“Só há lugar no centro para dois partidos: o de Lapid ou o Labour”

O homem que retirou a coroa de rei a “Bibi” Netanyahu merece o benefício da dúvida, diz o analista Ami Kaufman. Os trabalhistas, que em tempos foram a força dominante, poderão desaparecer do mapa político, se o Yesh Atid sobreviver.  (Ler mais | Read more…)

Yair Lapid, ministro das Finanças de Israel e líder do partido Yesh Atid , numa sessão plenária do Knesset (Parlamento), em 22 de Abril de 2013. © Abir Sltan | EPA

Yair Lapid, ministro das Finanças de Israel [até 2014] e líder do partido Yesh Atid , numa sessão plenária do Knesset (Parlamento), em 22 de Abril de 2013
© Abir Sltan | EPA

Ami Kaufman [desde 2015 apresentador do programa “Road to the White House” na estação televisiva i24news] é dos mais influentes comentadores políticos em Israel, Ami Kaufman ajudou a fundar o site noticioso +972 Magazine,, foi editor no jornal Ha’aretz e no diário financeiro Calcalist. Foi também correspondente da estação de rádio israelo-palestiniana 93,6 RAM FM e é autor blogue Half & Half. Deu-nos esta entrevista, via Facebook.

O segundo lugar de Yair Lapid foi, para si, uma surpresa? O que conhece dele e quais as suas expectativas?

Sim, foi uma surpresa porque todas as sondagens lhe davam apenas 10-12 deputados, ou seja o terceiro ou o quarto lugar. Lapid é o filho de Josef (Tommy) Lapid, antigo ministro da Justiça e líder do outrora poderoso partido centrista Shinui.

Tommy, que morreu em 2008, foi durante muitos anos jornalista do [diário] Ma’ariv. Em 1999, o seu partido obteve o resultado extraordinário de 15 assentos no Knesset [Parlamento]. Nos últimos anos, Israel tem visto um tsunami de jornalistas a abandonarem os teclados a favor das horríveis cadeiras de pele castanha da assembleia legislativa. 

Yair é, actualmente, um dos rostos mais familiares em Israel. Foi actor em filmes; escrevia a coluna mais lida – sobre a sua família e o seu casamento – na primeira página do suplemento de fim-de-semana do jornal de maior circulação, Yediot Ahronot; era o principal rosto da campanha publicitária do HaPoalim, maior banco de Israel; e há quatro anos que conduzia o programa de maior audiência nas noites de sexta-feira, no Canal 2.

Também é autor de nove romances e pugilista amador [podemos vê-lo neste vídeo antigo, num combate em que sofre uma pesada derrota].

É amado, adorado e até venerado. Para muitos, representa o ‘israelita bonito’ (HaYisraeli HaYafe). Simboliza o queremos que Israel seja: inteligente, bem-humorado e mainstream – e não menos importante – muito belo.

Não tinha muitas expectativas a seu respeito, já que nunca votaria nele. Ele nunca dá, aparentemente, uma resposta clara sobre o que quer que seja; e pensa que pode fugir às perguntas com um sorriso.

Shelly Yachimovich (esq.) perdeu a liderança do Partido Trabalhista em Novembro de 2013, para Isaac Herzog (dir.). mas os israelitas, segundo sondagens, não vêem como alternativa a Netanyahu © Miriam Alster | Flash90

Shelly Yachimovich (esq.) perdeu a liderança do Partido Trabalhista, em Novembro de 2013, para Isaac Herzog (dir.), mas a maioria dos israelitas, segundo várias sondagens, não o vê como alternativa a Benjamin Netanyahu
© Miriam Alster | Flash90 | The Times of Israel

Foi por ser uma celebridade numa sociedade que busca histórias de sucesso que Lapid atraiu tantos eleitores ou/e devido ao seu programa sociopolítico? E que parte desse programa era mais atractiva?

Lapid obteve muitos votos por dois motivos. Primeira razão: muitos eleitores do Likud [partido de Benjamin Netanyahu] estavam descontentes com “Bibi” [diminutivo com que os israelitas tratam o primeiro-ministro]; para ele, Lapid simbolizava o movimento de protesto social.

Isto é um enorme engano, porque Lapid é tão capitalista quanto Netanyahu. Segunda razão: Lapid recebeu um voto de confiança da elite rica, branca, secular, ashkenaze [de origem europeia]. É o homem desta elite e o exemplo perfeito da classe alta de Israel.

O que podem, então, os israelitas (e o mundo) esperar de Lapid – um homem que se orgulha de não ter concluído o liceu – num governo de Netanyahu? Será o “novo rei de Israel”, ou tão só “um servo” de “Bibi”?

Creio que ainda é muito cedo para vaticinar. Há alguns nomes que impressionam neste Knesset, pessoas que podem fazer aprovar boas leis. Mas, tal como Lapid, são estreantes e uma grande incógnita.

A ascensão de Lapid e do seu partido Yesh Atid evoca a de outras forças “centristas” que tiveram excelentes resultados no dia das eleições mas desapareceram do mapa político num curto prazo. O Yesh Atid encaixa nesta categoria?

