Ray Hanania diz que tem “a solução para a paz”

Árabe e americano, cristão casado com uma judia, anunciou-se candidato a presidente da Palestina. Tem, diz, um “plano revolucionário”: por cada colono que Israel mantiver na Cisjordânia aceitará um refugiado da guerra de 1948. Esta é a sua história – na primeira pessoa. (Ler mais | Read more…)

Ray Hanania e Helen Thomas, presidente da Associação de Correspondentes da Casa Branca - a mais antiga jornalistas nesta função. Nascida nos EUA de uma família oriunda do Líbano otomano, morreu em 20 de Julho de 2013, aos 92 anos,. Em 2010. foi pressionada a demitir-se por ter feito comentários controversos sobre Israel e os judeus. @RAY HANANIA

Ray Hanania e Helen Thomas, a primeira presidente da Associação de Correspondentes da Casa Branca. Nascida nos EUA, de uma família oriunda de Trípoli, no Líbano do Império Otomano, morreu em 2013, aos 92 anos. Em 2010, foi pressionada a demitir-se por ter feito comentários controversos sobre Israel e os judeus
© Ray Hanania

Sou Raymond (Ray) Hanania, palestiniano e cristão, casado com a judia Alison. Pertenço à primeira geração de árabes americanos, nasci em Chicago há 56 anos, descendente de refugiados da guerra de 1948.

O meu pai trabalhou para a organização que precedeu a CIA e eu combati na guerra do Vietname. Sou jornalista, colunista, blogger, locutor de uma rádio com uma audiência de seis milhões de ouvintes e faço espectáculos de stand-up comedy, nos Estados Unidos e no Médio Oriente.

Não, não é piada a minha candidatura a Presidente da Palestina, se houver eleições, em Janeiro de 2010.. [Não houve.] A minha ambição não é ocupar o cargo, mas usar estratégias criativas para revigorar o processo de paz.

A candidatura é uma maneira de fazer isso e, quem sabe, talvez possa ganhar. O meu propósito é quebrar o impasse que tem mantido palestinianos e israelitas prisioneiros de uma dança de morte que não conduz a lado nenhum. Se tiver de resumir as principais ideias do meu plano, são estas:

Aceito o carácter “judaico” de Israel, se Israel aceitar o carácter “não judaico” da Palestina. Oponho-me a todo o tipo de violência. Rejeito a participação do Hamas em governos palestinianos sem que primeiro entregue as armas e aceite dois Estados como um acordo de paz “final”. Também recuso que os colonos israelitas sejam portadores de armas. Devem estar sujeitos às mesmas restrições;

* Aceito que alguns colonatos se mantenham – dado que já lá vão 42 anos, desde a guerra de 1967 – numa troca de território dunum por dunum[medida estabelecida pelos otomanos e que ainda prevalece, equivalente a 1000 metros quadrados]. Se o colonato de Ariel corresponde a 500 dunums, então Israel deve oferecer à Palestina, em contrapartida, 500 dunums;

* Jerusalém deve ser uma cidade partilhada e os palestinianos devem ter uma presença oficial em Jerusalém Leste. A Cidade Velha deve ser partilhada por ambos, permitindo que todos tenham livre acesso à cidade, com uma força de polícia conjunta israelo-palestiniana;

* Os refugiados palestinianos desistirão da sua reivindicação de um retorno às suas casas e terras perdidas em 1948, durante o conflito com Israel. Alguns podem requerer a Israel reunificação de famílias e os restantes serão compensados através de um fundo criado e mantido pelos EUA, Israel, Egipto, Jordânia, Síria, Arábia Saudita e Nações Unidas. Apoio também a criação de um fundo semelhante para compensar os judeus de países árabes que perderam as suas casas e terras, quando fugiram;

* Os israelitas devem fazer um exame de consciência, mostrar compaixão e pedir desculpas aos palestinianos pelo conflito.

O elemento mais revolucionário do meu plano é permitir que os refugiados regressem, permitindo, como contrapartida, que os colonos permaneçam em colonatos na Cisjordânia.

Quantos dos estimados cerca de cinco milhões de refugiados regressarão dependerá de quantos dos cerca de meio milhão de colonos Israel insistirem em manter-se na Cisjordânia.

Também acredito que, em vez de tentar resolver um problema de cada vez, precisamos de ir directamente para a visão final, e criar um Estado palestiniano. Eu proponho colonos por refugiados, troca de territórios, a partilha de Jerusalém.

