o moderno Hospital da Humanidade – no primeiro dia foram assistidos mais de 250 doentes pobres
© Direitos Reservados | All Rights Reserved

Shri Chandra Mistry foi conduzido pela mulher ao hospital estatal em Tollygunge, em Kolkata, o qual “deveria servir os pobres”. Para horror de Subhashini, os médicos ignoraram o paciente porque não tinha meios de pagar o tratamento. Quando, finalmente, lhe dedicaram atenção, três dias depois, “já não tinha salvação”. Morreu com uma gastroenterite – doença curável.

Naquele momento, olhando para o cadáver do marido, a viúva Subhashini jurou a si própria que iria construir um hospital, “porque ninguém merece morrer por ser pobre”. De início, “contei com a ajuda dos meus irmãos – que chegavam a ir para a cama sem comer –, de outros familiares e de vizinhos, mas este apoio era insuficiente”.

“Comecei por ser empregada doméstica em cinco casas – com um salário mensal de 100 rupias [pouco mais de um euro]; engraxei sapatos; varri ruas; trabalhei com tijolos na construção civil; apliquei cimento em telhados; às vezes, durante o período das chuvas de monção, com água até aos queixos, recolhi e lavei carvão, cascas de coco, embalagens de plástico. E, tal, como a minha mãe, também fui mendicante.”

“Em muitos dias, e às vezes uma só vez por dia, eu e os meus filhos comíamos apenas batatas esmagadas e água de arroz cozido”, afirma. “Fui obrigada a fazer de dois filhos trabalhadores infantis. Vendiam chá em bancas à beira da estrada.” Não há vergonha nestas palavras, porque ela tinha um sonho que estava determinada a cumprir, independentemente dos sacrifícios.

Nos arredores de Hanspukur, a minúscula Subhashini reparou que havia vários campos onde podia semear e colher produtos hortícolas. A venda de todo o tipo de legumes e vegetais dar-lhe-ia a oportunidade de aumentar o seu parco rendimento. “Queria dar aos meus filhos uma vida melhor e, para mim, um trabalho menos indigno”. Mudou-se então para a aldeia de Dhapa, onde alugou uma casa por cinco rupias ao mês.

Assim que o negócio começou a florescer, ela transmoveu a mercadoria para a buliçosa Kolkata, dos principais centros de comércio da Índia Oriental. Montou um quiosque no mercado de Park Circus, no centro da cidade, e os ganhos subiram para 500 rupias [quase sete euros] mensais. Na época da couve-flor –muito usada na alimentação local – o rendimento aumentava.

O Hospital em Hanspukur, aldeia a sul da antiga Calcutá, cidade que passsou a chamar Kolkata a partir de 2001, e a sua fundadora, que prometeu a si própria e ao marido, quando este morreu, que nenhum pobre ficaria sem assistência médica. © Direitos Reservados | All Rights Reserved

O médico Ajoy, filho de Subhashini, que ela colocou num orfanato para estudar de modo a que a ajudasse a realizar o seu sonho
© Direitos Reservados | All Rights Reserved

Foi por esta altura que Subhashini Mistry decidiu abrir a primeira conta-depósito numa estação de correios (só mais tarde, estabelecido um Fundo Fiduciário, confiaria nos bancos). O dinheiro que ganhava poupava-o, diariamente, da seguinte forma: dois paise [plural de paisa; dois centavos de rupia] para a renda da casa; dois para alimentar os filhos – “nada para mim” – e um para o seu sonho.

Apesar de tudo, o que ela amealhava não bastava para oferecer uma “educação honrada” à descendência. Colocou dois num orfanato – Ajoy e Nirmala, que é agora enfermeira, “inspirada pelo irmão”. Os outros dois, Sujay e Uttara, continuaram as vendas de rua.

“O meu sonho começou a tornar-se realidade quando Ajoy completou, com notas excelentes, o liceu, e entrou, graças a uma bolsa de estudos alemã, na famosa Calcutta Medical College [Faculdade de Medicina de Calcutá]”, adianta a viúva Mistry.

Ajoy, que iniciou a entrevista até à chegada da mãe, ainda a recuperar de um episódio de pressão arterial elevada, fica ligeiramente confuso quando perguntamos se ser médico também era o seu sonho ou apenas o da mãe. “Inicialmente, eu gostava mais de Química, mas não podia dar um desgosto a quem tanto me dera. O sonho dela passou a ser o sonho de ambos.”

Homem simples e sorridente, camisa colorida aos quadradinhos, Ajoy entusiasma-se ao fornecer detalhes sobre o hospital a que ele e a mãe combinaram, “porque fazia todo o sentido”, chamar “Humanidade” (Humanity).

