O psiquiatra que receita música e não Prozac

James Gordon foi conselheiro de Carter e Clinton, e hoje combina ciência com medicina alternativa para tratar milhares de pacientes do Kosovo a Gaza. Entre os primeiros beneficiários, estiveram crianças traumatizadas pela guerra em Moçambique. (Ler mais | Read more…)

Médico e académico, James Gordon foi conselheiro dos antigos presidentes dos Estados Unidos Jimmy Carter e Bill Clinton na Comissão da Casa Branca para a Medicina Complementar e Alternativa. Na foto, o médico dá apoio a vítimas no Haiti, um dos países abrangidos pelas sua missão. @DR (Direitos Reservados | All Rights Reserved)

Médico e académico, James Gordon ensina técnicas para superar stress pós-traumático, no Haiti, um dos países apoiados pelo Center for Mind-Body Medicine (CM-BM), que ajudou a fundar.
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É preciso preencher um formulário on-line detalhado para se obter uma entrevista, por telefone, com James Gordon. Percebe-se porquê quando se lê a sua biografia: É psiquiatra doutorado em Harvard; exerceu a profissão durante uma década no National Institute of Mental Health, em Maryland (EUA), a maior organização do mundo dedicada à investigação em saúde mental; foi conselheiro dos presidentes Jimmy Carter e Bill Clinton na Comissão da Casa Branca para a Medicina Complementar e Alternativa; dá aulas na Universidade de Georgetown; e dirige o prestigiado Centre for Mind-Body Medicine (CMBM), que ajudou a fundar em 1991. O seu livro mais recente chama-se Unstuck: Your Guide to the Seven-Stage Journey Out of Depression.

Na liderança do CMBM, o nova-iorquino Gordon, de 70 anos, formou médicos, enfermeiros e outros profissionais para socorrerem milhares de pessoas que sofrem de depressão, ansiedade e traumas, de doentes de cancro a vítimas de guerra ou catástrofes naturais, como o furacão Katrina.

O seu campo de acção inclui os EUA e o Haiti, o Kosovo, a Bósnia e a Macedónia, Israel e a Faixa de Gaza. Estava ainda no NIMH quando iniciou os seus estudos em medicina holística e alternativa, com programas que incluem meditação espiritual e técnicas de relaxamento, actividades sociais e culturais, como música e dança.

Apesar da suspeição de colegas mais ortodoxos, que não abdicam de receitar Prozac, Gordon vangloria-se de só prescrever antidepressivos em casos “muito graves”. A indústria farmacêutica, alega, “tem múltiplos interesses” e a eficácia de certos medicamentos “não está comprovada cientificamente”.

Por isso, ele também se especializou em acupunctura, com Shyam Singha (1920-2000), considerado um mestre neste campo e nos da osteopatia e da naturopatia, professor nas universidades de Harvard, George Washington e Miami, autor do livro The Secrets of Natural Health e do programa da BBC Food is Medicine, Medicine is Food.

Photo 2 - Gordon-008

O psiquiatra no Kosovo, depois de um difícil trabalho na Bósnia: “Quando eclodiu o conflito no, tentámos intervir o mais rápido possível, sem esperar pelo fim dos combates, porque os traumas seriam mais complicados de tratar: há maior revolta”
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Com o seu valioso currículo e várias etapas que foi necessário percorrer até chegar a ele, esperávamos um tipo presunçoso quando ligámos para o seu telemóvel, mas foi um James Gordon afável e alegre que respondeu às nossas questões. A apresentação da jornalista foi interrompida assim: “É de Portugal? Sabia que comecei a minha investigação sobre traumas de guerra, em 1996, com crianças-soldado em Moçambique?”

Porquê? “Queria compreender como se sobrevive, psicologicamente, quando alguém que ainda não é adulto mata e vê a morte à frente”, explica Gordon. E como ajudou essas crianças? “Com os métodos que, desde 1970, no National Institute of Mental Health, fui adoptando com jovens desabrigados nas ruas ou confinados em lares de acolhimento, constantemente em fuga.”

“Concebi um tratamento integrado, que incluía um instrutor de artes marciais, sessões em que meditávamos juntos, uma dieta alimentar equilibrada e exercício físico, com o objectivo de diminuir os níveis de ansiedade e violência.”

“Seguiu-se a Bósnia, já totalmente dizimada pela guerra [1992-1995] e, por isso, mais difícil de ajudar”, adianta. “Quando eclodiu o conflito no Kosovo, tentámos intervir o mais rápido possível, sem esperar pelo fim dos combates, porque os traumas seriam mais complicados de tratar: há maior revolta; os padrões de comportamento que daí resultam são, quase sempre, de alcoolismo, violência sobre cônjuges, abusos sexuais dos filhos. Acresce a isso um número mais elevado de doenças cardíacas.”

