“Não podemos pedir respeito se mantivermos uma atitude de ódio”

Para o escritor e comentador político sírio Ammar Abdulhamid, a melhor maneira de o Ocidente ajudar os árabes e os muçulmanos “é apoiar financeira e politicamente os activistas da sociedade civil” que querem reformar o Islão como um todo. (Ler mais | Read more…)

© islam-religion.net

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Ammar Abdulhamid é romancista, poeta e comentador político – e um dos maiores opositores do regime de Bashar al-Assad. Dirige o Projecto Tharwa (Riqueza, em árabe), um programa que se bate por uma maior compreensão face às “preocupações e aspirações dos vários grupos minoritários religiosos e étnicos no mundo islâmico, numa tentativa de melhorar as relações entre as minorias e a maioria em cada país”.

[Deu-me esta entrevista antes de se tornar num dos maiores opositores do regime de Bashar al-Assad, defendendo uma intervenção militar e envio de armas à resistência envolvia, desde 2011, numa guerra civil para derrubar o filho do defunto Hafez.]

“Todos os inimigos do Islão juntos […] não poderiam alcançar tanta destruição como a que foi feita pelos filhos do Islão com a sua estupidez, erros e falta de conhecimento”, escreveu Abdullah al-Rashed, director da estação de TV Al-Arabiya. Ele defende que para mudar a situação, os muçulmanos têm de começar por reconhecer esta situação.

De facto. Os muçulmanos precisam de imaginar o seu comportamento e retórica relativamente ao mundo exterior. Não podemos esperar e pedir ao mundo que nos respeite enquanto mantemos perante ele uma atitude condescendente, de desdém e às vezes até de ódio.

Se queremos que o mundo oiça as nossas exigências e lamentações justas e nos ajude fazer frente aos nossos importantes desafios sociais, temos de estar dispostos a analisar as nossas atitudes com respeito “ao outro” e temos de condenar de forma inequívoca os actos de ódio cometidos em nosso nome.

Como é que os reformistas nas sociedades muçulmanas se podem opor aos seus regimes sem a ajuda dos países ocidentais?

Os reformistas árabes não têm nenhuma hipótese de êxito sem a ajuda da comunidade internacional. Os desafios que enfrentamos são demasiado imensos, e tanto as nossas sociedades como os nossos regimes são parte integral do problema.

Mas quando a comunidade internacional não faz mais do que assistir, quando apoia os nossos regime antidemocráticos, e/ou se imiscui nos nossos assuntos sem ter em conta potenciais consequências para nós, acaba por tornar-se também ela parte do problema.

Como é que o mundo pode contribuir para reduzir o apoio aos fanatismos? Ajudando os que o querem fazer dentro de cada país?

A melhor maneira de nos ajudar é apoiar financeira e politicamente a sociedade civil e ONG’s. Este apoio deve ser dado através das organizações internacionais sérias e da defesa de activistas que se envolveram e são, por isso, alvo de acusações e perseguições.

Os governos ocidentais também têm de aprender como enfrentar activamente regimes déspotas para evitar criarem situações como a que testemunhamos hoje no Iraque.

Garantidamente, não é algo fácil, mas pode ser feito, especialmente quando as políticas são desenhadas com a ajuda de conselhos de quem está dentro dos países em causa e em conjunto com pressões da própria sociedade civil de cada país.

© wikihow.com

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Num artigo recente na revista TIME, a jornalista Asra Q. Nomani descreve como muitos muçulmanos hoje adoram ídolos falsos, ídolos de ódio, violência e intolerância (como os falsos ídolos adorados pela tribo de Maomé antes do monoteísmo chegar à Arábia). O que pode ser oferecido em alternativa?

É exactamente essa a tarefa que enfrentam hoje os pensadores muçulmanos que querem mudanças: deviam conseguir trabalhar em conjunto para enunciar princípios claros e directivas que possam ajudar a desafiar as comunidades de crentes e abrir caminho para uma compreensão diferente e mais moderna do Islão.

