Um olhar diferente sobre a República Islâmica

O romancista Esmail Fassih observou, em 1987, que “nas esplendorosas terras do Irão, um bom escritor é um escritor morto” – e é este o título, em português, de uma admirável antologia editada pela Nova Vega, que permite um olhar diferente sobre a República Islâmica. (Ler mais | Read more…)

Persia - Photo 1

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Infelizmente, sob o actual regime teocrático, já nem os escritores mortos são bons escritores. Veja-se o caso de Anna Karenina de Tolstoi, arrasado por um grupo de deputados ultraconservadores de Teerão, porque «propaga a cultura do álcool e das relações extraconjugais, elimina o estigma associado ao pecado e glorifica a aristocracia».

Tolstoi não foi o único a ser atacado. “Dostoievski precisa de licença”, titulou em primeira página um jornal de Teerão, referindo-se à decisão do Presidente Mahmoud Ahmadinejad de reforçar as “competências” dos censores, dando-lhes poderes não apenas para impedir a publicação de novas obras mas também a reedição de clássicos da literatura persa e mundial.

 

A amarga realidade é constatada em Crónica da Vitória dos Magos, de Houshang Golshiri, um dos escritores incluídos nesta antologia, na seguinte passagem:

E quando dermos por isso, nem sequer permitem Ferdowsi nos nossos cemitérios. As coisas não tinham chegado a esse ponto, embora houvesse quem dissesse que os poemas de Ferdowsi estavam a ser eliminados dos manuais escolares. (p.32)

Autor do monumental Shahnameh (“Livro dos Reis”), Ferdowsi é o grande poeta nacional do Irão. Os iranianos inscrevem os seus poemas nas lápides das sepulturas.

Desde a sua primeira eleição, em 2005 [reeleito em 2009, terminou o último mandato em 2013, substituído elo mais “pramático Hassan Rouhani], Ahmadinejad recrutou mais e mais censores para o Ministério da Cultura e Orientação Islâmica e, com isso, mais e mais editoras abriram falência.

Nada é publicado no Irão sem emendas e aprovação oficial.”Escritores e editores contam histórias kafkianas de censores invisíveis, que apenas são conhecidos pelos seus números – a qualquer momento, o censor 101 pode agarrar numa obra e bloqueá-la”, observou Kasri Naji, autor da biografia Ahmadinejad – The Secret History of Iran’s Radical Leader.

Leia-se esta estória de Ghazi Rabihavi, outro autor que a editora iraniana Nahid Mozaffari incluiu (p. 58) e cita na introdução (pp. 14-15) da antologia que organizou:

«Uma vez, um escritor iraniano escreveu um romance de 179 páginas e, como qualquer escritor iraniano, apresentou-o ao Ministério da Orientação Islâmica no sentido de obter autorização para o publicar. Depois o escritor esperou.

O livro começava com a seguinte passagem:

Ela sabia que se sentiria melhor assim que o marido lhe trouxesse uma chávena de café, tal como nos outros dias. De pé à beira da janela, o vento deslizava delicadamente sobre os seus braços castanhos e os seus olhos estavam postos sobre o sol nascente que se erguia sobre os edifícios do governo. Era um nascer-do-sol que era como um pôr-do-sol.

“Após treze meses passados a subir as escadas escorregadias da burocracia, o escritor iraniano conseguiu finalmente uma reunião com o director da censura. O director era apenas uma cabeça. O seu corpo estava escondido por detrás da secretária e parecia reclinar-se delicadamente contra algo macio.”

“A cabeça proferiu o seguinte discurso: ‘Infelizmente, o seu livro tem alguns problemas que não podem ser corrigidos. Estou certo de que concordará comigo. Atente nestas primeiras frases em lado nenhum na nossa nobre cultura encontrará uma mulher à espera que o marido lhe leve uma chávena de café. Certo? Bom, outro problema é a imagem do vento deslizando sobre os braços nus que é provocadora e tem conotações sexuais.”

“Por fim, em lado nenhum, em qualquer cultura nobre, encontrará um nascer do sol que se pareça com um pôr-do-sol. Talvez seja um erro tipográfico. Pronto. Aqui tem o seu livro. Espero que escreva outro em breve. Nós apoiamo-lo. Apoiamo-lo. E a sua cabeça escorregou por debaixo da mesa’.”

Persia Photo 2- Iran

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No país onde o principal censor para o cinema foi até recentemente um cego, veterano da Guerra Irão-Iraque (1980-1988), a censura tornou-se tão generalizada que 134 escritores publicaram, em 1994, uma «carta aberta ao povo do Irão», alertando para uma grave crise social e cultural.

Um extracto dessa declaração consta também de Um Bom Escritor É Um Escritor Morto, magnífico livro que, em inglês, mereceu o título de Strange Times, My Dear, evocativo de belíssimos versos de e justa homenagem a Ahmad Shamloo – um dos poetas contemporâneos iranianos mais importantes.

IN THIS BLIND ALLEY

They smell your mouth

Lest you’ve told someone ‘I love you.’

They smell your heart

These are strange times, my dear

Love,

they drag out under lampposts

to thrash.

Love must be hid in closets at home.

In the cold of this blind alley

They keep their fires ablaze

burning our anthems and poems.