“Eu trabalho 24 horas por dia, porque estou sempre alerta e além de médico também faço trabalho administrativo”, explica. “Não há ainda dinheiro para contratar um departamento de recursos humanos. Vivo aqui, onde há aposentos para a maioria do pessoal no quadro. Foi aqui que conheci a minha mulher, que é enfermeira. Tenho dois filhos, um rapaz e uma rapariga, que se queixam de falta de atenção mas que são apoiados por muitos dos nossos familiares.”

O hospital em Hanspukur, aldeia a sul da antiga Calcutá, e a sua fundadora, que prometeu a si própria e ao marido, quando este morreu, que nenhum pobre ficaria sem assistência médica © Direitos Reservados | All Rights Reserved

O hospital em Hanspukur, aldeia a sul da antiga Calcutá, e a sua fundadora, que prometeu a si própria e ao marido, quando este morreu, que nenhum pobre ficaria sem assistência médica
© Direitos Reservados | All Rights Reserved

Quanto à mãe, “habitualmente, passa por cá todas as manhãs, seja para animar os doentes ou cuidar das ervas e plantas à volta dos edifícios, mas antes não arredava pé” do hospital que ela descreve como a sua “riqueza, conhecimento e felicidade”.

Como é que tudo começou? Em 1993, quando Ajoy já era um médico diplomado, a senhora Mistry regressou a Hanspukur, onde comprou, ao antigo patrão do marido, um hectare de terra abandonada por 100.000 rupias (menos de 1400 euros) – a totalidade do que ela e o filho haviam poupado. Instalou-se novamente na sua antiga casa, que permanecia vazia desde que se mudara para Dhapa.

“De início, tínhamos apenas uma pequena e modesta clínica, com paredes de madeira e adobe, telhado entrelaçado de canas de bambu”, lembra Ajoy. A mãe acrescenta: “Cheguei andar de mão estendida a pedir auxílio a vizinhos e clientes. Uns troçavam de mim: como poderia eu construir um hospital se não sabia ler nem escrever, e mal alimentava os meus filhos? Outros foram mais generosos, oferecendo areia e madeira, mão-de-obra e até camas e colchões.”

Num riquexó (espécie de coche de duas rodas puxado por uma pessoa), foi instalado um altifalante para promover o novo serviço aos mais desfavorecidos. Mãe e filho recorreram a médicos que, como visitantes, prestassem cuidados gratuitamente.

Alguns aldeões andaram de porta em porta a pedir donativos e medicamentos que já não eram usados. No primeiro dia, atenderam mais de 250 doentes.

“Temos agora um total de 19 médicos efectivos, 22 visitantes e 17 enfermeiras”, especifica Ajoy Mistry. “Os dois hospitais, com rés-do-chão e dois pisos, têm cada um 35 camas, mas a capacidade é de 100. Recebemos uns 5000 doentes por mês. A ninguém é recusado tratamento se não puder pagar" © Direitos Reservados | All Rights Reserved

“Temos agora um total de 19 médicos efectivos, 22 visitantes e 17 enfermeiras”, diz Ajoy Mistry. “Os dois hospitais, com rés-do-chão e dois pisos, têm cada um 35 camas, mas a capacidade é de 100. Recebemos uns 5000 doentes por mês. A ninguém é recusado tratamento se não puder pagar”
© Direitos Reservados | All Rights Reserved

Ajoy também foi ao encontro de empresários, deputados e potenciais benfeitores, que contribuíram, em grande medida, para o que, desde 1996, funciona como um complexo de dois hospitais – o primeiro em Hanspukur e o segundo em Sundarban (inaugurado recentemente, e o único nesta área remota).

Mecenas e voluntários, dentro e fora da Índia, ajudaram a adquirir tecnologia “topo de gama” (como máquinas de ultra-sonografia), que serve 13 departamentos, como medicina interna e cirurgia geral (dois blocos operatórios), ginecologia-obstetricia e pediatria, oftalmologia e ortopedia, diabetologia e urologia, cardiologia e oncologia, uma unidade de cuidados intensivos (24 horas por dia), ambulatório (das 8 da manhã às 16h00 de segunda a domingo).

Apesar de todo este progresso, ele lamenta que os fundos, privados e governamentais, sejam escassos para socorrer “toda a comunidade” e, por isso, apela à boa vontade dos que queiram fazer parte deste “milagre”, que custa 64 mil rupias por mês (quase 900 mil euros). O website é este: http://www.humanityhospital.org

“Temos agora um total de 19 médicos efectivos, 22 visitantes e 17 enfermeiras”, especifica Ajoy, cujo telemóvel não pára de tocar. “Os dois hospitais, com rés-do-chão e dois pisos, têm cada um 35 camas, mas a capacidade é de 100. Recebemos uns 5000 doentes por mês. A ninguém é recusado tratamento se não puder pagar. A taxa mínima é de 10 rupias [dez cêntimos]. A máxima, por uma operação, é de 900 [pouco mais de 12 euros].”