Há uma grande probabilidade de o Yesh Atid vir a desaparecer, tal como aconteceu ao movimento de Tommy [o Shinui dissolveu-se após uma cisão e uma derrota eleitoral em 2006].

Naturalmente que Lapid aprendeu com os erros do pai, mas o meu prognóstico é o de que não há espaço para três grandes partidos [no centro], apenas dois: ou o de Lapid ou o Trabalhista, de Shelly Yachimovich, vão desaparecer.

Nas eleições de 2015, os partidos ultra-ortodoxos, a que Lapid quer retirar privilégios, tiveram fracos resultados, mas Netanyahu - pela quarta vez na chefia do governo - precisou deles para formar uma coligação © Ronen Zvulun | Reuters

Nas eleições de 2015 (na foto), os partidos ultra-ortodoxos, por quem Yair Lapid nutre pouca simpatia, tiveram fracos resultados, mas Netanyahu – que conquistou pela quarta vez a chefia do governo – precisou deles (Judaísmo Unido da Torah e Shas) para formar uma coligação
© Ronen Zvulun | Reuters

Mal começaram as negociações para uma coligação, e dois arqui-rivais – o partido ultra-ortodoxo ashkenaze Judaísmo Unido da Torah e o ultra-ortodoxo mizrahi do Shas (um total de 18 deputados) – uniram-se num esforço para inviabilizar um governo com Lapid.

É incrível até onde os ortodoxos estão dispostos a ir para impedir que os seus rapazes nas yeshivot [seminários] sejam recrutados para a tropa [estão isentos desde a criação de Israel, em 1947, o que é fonte de agravo popular, e obrigou a antecipar as eleições para este ano].

Fui um dos que criticavam Lapid pela sua falta de programa e visão, mas agora que o povo o escolheu, acho que lhe devemos dar uma oportunidade e julgá-lo pelos seus actos. Mas que vergonha, ter começado por deslegitimar 20% da população [os palestinianos de cidadania israelita] com uma declaração que quase classificaria de racista.

Menos de 24 horas após os resultados, Lapid disse que não se aliaria ‘aos Haneen Zouabis’ [numa alusão à deputada Haneen Zouabi, do partido árabe Balad]. Claro, esses demoníacos zouabis que votaram ‘democraticamente’ para o mesmo Parlamento de que Lapid será membro!

O que acho mais interessante é que, nestas eleições, não se falou da ocupação – foi totalmente ignorada. Os resultados indicam que a ocupação [da Cisjordânia e Jerusalém Oriental] não tem qualquer importância.

Também não se falou do Irão. Nem das relações com os Estados Unidos. Nem da Primavera Árabe. Não! O mais importante, para os israelitas, é que alguns milhares de haredim [ultra-ortodoxos] não cumprem o serviço militar obrigatório.

Netanyahu (esq.) e Yair Lapid: algumas sondagens apontam o líder centrista como possível alternativa ao primeiro-ministro em futuras eleições © Uriel Sinai | Getty

Netanyahu (esq.) e Yair Lapid: hem alguns inquéritos de opinião, o líder do Yesh Atid tem sido apontado como  alternativa ao primeiro-ministro, em futuras eleições – mas as sondagens em Israel não costumam ser fiáveis
© Uriel Sinai | Getty

Vejam o que Lapid escreveu no seu mural do Facebook: “Os meus princípios continuam os mesmos: partilhar o fardo [da tropa], preocupação pela classe média, em relação à educação e à habitação, e mudar o sistema parlamentar.”

Entre o rio e o mar, estes são os temas mais prementes, segundo Lapid. É compreensível. Os zouabis não têm realmente grande importância.

A única vantagem que vejo em desvalorizar a questão de palestinianos/segurança/medo é a de que pode, na realidade, abrir um caminho para avançar.

Sempre acreditei que é benéfico, de certo modo, não abordar o assunto, porque quando ele se torna central perde importância – ou seja, talvez a necessidade de ocupar [mais território palestiniano, para expandir os colonatos judaicos] se torne menos importante, e um compromisso possa ser mais viável.

Igualmente importante é que, apesar de Netanyahu ter querido vender o medo durante a campanha eleitoral, os israelitas não o compraram. Eles só estão preocupados com os seus bolsos. E com os preguiçosos haredim.

[Lapid foi nomeado em 2013 ministro das Finanças mas em Dezembro de 2014 Netanyahu afastou-o do governo. Shelly perdeu a liderança do Labor, embora o partido tenha obtido sete lugares nas legislativas de 2013. Foi derrotada, em eleições primárias, por Isaac Herzog, que obteve 58,5% dos votos contra 41,5% da adversária interna, assumindo-se como “líder da oposição”. Em Setembro de 2016, uma sondagem, citada pelo “site” Al-Monitor indicava que Lapid é visto como possível alternativa, não apenas a Herzog/Labour mas também a Netanyahu/Likud.]

© Ami Kaufman

© Ami Kaufman

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 27 de Janeiro de 2013 | This article, now revised and updated, was originally published in the newspaper newspaper PÚBLICO, on January 27, 2013 

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