Dimitri Diliani: “Viver em dignidade é mais importante do que o direito de retorno”

Para o palestiniano que é porta-voz da Campanha do Povo para a Paz e Democracia, só um amplo movimento de massas será capaz de pressionar os líderes a pôr fim ao conflito. Mas será a opinião pública israelita que determinará a mudança. Esta entrevista foi dada em Sevilha (Espanha), durante um seminário organizado pela ONU. (Ler mais | Read more…)

Nearly three-quarters of surveyed Palestinian refugees would leave the camps if they could afford it, BADIL study shows.  © Issam Rimawi / APA images)

Um estudo da organização BADIL, conduzido entre 2010 3 2012 conclui que três quartos dos refugiados inquiridos sonham regressar à Palestina.
© Issam Rimawi | APA

O nome Dimitri Diliani leva as pessoas a confundi-lo com um grego, mas ele rapidamente esclarece que é “um orgulhoso palestiniano até aos ossos”. Baixinho e redondo, cristão ortodoxo (não crente em Deus), 30 anos, Diliani é acutilante no seu inglês aperfeiçoado numa universidade americana onde se licenciou em gestão de empresas.

A eloquência terá ajudado a fazer dele porta-voz e co-presidente da comissão de assuntos internacionais da Campanha do Povo para a Paz e Democracia. Trata-se de uma iniciativa que juntou o filósofo palestiniano Sari Nusseibeh e o almirante israelita Ami Ayalon, com o objectivo de recolher o maior número de assinaturas da “sociedade civil”, para forçar os líderes a resolverem o conflito.

A Declaração Nusseibeh-Ayalon, como também é conhecido o projecto, conquistou em quatro meses 60 mil simpatizantes palestinianos e 80 mil israelitas. Mas foi igualmente tomada de assalto por críticos e cépticos. Para estes, Diliani reserva a indiferença ou a tentativa de conversão, consoante as circunstâncias. Não cai em desânimo, mesmo quando os adversários o tentam desacreditar como “discípulo obediente de Nusseibeh”, o professor que o desviou da luta armada para a não violência.

São várias as cicatrizes que o exército israelita deixou no corpo de Diliani durante a primeira Intifada, a única revolta que ele acha merecedora desse título. A actual sublevação prefere caracterizá-la como “erro de uma liderança sem estratégia”.

Pelas ruas de Sevilha, no final de um seminário sobre o Médio Oriente organizado pelas Nações Unidas e pela Junta da Andaluzia e do qual foi um dos oradores, Diliani explicou-me por que devem os palestinianos abdicar do direito do retorno privilegiando “o direito de viver em dignidade”.

O professor Sari Nusseibeh ino seu gabinete na Universidade de  Beit Hanina, em Jerusalém Leste. © Nati Shochat |Flash90 | The Times of Israel

O professor Sari Nusseibeh no seu gabinete na Universidade de Beit Hanina, em Jerusalém Leste.
© Nati Shochat |Flash90 | The Times of Israel

O almirante na reserva Ami Ayalon, que se juntou a Nusseibeh na Campanha para a ©  Olivier Fitoussi | Flash90 | The Times of Israel

O almirante israelita na reserva Ami Ayalon, que se juntou ao palestiniano Sari Nusseibeh na Campanha do Povo para a Paz e a Democracia – uma iniciativa que fracassou como outras anteriores
© Olivier Fitoussi | Flash90 | The Times of Israel

Dimitri Diliani – A iniciativa começou no 36º aniversário da guerra de 1967, em Junho deste ano, mas foi precedida, em cerca de um ano e meio, por um intenso trabalho na Cisjordânia e Faixa da Gaza, para sublinhar a necessidade urgente de negociações sobre o estatuto final e de um acordo.

De quem partiu a ideia? Foi de Sari Nusseibeh ou de Ami Ayalon?

O professor Nusseibeh já escrevera sobre os princípios da nossa iniciativa num livro chamado No Trumpets, No Drums [em conjunto com o israelita Mark Heller, da Universidade de Telavive], em 1991. No entanto, no caso particular desta iniciativa, ela foi apresentada ao professor Nusseibeh por Ami Ayalon. Nusseibeh aceitou a ideia e começou a propagá-la junto de vários activistas palestinianos.

Quais são então os princípios da Declaração Nusseibeh-Ayalon?

Este documento, que nós, palestinianos, também chamamos Destination Map [“Mapa do Destino”], tem uma página e meia. Defende um Estado palestiniano ao longo das fronteiras de 1967, com margem para trocas territoriais numa proporção de um para um, em quantidade e qualidade; Jerusalém será uma cidade aberta, ficando os bairros árabes sob soberania palestiniana e os bairros judeus israelitas sob soberania do Estado de Israel; a soberania dos lugares sagrados pertencerá a Deus, mas os palestinianos deterão o controlo administrativo de Haram al-Sharif [Nobre Santuário], complexo que inclui a mesquita de al-Aqsa] e os judeus israelitas ficarão com o controlo administrativo do Muro Ocidental [ou das Lamentações].

Quanto aos refugiados, defendemos o seu regresso ao Estado palestiniano, que será desarmado. O documento também recomenda a evacuação – não o desmantelamento – de todos os colonatos na Cisjordânia e Faixa de Gaza. Ficam assim resolvidas todas as questões do estatuto final dos territórios ocupados.