Ao fazê-lo, já estamos a superar obstáculos e a criar a atmosfera para solucionar questões específicas: que colonatos e territórios devem ser trocados, como repatriar alguns refugiados, e como administrar Jerusalém. Acredito que dois povos em paz podem ser mais compassivos e magnânimos e que, assim, é mais fácil obter um compromisso.

Ray - Photo 2

Para Hanania, “o elemento mais revolucionário” do seu plano “é permitir que os refugiados palestinianos regressem, permitindo, como contrapartida, que colonos permaneçam na Cisjordânia – quantos dos estimados cerca de 5 milhões de refugiados regressarão dependerá de quantos dos cerca de meio milhão de colonos de Israel se mantiverem na Cisjordânia
© Direitos Reservados| All Rights Reserved

Os palestinianos têm vivido como reféns da história, receando comprometer-se e exigindo sempre “tudo ou nada”. Nos últimos 62 anos de rejeição e de luta, os palestinianos não recuperaram nem um centímetro de território. De facto, à medida que o conflito continua, a identidade palestiniana está a ser apagada. Israel está a entrincheirar-se e a expandir-se.

Se tiverem acesso ao meu plano, os palestinianos que estão confinados aos campos de refugiados, sem qualquer esperança de vida ou de futuro, poderão ver quais os benefícios e dar o seu apoio. Se o fizerem, o conflito terá sido resolvido.

Compreendo a falta de fé. Os palestinianos sempre procuraram razões para não aceitar algo, enquanto pediam o impossível. Até podem desdenhar de mim, dizendo que não passo de um cristão, um palestiniano a viver no Ocidente, um americano. Mas, digam o que disserem, não deixo de ser palestiniano.

Também sou refugiado. Só que, em vez de viver num campo de refugiados, vivo num país estrangeiro onde a minha origem está constantemente a ser questionada. Não sou diferente dos restantes.

O meu pai, George John Hanania, é oriundo de uma importante família cristã de Jerusalém, que fugiu para a Jordânia depois da guerra de 1948. Foi o meu pai e o seu irmão que trouxeram os parentes para Chicago, onde eu nasci.

A minha mãe, Georgette K. Hanania, tem as suas raízes em Belém, mas a sua família emigrou para a América do Sul, quando o conflito se agravou entre 1960 e 1967.

No país que o acolheu, o meu pai foi soldado do 5º Exército Americano na Europa durante a II Guerra Mundial e, mais tarde, trabalhou no Office of Strategic Service (OSS), que antecedeu a CIA. O meu tio, Moses Hanania, serviu a Marinha dos EUA e o meu irmão John pertenceu ao corpo de Marines.

Eu estive ao serviço da Força Aérea americana durante a guerra do Vietname. Ganhei várias medalhas e distinções. Os meus pais queriam que eu fosse médico, como os meus primos, mas eu enveredei pelo jornalismo, assim que deixei a tropa. Durante a guerra do Vietname ficava impressionado ao ver os debates na televisão entre israelitas e árabes.

Num desses debates, vi que o israelita percebia muito mais de comunicação do que o árabe. Que o israelita se identificava com as audiências a quem se dirigia. O árabe parecia demasiado emotivo e culpava a audiência pelo conflito. Concluí que o nosso problema, como árabes, era não conseguirmos comunicar bem e eficazmente. Por isso, ajudei a fundar a National Arab American Journalists Association.

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O Israeli-Palestinian Comedy Tour, de que faz parte Ray Hanania: o fundador, Charley Warady, um americano que emigrou para Israel; Aaron Freeman, um negro que se converteu ao Judaísmo; e Yisrael Campbell, um católico que se tornou judeu ortodoxo – “todos empenhados em fazer humor com as suas experiências pessoais”
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Hoje sou consultor de media de algumas das 100 maiores empresas da revista Fortune. Escrevo análises políticas para vários jornais e sites norte-americanos (como Huffington Post), árabes (como o saudita Arab News), palestinianos (como o Al-Quds al-Arabi) e israelitas (como o Yediot Ahronot).

Fui Best Ethnic American Columnist in America em 2006/07, um prémio atribuído pela prestigiada New America Media Association e descrito nos EUA como “o Pulitzer étnico”.

Apresento um programa matinal na Rádio Chicagoland. Sou blogger do PalestineNote.com. Sou autor de vários livros (como Ya Habibi: Growing Up Arab in America I am glad I look like a terrorist – Growing uo Arab in America). Fundei, depois dos ataques terroristas de 11 de Setembro de 2001, o grupo Israeli-Palestinian Comedy Tour (com Yisrael Campbell, um católico que se tornou judeu ortodoxo; Aaron Freeman, um negro que se converteu ao Judaísmo; e Charley Warady, um americano que emigrou para Israel – todos empenhados em fazer humor com as suas experiências pessoais).

