Como Jeff Ragsdale deixou de ser um “lonely guy”

Ele pediu ajuda para sobreviver a um desgosto amoroso. E a sua história deu um livro revolucionário sobre a solidão. (Ler mais | Read more…)

© Jeff Ragsdale

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No Outono de 2011, Jeff Ragsdale ficou “extremamente deprimido” quando a namorada, Megan, abandonou o apartamento que partilhavam e saiu da sua vida. “Foi uma ruptura devastadora”, contou o antigo comediante de Harlem (Nova Iorque), numa troca de e-mails.

“Foi o meu pior ano. Comecei a perder a esperança e interroguei- me: ‘Jesus, o que aconteceu ao tipo simpático que se ria por tudo e por nada? Por que está agora permanentemente furioso e cheio de ódio?’ Sentia-me isolado e desesperado.”

Naquela altura, Jeff trabalhava “num escritório infestado de ratos”, em Nova Iorque. Desistira de fazer humor. “A stand up comedy era uma actividade difícil e eu estava acabado”, referiu. “Sou muito dependente emocionalmente.”

“Queria casar-me com Megan, mas não nos conhecíamos muito bem. Quando vivíamos juntos, agredíamo-nos verbalmente, e ela recorria à violência física devido à medicação que tomava. Também bebíamos demasiado e, a certa altura, ingeríamos drogas. Foi a receita para o desastre.”

A situação “explodiu” e Jeff não procurou ajuda psicológica apesar de identificar instintos suicidas. “Via-me a caminhar em Riverside Park, a encontrar-me com ela, colocar uma arma na boca e puxar o gatilho à sua frente.”

Um dia, Jeff deambulava por Manhattan quando reparou melhor nos folhetos que costumava ver afixados, anunciando serviços como passear cães ou aulas de guitarra. “Surgiu-me ali a ideia de colocar o meu próprio cartaz: telefone- me, mergulhei num inferno de solidão. Falarei com o seu cão”, explicou.

A frase final seria: If anyone wants to talk about anything, call me, (347) 469-3173. Jeff, one lonely guy. (Se alguém quiser falar sobre qualquer coisa, telefone-me… Jeff, um tipo solitário”.)

Deste modo, o (347) 469-3173 tornou-se no mais famoso número de telefone e Jeff, one lonely guy foi transformado em título de livro, recomendado pela prestigiada New Yorker e pelo premiado escritor Bret Easton Ellis.

“Desenhei o folheto no meu computador. Quis colocar o número de telefone porque precisava mesmo de ouvir vozes, sons, emoções. Não me interessavam chat rooms. Afixei cerca de 30 cartazes, em vários dias. O custo da impressão totalizou uns 20 dólares.”

“Sim, senti-me embaraçado com as pessoas a mirarem-me”, admitiu. “Estava a despir- me, e havia gente a ver. Jamais pensei que o cartaz resultasse. Quando cheguei a casa, fiquei espantado. Imediatamente, muitos nova- iorquinos começaram a telefonar, oferecendo conselhos e apoio. Descreviam problemas amorosos, tragédias familiares, medos, fantasias. Tornou-se um relacionamento recíproco. Até hoje, recebi mais de 70 mil respostas — de todo o mundo.”

© Direitos Reservados | All Rights Reserved

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Foram centenas as chamadas nos primeiros dias — milhares numa semana. “Ainda estava a trabalhar e a minha chefe ficava zangadíssima”, continua Jeff. “Insistia com ela em que tudo iria abrandar e que poderia descontar as horas no meu salário.”

Mas o ritmo não afrouxou. “Nunca imaginei que se tornasse viral [porque alguém tirou fotos e colocou na Internet]. Fiquei atónito. Isto só acabará se for uma linha de telefone gratuita (muitas pessoas não conseguem pagar terapia e precisam apenas de desabafar).”

Uma das chamadas foi a de uma jovem portuguesa, indicou Jeff. “Falou-me da universidade e de como queria concluir uma licenciatura em Gestão de Empresas para poder viajar pelo mundo. Também um homem de Portugal telefonou e disse que se sentia muito sozinho apesar de ser casado e ter filhos.”

A maioria das conversas “tem sido de uma hiper-intensidade: dependência de drogas, violência, suicídio, famílias disfuncionais, patologias psicológicas…”. Os contactos de Jeff são de todos os estratos sociais. Desde o corretor que lhe telefonou queixando-se de ser “refém” do movimento Occupy Wall Street até ao proxeneta que o tentou assistir no “processo mais eficaz de engatar gajas giras — mas que custam uma nota”.

O grosso das chamadas nos EUA proveio de Nova Iorque, Texas e Florida, e ainda do Midwest e da Califórnia. Do resto do mundo, as que Jeff mais contabilizou foram “do Canadá e do Vietname — tantas chamadas do Vietname!”