A mãe, que tem encorajado vários pacientes a contratualizar seguros na área da saúde – onde a Índia, a terceira maior economia da Ásia, gasta menos de um terço do seu Produto Nacional Bruto/PNB de 6,7 biliões [trillions] de dólares (dados Oxfam), sublinha: “Isto não é um negócio, mas precisamos de ser autossuficientes!”

No final da conversa, a visionária Subhashini Mistry, galardoada com vários prémios e venerada até pelos que, antes, desdenhavam dela, despede-se com um murmúrio: “Agradeço a Deus, porque nunca me abandonou.”

Segundo a UNICEF... © crookedimagez

Segundo a UNICEF, pelo menos 11 milhões de crianças vivem nas ruas da Índia. Os idosos são igualmente abandonados por familiares, sobretudo filhos e filhas que cobiçam os seus bens: “um em cada três” é vítima de abusos cruéis
© crookedimagez

Ajoy já está a planear um outro projecto – um lar de acolhimento para meninos de rua e idosos que aqui são “vergonhosamente despejados” pelos parentes. Em 2003, a UNICEF, organização das Nações Unidas de apoio à infância, estimava que entre os “cerca de 100 milhões” de crianças de rua em todo o mundo – uma estatística provavelmente abaixo da realidade por falta de census fiáveis e recentes – 11 milhões estão na Índia. Kolkata/Calcutá e Mumbai/Bombaim, terão as maiores concentrações destas crianças, as mais novas com 6-8 anos e as mais velhas com 13, sem acesso aos direitos mais básicos, da alimentação à educação.

Quanto aos idosos, um relatório divulgado em 2012 pela associação de voluntários HelpAge India, refere que “um em cada três cidadãos séniores” é objecto de agressões violentas, como “espancamentos cruéis”. Em mais de 55% dos casos, os agressores são os filhos e 23% são as filhas. As principais “razões” para os maus tratos estão relacionadas, de um modo geral, com a partilha de bens e terras dos progenitores.

Mathew Cherian, director executivo da HelpAge India disse ao Gulf News General: “Antigamente, as pessoas viviam com os filhos quando já não podiam trabalhar, mas a sociedade já não está orientada para os pais, e a tendência crescente é a de os idosos terem de sair das suas casas para lugares que possam acudir as suas necessidades. Só que não há centros suficientes para assistência à terceira idade, em particular os que são negligenciados pelas famílias.”

Segundo o Gulf News General, dos 1250 milhões de habitantes da Índia “cerca de 113 milhões terão mais de 60 anos até 2016”, aumentando a procura de lares de acolhimento, criados e prometidos por responsáveis governamentais mas que são em número reduzido. O estudo de 2012 da HelpAge India adianta que “menos de 40%” dos indianos vivem com os pais e avós.

Em Deli, muitos idosos ainda detêm propriedades, “mas estão cada vez mais dependentes dos seus filhos e é aqui que os problemas começam”. Os que trabalharam para o Estado ou empresas privadas recebem pensões de reforma, mas a esmagadora maioria da população continua a ser agricultores e operários. Chegados à velhice, este precisam da ajuda dos descendentes.

O Governo criou um programa de pensões para os pobres designado Indira Gandhi National Old Age Pension Scheme, que atribui 200 rupias (menos de 3 euros) por mês aos que têm mais de 60 anos e vivem abaixo do limiar de pobreza (menos de 1,25 dólares/dia). Esta quantia só chega para pagar os alimentos de uma semana. Os idosos com mais de 80 anos recebem, mensalmente, 500 rupias (quase sete euros).

Com os seus projectos para os meninos de rua e idosos, o filho de Subhashini Mistry quer ajudar a mentalidades: “Sou feliz por ter esta mãe, porque ela lutou por um sonho e nunca desistiu.”

Mãe vendedora ©DR

Em cima: Subhashini Mistry, quando era vendesora de produtos hortícolas que lhe permitiram poupar para realizar o que chama de "milagre"; Em baixo: A fundadora do Hospital da Humanidade confortando os seus doentes. © Direitos Reservados

Subhashini Mistry, quando era vendedora de produtos hortícolas que lhe permitiram poupar o suficiente para realizar o que chama de “milagre”, e confortando uma doente no seu Hospital da Humanidade 
© Direitos Reservados | All Rights Reserved

Este artigo, aqui na versão integral, foi publicado originalmente na revista “Além-Mar”, edição de Junho de 2015 | This article, here the uncut version, was originally published in the Portuguese magazine “Além-Mar”, June 2015 edition

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s