Como activista, destaco o meu envolvimento com os grupos pacifistas  Neve Shalom/Wahat al-Salam, Tikkun, Salam al-Ann! (Palestinians for Peace Now), Americans for Peace Now e Brit Zedek v’Shalom e American Arab Anti-Discrimination Committee.

De 1995 a 1996 fui presidente do Palestinian American Congress e, nessa qualidade, assisti à assinatura dos acordos de Oslo na Casa Branca [em 1993], entre Yitzhak Rabin e Yasser Arafat. Também assisti a numerosas reuniões do Presidente Bill Clinton com dirigentes israelitas e palestinianos.

Ainda não apresentei o meu plano de paz ao Presidente Barack Obama, mas estou convencido de que as minhas ideias podem ser adoptadas por americanos e europeus, se estiverem mesmo interessados em negociações sérias. Todos procuram uma resposta e eu acredito que o meu plano dá a resposta mais simples e lógica para o conflito.

O plano está a ser traduzido para árabe de maneira a chegar ao maior número possível de refugiados. Muitos palestinianos na Cisjordânia, onde tenho dado palestras sobre jornalismo e media, além de cursos nas universidades, já conhecem as minhas propostas.

Sem hesitar, Ray diz que aceita o carácter "judaico" de Israel, se Israel aceitar o carácter "não judaico" da Palestina. E acrescenta: “Os [judeus] israelitas devem fazer um exame de consciência, mostrar compaixão e pedir desculpas aos palestinianos pelo conflito”. @RAY HANANIA

Sem hesitar, Ray diz que aceita o carácter “judaico” de Israel, se Israel aceitar o carácter “não judaico” da Palestina. E acrescenta: “Os [judeus] israelitas devem fazer um exame de consciência, mostrar compaixão e pedir desculpas aos palestinianos pelo conflito” 
© Ray Hanania

Os israelitas também parecem apoiar o meu plano – o jornal H’aretz publicou artigos a exaltá-lo -, porque eu ofereço uma solução equilibrada. Estou convicto de que israelitas e judeus apoiam a paz, mas têm medo.

O conflito dá-lhes um sentimento falso de segurança – o de que se podem proteger, sendo ainda mais fortes e não tendo paz. Nenhum plano pode apagar anos de dor e sofrimento, mas acredito que vou conseguir muito apoio. Estou apenas no início.

Sei que a verdadeira oposição virá dos extremistas que não querem a paz e exploram 62 anos de tragédia em benefício pessoal. Eles criaram uma indústria que lhes deu empregos e uma razão de ser, embora vivam como um povo sem Estado ou direitos.

Para eles, é difícil aceitar a paz, porque, ao aceitá-la, as suas carreiras como activistas desaparecem. Prefiro que eles fiquem sem emprego do que ver mais um centímetro da Palestina desaparecer.

A sociedade palestiniana está a tornar-se mais restritiva desde a ascensão do Hamas e dos islamistas políticos ao poder, em 2006. São estes fanáticos religiosos, e não os muçulmanos per se, que estão a intimidar e a ameaçar os palestinianos cristãos, como eu, ou como o presidente da Câmara de Taybeh, só porque ele é o dono da fábrica de cerveja.

Os cristãos no Médio Oriente e no mundo islâmico enfrentam muitos desafios, mas não podemos estar sempre a culpar Israel. Esta é também uma das razões por que eu assumi esta causa e pergunto publicamente: “Podem os palestinianos, árabes e muçulmanos, eleger um cristão como presidente da Palestina?”

Uma coisa é responder sim, outra é pôr isso em prática. Os muçulmanos não podem ignorar os palestinianos cristãos e criticar Israel por violar os direitos dos que não são judeus. E Israel também não pode discriminar os cristãos e os muçulmanos, fingindo que existimos sem direitos.

Os que acreditam no compromisso e em dois Estados como solução vão olhar para o meu plano como a única maneira de resolver o conflito. Só temos de deixar de sonhar com o passado, que é realmente um pesadelo de sofrimento, e abrir os olhos para uma visão de futuro, em que os palestinianos possam viver como seres humanos, com respeito e dignidade no seu próprio país.

Não temos de matar outras pessoas para conseguir os nossos objectivos. Só temos de encontrar coragem para fazer o que está certo.

A partir de uma entrevista, por ‘e-mail’, com Ray Hanania

© Ray Hanania

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Este artigo foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO, em 15 de Dezembro de 2009 | This article was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on December 15, 2009

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