“Há muito que necessitava desta terapia. Eu era o tipo mais solitário da cidade. As pessoas procuraram mesmo estabelecer elos. O maior elogio que me deixou feliz foi o de ter sabido ouvir os outros e de os ter ajudado.”

Este elevado número de chamadas e mensagens é sinal da crescente solidão e maior facilidade para partilhar problemas com estranhos? “Tentei analisar a situação”, disse o autor do livro qualificado de leitura revolucionária. “Desejo que se criem ‘grupos de solitários’, semelhantes ao dos Alcoólicos Anónimos.”

“A solidão é tão destrutiva como o álcool ou a heroína. A solidão é muito semelhante a uma doença ou a um vício. Os solitários precisam de tratamento, tanto quanto os alcoólicos e os toxicodependentes. Grupos de solitários podem salvar vidas. Para mim, isto tem sido uma dádiva e uma responsabilidade.”

© Direitos Reservados | All Rights Reserved

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“Encontrei-me, pessoalmente, com mais de 30 pessoas nos nove meses imediatos a colocar os cartazes”, precisou Jeff. “Alguns foram encontros amorosos; outros serviram apenas para beber café e conversar. Neste momento, está aqui uma mulher de Edmonton [Canadá] que conheci através do folheto. É extraordinária! Vamos passear, jantar, ao cinema.”

“Há interesse num romance. Preciso de ter a certeza de que estou pronto para este salto, para não repetir os erros do passado. Tenho de me amar verdadeiramente a mim próprio antes de amar qualquer outra pessoa. Sou um trabalho em construção.”

“Alguns dos telefonemas mais fortes são aqueles em que as pessoas deitam tudo cá para fora — com candura e honestidade”, salientou Jeff. “Recebi há dias um email de um iraniano [o endereço de correio electrónico está disponível no seu site]. ‘Hi Jeff. Eu conheço-o, porque também me sinto sozinho! Sou muçulmano. Vocês, no Ocidente, dizem que muçulmanos são terroristas! Se muçulmanos = terroristas, então ‘EU NÃO SOU MUÇULMANO’, apenas um ser humano. Quero ser um homem livre. Agora, você não está sozinho… também sou seu amigo’.”

Quando perguntámos a Jeff se algumas vezes se sentiu impotente ou se agiu como predador face aos que o contactavam, garantiu que respeita “todos os que, genuinamente, telefonam e enviam mensagens”. Lidou bem com críticas, como as de que a colagem dos cartazes não passou de um “golpe de marketing” para promover um livro previamente planeado, ou alegações de que era “pedófilo”. Desligou o telefone “a muito poucas pessoas”.

No primeiro mês e meio, Jeff nada guardou. “Perdi milhares de diálogos memoráveis”, lamentou. “Não fazia a mínima ideia do rumo que isto iria tomar. Só mais tarde, comecei a gravar mensagens e a tomar notas de cada telefonema. Transformei as notas em prosa.”

Conhecia um escritor de Seattle, David Shields. Contactou-o, e foi ele, em conjunto com outro ensaísta, Michael Logan, que o ajudaram a “dar vida a conversas mais dramáticas e divertidas”.

O ex-actor adicionou também extractos de um longo ensaio pessoal que publicou em The Seattle Review. “Ficou tudo concluído num mês. Chegámos a acordo com a New Harvest, que pertence à Amazon. O livro,  Jeff, One Lonely Guypublicado dois meses após a entrega do manuscrito — o prazo mais rápido na história de uma editora.”

Receber telefonemas e mensagens “consome a maior parte do tempo” de Jeff, que se despediu em Dezembro de 2011 e vive “muito frugalmente”, de poupanças e dos direitos de autor.

“Chego a estar ao telefone 16 horas seguidas. Foi uma grande ajuda durante aquele período doloroso, porque me permitiu centrar-me noutras coisas. O peso emocional é, às vezes, insuportável. Ao final do dia, fico irascível. Não me devo queixar. Esta viagem acidental foi a melhor experiência da minha vida.”

Apesar de tudo, Jeff ainda arranja tempo para si mesmo: “Vejo uma média de quatro filmes por semana. Preciso de encontrar lugares onde possa desaparecer e mergulhar noutro mundo. Acordo por volta das 8h da manhã, bebo café, consulto os e-mails e começo a responder, a atender telefonemas e a telefonar a quem deixou mensagens de voz. Um terço fica sem resposta.”

“O meu número de telefone continua activo [confirmámos isso quando ligámos e deixámos mensagem no gravador; ele — I’m Jeff, I posted the flyer... — pede desculpa por não poder atender]. Era um tipo cínico, antes do cartaz. Agora, tenho fé na humanidade.”

© gawker.com

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Este artigo foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO, em 22 de Julho de 2012 | This article was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on July 22, 2012

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