As contradições entre os valores tradicionais e os modernos tornaram- se tão evidentes que as escolhas difíceis que nos esperam devem ser feitas tendo em conta muitos níveis.

A nossa relação com o resto do mundo – os nossos pontos de vista em relação ao mundo ainda são dominados pela divisão medieval de um mundo constituído pela ‘Casa do Islão’ e pela ‘Casa da Guerra’ –; as relações entre géneros; as diferenças internas de práticas religiosos e pontos de vista; as minorias religiosos e étnicas.

Faz sentido falar em reforma do mundo árabe ou muçulmano como um projecto global, qualquer coisa como o Grande Médio Oriente da Administração [de George W.] Bush? A única forma não é olhar para os problemas caso a caso?

Acredito que o Islão como um todo deve ser reformado. Mas não penso que valha a pena perder muito tempo a discutir ideias e princípios gerais.

Em última análise, as reformas só podem ter efeitos quando se adoptam e aplicam programas específicos para problemas específicos.

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A jornalista Nomani fala de uma luta pela alma do Islão. A natureza do problema torna-a necessária?

A forma como os russos lidam com a situação na Tchetchénia ajudou a radicalizar os tchetchenos, como a arrogância dos Estados Unidos e as suas políticas inconsistentes face à situação do Médio Oriente, em especial a luta israelo-árabe, criaram problemas para os muçulmanos. Mas os massacres em Beslan ou em Nova Iorque não mudam isso.

Por que é que o Islão não é capaz de inspirar formas de protesto mais razoáveis e métodos não violentos?

Há de facto um problema mais profundo do que uma mera luta por problemas políticos ou sociais. E esse problema acaba por estar relacionado com o Islão. Não com qualquer coisa que lhe seja intrínseca mas com a forma como a modernidade e o islão colidiram a certa altura.

A modernidade é um produto de uma dinâmica no interior das sociedades ocidentais. Enquanto o Ocidente estava ocupado a desenvolver-se e a reinventar-se constantemente, os muçulmanos estavam agarrados a uma forma de vida e a um sistema de valores que não mudou durante séculos. E ignoraram o que acontecia para lá do seu mundo e as implicações que isso teria para eles.

Só quando os poderes ocidentais começaram a aproximar-se de territórios islâmicos é que os muçulmanos começaram a olhar para a modernidade. Foi um encontro súbito entre duas ideologias messiânicas: uma medieval, outra moderna. E tudo foi afectado na vida dos muçulmanos: as relações entre quem governa e quem é governado, entre homens e mulheres, entre grupos religiosos, classes sociais, as formas básicas de gestão económica.

O Ocidente levou séculos a desenvolver a sua forma de vida, aos muçulmanos foi pedido que o fizessem instantaneamente. E isso não é fácil. Alguns responderam com rejeição e com a expressão dessa rejeição da forma mais violenta e niilista que se possa imaginar. Não se lhes pede apenas que se modernizem mas que aceitem a modernidade como ela existe e como um todo. Isso é muito difícil de engolir.

E o Ocidente percebe ou quer perceber isso?

Os intelectuais ocidentais devem lembrar-se e lembrar às pessoas como era o Ocidente há alguns séculos, como eram as coisas antes da modernidade. É aí que está a maior parte das sociedades muçulmanas. Vai levar tempo para que mudem.

A solução é olhar para os problemas que as sociedades muçulmanas enfrentam, para as corajosas tentativas dos reformistas de as enfrentar, falar com eles, ajudá-los. É o melhor caminho para garantir que este período de incompreensões e distanciamentos que atravessamos é o mais curto possível.

Ammar Abdulhamid, dissidente sírio, lançou em Agosto de 2014 o livro "The Irreverent Activist" © All Rights Reserved

Ammar Abdulhamid, dissidente sírio, lançou em 2014 o livro The Irreverent Activist.
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Este artigo foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em Setembro de 2004 | This article was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO in September 2004 

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