Do not venture to think.

These are strange times, my dear

 

He who pounds on the door in the nighttime

Has come to kill the light.

Light must be hid in closets at home.

Lo! the butchers

stationed on roads

with chopping-board and cleaver soaked in blood

These are strange times, my dear

They slit smiles off of lips

And song from the throat.

Joy must be hid in closets at home.

Canaries are being roasted

on a spit of lilacs and jasmine

These are strange times, my dear

Satan, triumph-drunk

Feasts at a table spread with our mourning

God must be hid in closets at home.

(Este poema foi escrito pouco depois da Revolução Islâmica de 1979. Esta é uma tradução, do persa para inglês, da autoria de Saya Ovaisy – Teerão, 2009)

Ao contrário da versão em inglês, a edição portuguesa inclui apenas obras de ficção e não de poesia, por isso, o poema de Shamloo, grito de revolta contra os que usaram o derrube do imperador Pahlavi para construir uma teocracia e não a democracia, está ausente desta antologia.

Há uma outra tradução do persa, por Karimi-Hakkak, que pode ser lida em From Desire to Disillusion: Three Poems by Ahmad Shamlu (Iranian Studies, vol. 30, 1997).

They smell your mouth

lest you might have said: I love you,

they smell your heart.

Strange times, my dear.

[Tradução livre: “Eles cheiram a tua boca / não vás ter dito: amo-te / eles cheiram o teu coração / Tempos estranhos, minha querida.”]

Foi um trabalho excepcional, o de Nahid Mozzafari, doutorada em Estudos do Médio Oriente pela Universidade de Harvard. Com o apoio de várias instituições, em particular, do PEN Center USA, não hesitou em instaurar um processo judicial ao Departamento do Tesouro dos Estados Unidos, que proíbe a “colaboração directa” entre editores americanos e escritores de “nações inimigas” (como o Irão ou Cuba), para dar a conhecer aos leitores ocidentais “os novos rumos” da literatura iraniana.

MS 21-1948 (1v 2r)

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Assim, os que já conheciam o épico de Ferdowsi, as Rubbâyat de Omar Kayyam, o Jardim das Rosas de Sa’adi Shirazi, os poemas sufis de Rumi (que muitos veneram como “o Corão persa”) e/ou o Diwân de Hafez (presente em todas as casas iranianas) podem agora apreciar outros escritores – homens e mulheres – como Simin Daneshvar, a primeira romancista iraniana [que morreu em Teerão, em 8 de Março de 2012], ou Nassim Khaksar, exilado na Holanda.

Daneshvar e Khaksar incluem-se num primeiro grupo, onde também estão Mahmoud Dowlatabadi, Houshang Golshiri e Iraj Pezeshkzad – “os já publicados e estabelecidos” antes da queda da monarquia em 1979 e que “continuaram a escrever depois dela”.

Os seus temas incidem sobre “poder e corrupção, diferenças de classe ou incerteza de identidade, alienação e fraquezas dos intelectuais”. Absolutamente delicioso, o conto Consequências atrasadas da Revolução, de Iraj Pezeshkad, crítica mordaz à vida ociosa da antiga elite da corte Pahlavi, agora no exílio.

É extraordinário, também, que alguns destes escritores nos levem, através das suas narrativas, ao encontro e reencontro de outros, como Nasser Khosrow, o poeta e filósofo do século XI (pp. 53 e 69), Sadegh Hedayat (1903-1951), famoso pela linguagem coloquial, autor de Alaviyeh Khanum (p. 62), Hakim Nezami Ganjavi, que escreveu, no século xii, Leyli e Majnum, tragédia amorosa semelhante à de Romeu e Julieta (p. 140).

Num segundo grupo, o dos que “começaram a escrever, publicar e a ser lidos depois da revolução”, Nahid Mozzafari incluiu Reza Daneshvar, Farkhondeh Aghai, Aashgar Abdollahi, Seyyed Ebrahim Nabavi (duas vezes detido por a sua sátira “ser, talvez, demasiado satírica”), Shahriyar Mandanipur, Ghazi Rabihavi e Goli Taraghi – a escritora a que totalmente nos rendemos Num outro lugar (pp. 164-211), o conto final.

Este segundo grupo é o dos escritores mais jovens, os que abordam questões novas e velhos tabus. Destaque para o relato da amizade singular entre o muçulmano Idris e o judeu Elfi, em Um quarto cheio de pó (p. 128), e para a descrição comovente da execução de um homossexual, em Pedra Branca (p. 158).

Um Bom Escritor É Um Escritor Morto é um livro precioso, com excelente tradução de Luís Oliveira Santos e revisão de tradução de Manuel Abrantes. As notas de rodapé contribuem, em muito, para esta preciosidade, porque constituem um guia excepcional para o leitor menos familiarizado com as tradições sociais, religiosas e políticas da antiga Pérsia e do actual Irão.

Convite - Antologia de Escritores Iranianos (1)

Este texto foi publicado originalmente na revista “Relações Internacionais” (R:I), nº 25, Lisboa, Março 2010 | This article was originally published in the Portuguese journal “Relações Internacionais” (R:I), nº 25, Lisbon, March 2010 edition

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