Gordon orgulha-se: “O nosso programa faz agora parte do Serviço Nacional de Saúde na Bósnia, Kosovo e Macedónia, com mais de cem profissionais que treinámos para trabalharem em centros comunitários – só no Kosovo, são cerca de 20 mil os pacientes beneficiários.”

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“A opressão faz parte da vida diária das crianças em Gaza”, salienta o psiquiatra ( na foto) que, em 2008, viu o seu centro premiado pelo Pentágono, por ter reabilitado soldados regressados do Iraque e do Afeganistão. “Os palestinianos, testemunhas de mais mortes, sentem-se abandonados pelo mundo; os israelitas, no Sul, sentem-se abandonados pelo seu Governo”
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Foi também no Kosovo, em 2002, que Gordon recebeu e-mails de dois psicólogos, um israelita e um palestiniano, ambos solicitando a sua intervenção, por não saberem lidar com “inúmeros dramas humanos”, respectivamente no Sul de Israel, fustigado por rockets disparados da Faixa de Gaza, e na Faixa de Gaza bombardeada pela aviação israelita.

“Fui primeiro a Gaza, porque me parecia o caso pior, uma área isolada e sob ataque constante”, revela o judeu cuja família fugiu dos pogroms na Rússia e Polónia, no início do século XX, e se deixou inspirar pelas histórias que ouvia de sobrevivência durante o Holocausto. “Desloquei-me sozinho, levando comigo algum dinheiro. Hoje, este é um dos projectos mais bem organizados, em parte graças ao investimento ali efectuado.”

O CMBM angariou para Gaza cerca de 6 milhões de dólares e para Israel 2,5 milhões. “Parece muito, mas não é”, lamenta. “Com a crise financeira, os contributos diminuíram; temo vir a passar os próximos anos de chapéu na mão em busca de esmolas”.

Em Gaza, onde Gordon entrou “primeiro com a bênção da Fatah e agora com a aprovação do rival Hamas [o movimento islamista que governa a pequena faixa] e até da Jihad Islâmica“, o número de pessoas que usufrui do seu programa ascende a 75 mil; em Israel, oscila entre os 30 mil e os 35 mil. “Pode haver quem se surpreenda por o Hamas me deixar entrar”, admite Gordon, que fez este ano a sua 18.ª visita a Gaza, “mas todos vêem os bons resultados dos líderes comunitários que treinámos e ninguém coloca entraves”.

No território mais densamente povoado do mundo (365 km2, 1,7 milhões de habitantes), “os traumas são mais intensos do que no Sul do Israel, que também vive sob medo constante. A opressão faz parte da vida diária das crianças em Gaza”, salienta o psiquiatra que, em 2008, viu o seu centro premiado pelo Pentágono, por ter reabilitado soldados regressados do Iraque e do Afeganistão. “Os palestinianos, testemunhas de mais mortes, sentem-se abandonados pelo mundo; os israelitas, no Sul, sentem-se abandonados pelo seu Governo.”

Para devolver esperança e acabar com pesadelos – “creio que muitos atentados suicidas são mais fruto de frustração do que de religião” -, Gordon recorre ao ioga, a instrumentos musicais e ao folclore. “Em Gaza, respeitamos tradições, formando grupos só masculinos ou femininos.”

Deste trabalho, há um caso que o marcou. “Em 2008, Ahmed, rapaz de 16 anos que viu o melhor amigo abatido a tiro pelo exército israelita, revelou-nos que começou a lançar pedras aos soldados, esperando que também o matassem. O que fizemos foi pedir-lhe que imaginasse uma voz interior que o guiasse. Um dia, disse-nos que o avô lhe aparecera num sonho e que lhe perguntou o que haveria de fazer. O avô respondeu-lhe: “A melhor maneira de honrares o teu amigo é viveres”.”

James Gordon foi conselheiro dos antigos presidentes dos Estados Unidos Jimmy Carter e Bill Clinton (à esquerda) na Comissão da Casa Branca para a Medicina Complementar e Alternativa. @DR (Direitos Reservados | All Rights Reserved)

James Gordon foi conselheiro dos antigos presidentes dos Estados Unidos Jimmy Carter e Bill Clinton (esq.) na Comissão da Casa Branca para a Medicina Complementar e Alternativa
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Este artigo foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO, em 16 de Dezembro de 2012 | This article was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on December 16, 2012

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