“‘Ama os inimigos’ é um mandamento sem precedentes no Judaísmo original”

Simon J. Joseph escreveu The Nonviolent Messiah (“O Messias Não Violento”), livro que contraria a visão de Reza Aslan de um Jesus “zelota”. Pedimos-lhe que explicasse como chegaram os dois autores a conclusões opostas. (Ler mais | Read more…)

© concordiakoinonia.com

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O estudo da Bíblia deu fama e prestígio à carreira de Simon J. Joseph, professor de Religião na Universidade Luterana da Califórnia (EUA). Está a caminho do seu terceiro livro, depois de Jesus, Q, and the Dead Sea Scrolls: A Judaic Approach to Q e The Nonviolent Messiah: Jesus, Q, and the Enochic Tradition. Colabora com publicações de renome, como Journal of Biblical Literature, New Testament Studies, Dead Sea Discoveries, Biblica, Journal of the American Academy of Religion, Journal of Theological Studies History of Religions. É argumentista e co-produtor dos documentários Finding God in the City of Angels e Holy Man: The USA vs Douglas White (protagonizado por Martin Sheen).

Joseph assume-se, publicamente, como um dos maiores críticos de O Zelota (Ed. Quetzal, 2014), de Reza Aslan, e explica porquê, numa entrevista que me deu, por e-mail.

Reza Aslan é o autor de O Zelota e o senhor escreveu The Nonviolent Messiah (“O Messias Não Violento”) – dois retratos diferentes de Jesus. O primeiro é o de um homem que disse: “Não vim para trazer a paz, mas a espada”; o segundo é o de um pacifista que disse: “Perdoai os vossos inimigos” e “Ofereçam a outra face”. O que distingue os dois livros?

A resposta está na forma como a prova é interpretada. As três frases que menciona provêm do Q [material exclusivo dos evangelhos de Mateus e Lucas], as nossas primeiras fontes das tradições de Jesus. Portanto, embora possam ser atribuídos ao Jesus histórico, aqueles ditos têm de ser interpretados de forma acertada para poderem ser entendidos nos seus contextos literários originais.

Não há qualquer prova de que Jesus alguma vez tenha usado de violência para magoar alguém, muito menos para iniciar uma campanha militar contra Roma. O movimento cristão inicial ficou bem conhecido, nos seus primeiros três séculos, por ser pacifista – os cristãos recusavam alistar-se no Exército romano porque tentavam, desse modo, seguir os ensinamentos de Jesus. Estes primeiros cristãos eram os que estavam mais próximos das tradições do que Jesus ensinou.

O facto de, como epígrafe do seu livro, Reza Aslan distorcer a citação “Não vim para trazer a paz, mas a espada” de modo a fazer valer o argumento de um Jesus zelota faz com que a sua interpretação de Jesus seja enganadora e irresponsável. Isto serve como exemplo perfeito de como uma frase retirada do contexto e interpretada de maneira errada pode conduzir a uma interpretação grosseira.

O verdadeiro significado da frase é a de que lealdade a Jesus causa a divisão – simbolizada pela espada – no seio das famílias. Não tem nada a ver com violência física ou revolucionária. O seu contexto literário requer uma interpretação simbólica da palavra ‘espada’, e isso é algo que qualquer estudioso responsável do Novo Testamento bem sabe.

O facto de Aslan usar aquela citação de maneira errónea sugere que não soube interpretar fielmente a frase ou preferiu interpretá-la incorrectamente para manipular a sua audiência.

Em contraste, as duas outras frases – “Ama os teus inimigos” e “Oferece a outra face” – são tradições de Jesus bem conhecidas e comprovadamente autênticas. Pertencem às primeiras tradições de Jesus no [material] Q –habitualmente designadas pelos exegetas como “Sermão Inaugural”.

Ama os inimigos é um mandamento sem precedentes no Judaísmo original, e há consenso entre os historiadores de que se trata de um mandamento autêntico de Jesus.

© augustanasc.org

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Alguns críticos de O Zelota (e o próprio autor reconhece) apontam para o facto de este livro não oferecer nada de novo face aos estudos sobre o Jesus histórico que têm sido publicados nos últimos 200 anos. Quais são, em seu entender, os pontos mais frágeis e os argumentos mais questionáveis na investigação conduzida por Reza Aslan?

O Zelota não contribui com nada de novo para a investigação sobre Jesus. Autores populares tendem a simplificar, para o público em geral, o trabalho académico mais complexo. Em O Zelota, é grave a interpretação errada dos conhecimentos dos especialistas nesta área.

Aslan argumenta que sabemos muito pouco sobre Jesus e usa isso como justificação para desvalorizar muitas tradições. Inversamente, ele realça um pequeno número do que identifica como ‘factos’ – que Jesus era judeu, pregou sobre o Reino de Deus e foi crucificado – e atribui a estes ‘factos’ interpretações que não são fiáveis.

Por exemplo, historiadores bíblicos têm vindo a referir um Judaísmo plural do Segundo Templo, enfatizando a sua diversidade, porque sabem terem existido práticas de tipos muito diferentes de Judaísmo.

Aslan, pelo contrário, optou por caricaturar os Judeus e Jesus como defensores de uma revolução política, o que é uma extrema simplificação da diversidade naquele período. Os ensinamentos de Jesus sobre o Reino de Deus são complexos, enigmáticos e difíceis de interpretar, mas Aslan confunde a linguagem sobre o reino com aspirações políticas, adulterando deste modo o ensinamento central de Jesus. Não se percebe se está apenas mal informado ou se tentou, propositadamente, interpretar de forma incorrecta para aumentar as vendas do livro.

Não há nada sobre a crucificação que ligue Jesus a violência política ou a uma revolução militarista. O ‘facto’ de ter sido crucificado não significa que ele pretendesse derrubar o poder de Roma.

Muitos historiadores alegam que o Sumo Sacerdote judeu instigou a prisão, julgamento e execução de Jesus. Neste caso eventual, a identidade messiânica de Jesus terá sido lida erradamente por Caifás como sedição política. Na realidade, não era isso que se tratava.

Esta teoria é sustentada pelo facto de só Jesus, e não os seus discípulos, ter sido preso. Isso indica que Pilatos sabia que os fiéis de Jesus não constituíam, para Roma, uma ameaça política ou militar.

En resumo, nada sugere que Jesus advogou ou participou em qualquer actividade de tipo zelota ou revolucionária contra Roma. A tese de Aslan é rejeitada por quase todos os que investigam o Jesus histórico.

 Jennifer Jessum (realizadora/produtora), à esquerda e Simon J. Joseph (argumentista e produtor) do documentário Holy Man (narrado por Martin Sheen), com Douglas White, no centro da foto e o centro da história. Trata-se de um homem venerado como santo pelos índios Sioux da região de Lakota que foi condenado a 17 anos de prisão por um crime que não cometeu. © kickstarter.com/projects

Jennifer Jessum (realizadora/produtora) e Simon J. Joseph (argumentista e produtor) do documentário Holy Man (narrado por Martin Sheen), com Douglas White, no centro da foto e o centro da história. Trata-se de um homem venerado como santo pelos índios Sioux da região de Lakota que foi condenado a 17 anos de prisão por um crime que não cometeu
© kickstarter.com/projects

livro simon

Esta entrevista foi incluída num artigo sobre “O Zelota”, obra de Reza Aslan, publicado na revista “Além-Mar”, edição de Dezembro de 2014 | This interview was included in an article about Reza Aslan’s book “Zealot” that was published in the Portuguese magazine “Além-Mar”, December 2014 edition

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