Os campos de refugiados palestinianos no Líbanojá estavam sobrelotados, mas agora as condições deterioraram-se mais com a chegada de milhares de sírios que fogem da guerra civil. © focomediooriente.com

Os campos de refugiados palestinianos no Líbano já estavam sobrelotados – os residentes não podendo regressar às suas terras e casas no que hoje é Israel e privados de direitos básicos (como empregos vários) pela autoridades em Beirute  Agora as condições deterioraram-se mais com a chegada de milhares de sírios que fogem da guerra civil no seu país.
© focomediooriente.com

Quando refere a evacuação dos colonatos judaicos, está a falar por exemplo de Ariel, que é já uma cidade na Cisjordânia?

Sim, absolutamente!

E quando diz que os refugiados serão alojados no Estado palestiniano, significa que a vossa iniciativa abdica do direito de retorno a Israel?

O regresso a Israel, por motivos humanitários, ainda será sujeito a negociações, mas será sempre um número limitado de refugiados. Nós, os palestinianos, aceitámos e reconhecemos o Estado de Israel, geográfica e demograficamente. Se falamos numa solução de dois Estados, um deles terá de permanecer judaico. O factor demográfico tem de ser respeitado porque o reconhecemos.

Como é que os palestinianos serão convencidos a abdicar do direito de retorno?

A nossa iniciativa é a primeira a tentar resolver as condições miseráveis em que vivem os refugiados palestinianos. Até agora, temos sido muito bem sucedidos na nossa campanha nos campos de refugiados.

Por exemplo, em Gaza, temos um representante eleito para a comissão de refugiados. Em Tulkarm [Cisjordânia] também temos um representante para os refugiados. Portanto, os refugiados parecem dispostos a pagar o preço para pôr fim à sua miserável condição.

Eu creio que os palestinianos têm dois direitos: um é o direito de retorno e outro o direito de viver em dignidade. A nossa iniciativa é tentar concretizar o direito mais realista. Não nos parece que o direito de retorno possa ser posto em prática, como alguns exigem.

Yossi Beilin antigo líder do partido de esquerda israelita Meretz e um dos negociadores dos Acordos de Oslo em 1993. © middleeastmonitor.com

Yossi Beilin antigo líder do partido de esquerda israelita Meretz e um dos negociadores dos Acordos de Oslo em 1993
© middleeastmonitor.com

Secretário-geral da OLP,  Yasser Abed Rabbo, é  um dos pomotores da Iniciativa de Genebra, com Yossi Beilin, mas também esta não teve sucesso.  © Abbas Momani | AFP

Secretário-geral da OLP, Yasser Abed Rabbo, é um dos promotores da Iniciativa de Genebra, em colaboração com Yossi Beilin, mas também este plano não teve sucesso
© Abbas Momani | AFP

Quando refere os seus representantes entre os refugiados está a falar de palestinianos nos territórios ocupados, não naqueles que vivem no Líbano, na Síria ou na Jordânia…

… Se os refugiados na Cisjordânia e Gaza apoiarem a nossa iniciativa – eu sou um refugiado [antes da guerra, a sua família habitava em Jerusalém Ocidental e agora vive no sector oriental da cidade], creio que os refugiados no exterior serão mais facilmente convencidos a aceitarem este projecto.

Qual é, afinal, o vosso objectivo?

Queremos ter cada vez mais pessoas a aderir ao Destination Map, para exercer pressão sobre os dirigentes de ambas as partes, mas sobretudo de Israel, de maneira a retomar as negociações sobre o estatuto final, segundo as linhas propostas por Nusseibeh e Ayalon.

Quantos palestinianos já aderiram?

Nos últimos quatro meses, mais de 60 mil palestinianos apoiaram a nossa campanha. E estes 60 mil são significativos. Trata-se de activistas políticos palestinianos. São pessoas com credibilidade entre a população.

Um exemplo, em Hebron, há 47 comandos locais da Fatah [a principal facção da OLP] e cada um tem um secretário-geral. Desses 47, quarenta e quatro aderiram à nossa campanha. Isto diz-nos que somos um movimento realmente popular.

E do lado israelita?

Já temos 80 mil apoiantes, e não são apenas israelitas da esquerda.

O vosso projecto já foi suplantado pela recente Iniciativa de Genebra [negociada por Yossi Beilin e Yasser Abed Rabbo] ou, pelo contrário, pretende suplantá-lo?

Nós abrimos o caminho. O nosso documento não sendo igual é semelhante. Fomos os primeiros a congratulá-los [aos negociadores de Genebra], mas também recomendámos que eles se abrissem mais à sociedade civil e não contassem apenas com figuras da esquerda israelita que até já perderam influência na cena política. Era bom que eles abrissem as portas a pessoas do centro e da direita. Porque acreditamos que será a opinião pública israelita a determinar, efectivamente, a mudança.

A opinião pública israelita tem sido capaz de exercer pressão sobre os seus líderes. O movimento Peace Now contribuiu muito para a retirada do exército do Líbano, por exemplo.

Entre os palestinianos, todavia, têm sido mais audíveis as vozes hostis a compromissos. Como é que vão lidar com grupos como o Hamas e a Jihad Islâmica?

Entre os israelitas e palestinianos haverá sempre forças contra a paz. No entanto, a História tem-nos mostrado que, se houver progressos, a influência desses grupos diminuirá.

dimitri-diliani ©

Dimitri Diliani
© Just Vision

Este artigo, agora actualizado, foi publicado originalmente pelo jornal PÚBLICO, em 2 de Novembro de 2003 | This article, now updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO on November 2, 2003

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